Serie A

Faixas encomendadas

Como manda a tradição, o dérbi de Milão não esperou domingo para começar. Já na terça-feira era o principal tema esportivo do país, com o ‘silenzio stampa’ decretado por Massimo Moratti dali ao fim da partida. O chefão interista estava insatisfeito com a cobertura das principais emissoras televisivas do país, em especial com uma das tradicionais imitações de Teo Teocoli na Domenica Sportiva.

Mourinho e Ancelotti, por outro lado, continuaram sendo personagens. O ápice da semana foi quando o português não desistiu de sua tática de fazer bons amigos na Itália e tomou os títulos recentes de Inter e Milan como exemplo para dizer que só o melhor time vence o campeonato, enquanto não é sempre o melhor que vence a Liga dos Campeões.

À parte das polêmicas, e antes do jogo de fato, as duas torcidas se uniram em torno de Paolo Maldini. O capitão milanista disputou no domingo o seu 56º e provavelmente último dérbi, o 42º na Série A. Para efeito comparativo, o interista com mais clássicos contra o Milan é Giuseppe Bergomi, com 44 partidas. As imagens de Maldini saudando o público do San Siro, em especial a torcida nerazurra que levara faixas como “20 anni da rivale, ma sempre um avversario leale” (20 anos como rival, mas sempre um adversário leal), foi talvez a nota mais bela da noite.

Maldini: últimas lembranças do dérbi não serão as ideais para o milanista

Em campo, um Maldini baleado não foi suficiente na defesa. Kaladze esteve em uma péssima noite, enquanto Jankulovski simplesmente abstraía o fato de possuir responsabilidades defensivas. No meio-campo, Ambrosini foi o melhor em um espaço que tinha Beckham, Pirlo, Seedorf e Ronaldinho para se destacar. Então, ainda que Maldini tenha conseguido anular Ibrahimovic por quase todo o jogo, não faltou espaço para (todos) os outros jogadores da Inter.

O Milan chegou a dominar o início da partida, mas simplesmente não sabia o que fazer com a bola. A Inter, por outro lado, partia logo para o ataque e buscava a finalização a todo custo. E isso fez a diferença. Um carrinho milimétrico de Ambrosini tirou um gol de Stankovic que a torcida nerazzurra já comemorava, mas ainda assim foi a Inter que abriu o placar, com o polêmico gol de Adriano.

Após ser cabeceada, a bola bateu no braço do atacante e mudou totalmente de direção para enganar Abbiati e entrar no gol – polêmica suficiente para alimentar algumas semanas de mesa-redonda na Itália. O toque é inquestionável, assim como é difícil crer que o lance foi intencional. Então é complicado entender porque a procuradoria da Federação Italiana pediu julgamento ao caso, que precisava de uma resolução só em campo: gol assinalado por Roberto Rosetti e fim de papo.

Nos dois gols, o Milan esteve estático enquanto a Inter atacava se aproveitando de duas faltas despretensiosas na intermediária. No primeiro, os rossoneri assistiram ao cruzamento de Maicon, enquanto no segundo ninguém viu Stankovic descendo livre pela direita para receber um passe de peito de Ibrahimovic, o único lance de genialidade do sueco na partida.

Alexandre Pato ainda tentou empatar a partida, apenas com a companhia dos gritos de Inzaghi, mas foi muito pouco. A linha defensiva da Inter estava em uma noite soberba, bem como Muntari, que não permitiu que Beckham realmente entrasse em campo. Se a profecia de Mourinho de que “em fevereiro se verá a verdadeira Inter” se cumprir, as portas estão mais que abertas para uma temporada de caça ao Manchester United em duas partidas.

A Inter terá tempo suficiente para poder pensar na Liga dos Campeões, inquestionavelmente seu maior objetivo. Os nove pontos de vantagem sobre a Juventus e os 11 sobre o Milan tiram quase todo o risco de uma troca de liderança nas 14 rodadas finais. Na temporada passada, a Inter viu 11 pontos de vantagem sobre a Roma virarem poeira e o título ser decidido só na rodada final, mas o fato é que neste ano não há um adversário direto e presente para a Inter, como havia sido a Roma dos últimos dois anos.

Enquanto a disputa da Série A passada se concentrava claramente nos dois times, até agora não ficou claro quem será o ‘anti-Inter’ da temporada, Juve ou Milan. No domingo, a Inter demonstrou sua superioridade sobre um Milan sempre mais desgastado. Ainda que tecnicamente inferior, taticamente a solidez interista impressiona após um tempo de relativa indefinição. O preparo físico do time também parece ter chegado a seu nível mais alto – e quem tem de marcar as subidas de Maicon que o diga.

Na outra lateral, o jovem Santon foi uma ótima aposta de Mourinho. Com apenas 18 anos, mandou para o banco o brasileiro Maxwell e desde sua estreia contra a Roma, há pouco menos de um mês, não há muito que dizer além de que é alguém que veio pra ficar. Na coletiva de imprensa depois do dérbi, Santon deu sua primeira entrevista como profissional, já que o treinador o havia proibido de concedê-las, numa tentativa de preservação. No melhor estilo Mourinho, os jornalistas presentes ouviram um “desfrutem essa ocasião, porque até a próxima se passarão entre dois e três meses”.

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A coluna completa, nesta terça-feira, na Trivela. Além do dérbi, um pouco sobre a ressurreição do Torino e a vexatória derrota da Roma para a Atalanta.

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