Categorias de base

Review – Copa Viareggio 2009

Seguindo um modelo semelhante ao do ano passado, o review especial da Copa Viareggio – até então Torneo di Viareggio – vem para passar as informações sobre esta que é uma das competições de base mais tradicionais do mundo. Começando pelas decepções – seção da qual o Milan, parado na primeira fase, não foi citado pois as expectativas ao redor dos rossoneri já eram baixas – o especial também dá destaque aos semifinalistas do torneio. A Juventus, campeã pela sexta vez, tem um subtítulo dedicado à sua campanha. Tenha, mais uma vez, uma boa leitura.

Camisa 11, 8 gols: Daud levou a Juve à conquista do título em Viareggio

Decepções

Roma
Técnico: Alberto De Rossi.
Quando caiu: primeira fase.

D’Alessandro: o fracasso da Roma passou por suas atuações apagadas

“Disparado, o maior fiasco.” Exatamente assim, há pouco mais de um ano, começava a seção de decepções do Torneo di Viareggio. O mesmo início pode ser utilizado para descrever a mesma equipe e a mesma eliminação sofrível ainda na fase de grupos. A diferença, porém, veio no número de pontos: em 2009, os comandados de Alberto De Rossi conquistaram três após a vitória sobre o Aarhus, da Dinamarca, que acabou sendo o saco de pancadas do grupo 7. Os giallorossi, confiantes em Marco D’Alessandro, só puderam se lamentar após as impactantes derrotas por 3 a 0 para Reggina e Cisco Roma.

Enquanto estas duas empatavam na estreia da competição e a Roma goleava o clube dinamarquês, não foi difícil pensar que desta vez os romanistas embalariam. Todavia, já no segundo confronto, bastou um gol de Iannazzo, aos sete minutos de primeiro tempo, para a Reggina desesperar a equipe rubro-amarela. Com menos de meia hora de jogo e 2 a 0 no placar – o qual ainda foi ampliado por Viola -, restou à Roma o pensamento na partida seguinte, contra o Cisco, para vencer e garantir sua qualificação. Contudo, mais uma vez o psicológico do time deixou a desejar: a expulsão do defensor Sebastian Mladen ainda no primeiro tempo foi suficiente para desestruturar a retaguarda e, na volta do intervalo, tomar três gols em trinta minutos.

Empoli
Técnico: Ettore Donati.
Quando caiu: primeira fase.

Vice-campeão da edição passada, o Empoli, desta vez, sequer passou da primeira fase. E, por pouco, não teve que disputar a vaga nas oitavas por sorteio. Após vencer o clube que acabaria como líder do grupo, Spartak de Moscou, na primeira rodada, os azzurri perderam o dérbi toscano para o Siena por 2 a 1, mesmo contando com um Pucciarelli inspirado. Na partida entre Empoli e Nacional, que ajudaria a decidir o rumo do grupo 5, contudo, houve um acontecimento curioso: até os 44 minutos do segundo tempo, a segunda vaga entre os quatro concorrentes seria disputada no sorteio entre as equipes toscanas. Isto porque, como dita o regulamento, é o modo de desempate para situações nas quais tanto o saldo de gols quanto o número de gols marcados é o mesmo.

Entretanto, para acabar com a empolgação de quem sonhava em ver bolinhas alterando o futuro do torneio, Cabrera – que havia entrado no primeiro tempo – balançou as redes no final de um jogo que contou com três expulsões; duas para os italianos e uma para os uruguaios. Infelizmente para os azzurri de Ettore Donati, Luca Hemmy, um dos principais nomes da campanha de 2008, só pode entrar em campo no jogo contra o Nacional devido a problemas físicos: o atacante pisou no gramado aos 15 minutos do segundo tempo e, mesmo assim, deixou o seu ao converter um pênalti nove minutos depois.

Fiorentina
Técnico: Alberto Bollini.
Quando caiu: oitavas-de-final.

Oito vezes campeã do torneio, a Fiorentina decepcionou quando exigida além de seu fraco grupo. O time de Alberto Bollini iniciou a competição com um empate por 1 a 1 contra o Dukla Praga. O gol viola, inclusive, foi marcado pelo brasileiro Jéfferson. Já na segunda rodada, no confronto contra o Pisa, uma vitória emocionante: após Tagliani abrir o placar e Taugourdeau empatar para a equipe da Serie B já próximo dos 40 minutos do segundo tempo, Giacomo Lepri, que tinha entrado em campo havia trinta minutos, não deu chances ao goleiro Sarti e garantiu três pontos à Fiorentina. Para fechar o grupo 8, uma convincente vitória por 5 a 0 sobre o New York Red Bulls confirmou a primeira posição e, consequentemente, a passagem de fase dos viola.

O fiasco veio logo na partida seguinte, contra o Maccabi Haifa, segundo colocado do grupo 2, que teve como líder a campeã Juventus. Em jogo truncado no qual pouco se pode ver de futebol, o placar fechado correspondeu às escassas situações de perigo. Na decisão por pênaltis, Tagliani e Lepri – os dois que haviam dado a vitória ao clube contra o Pisa – desperdiçaram suas cobranças. Os israelenses, impecáveis nas grandes penalidades, garantiram a própria vaga para as quartas de final, quando enfrentaram a Inter e caíram pelo placar de 3 a 0.

As semifinalistas (por Nelson Oliveira)

Marilungo: Golden Boy segue ensaiando comemoração na Primavera

Sampdoria (finalista)
Técnico: Fulvio Pea.
Destaques: Vincenzo Fiorillo (g), Vasco Regini (d), Guido Marilungo (a), Nicola Ferrari (a).

Credenciada como favorita graças aos títulos da copa e do campeonato da categoria, a Sampdoria passou pela primeira fase como um foguete: o atacante Guido Marilungo, congratulado ao fim do torneio como melhor jogador, com o prêmio “Golden Boy”, marcou o gol da vitória contra o Pakhtakor e outro, na vitória por dois a zero contra o Bologna. No entanto, a boa campanha do clube doriano não se resumia a Marilungo. Atrás, o goleiro Fiorillo e o defensor Regini (já integrados ao elenco profissional), além do versátil Perazzo, que atua como zagueiro e ala, davam segurança para que Mustacchio e Muratore abastecessem o ataque do time. Nicola Ferrari, que ganhou mais destaque no elenco primavera após o aproveitamento de Marilungo no elenco principal, se aproveitou disso e foi autor de quatro dos treze gols da equipe da Ligúria. Jogando mais fixo na área adversária, seu forte é o cabeceio – modo como marcou sua doppietta contra o Palermo, nas quartas-de-final. Foi também contra os rosaneri que Marilungo voltou a marcar. E foi um golaço, em uma jogada de habilidade e controle de bola que lembrou o estilo de Ibrahimovic. Deixou quatro adversários para trás, antes de empurrar para as redes. Aparentando ser um jogador de muito futuro, Walter Mazzari, técnico dos profissionais, já tem o atacante como opção para o banco. Parece questão de tempo pra que o atacante brilhe na Serie A. Por enquanto, ele vai consagrando sua já tradicional comemoração (foto) entre os primavera.

Ao avançar para as semifinais, a Sampdoria estava perto de conseguir um “tris” histórico: copa, campeonato e Viareggio. O emparelhamento formou um embate duríssimo: Inter x Sampdoria. Ambas com 100% de aproveitamento em Viareggio, as duas melhores divisões de base do país na atualidade se encontrariam, na partida que muitos acreditavam ser uma “final antecipada”. Melhor para os blucerchiati, que derrotaram a Inter por 2×1, em grande exibição não de seu forte ataque, mas de outro setor: a defesa. Neste jogo, os créditos foram para o goleiro Fiorillo e de sua linha de zaga, formada por Patacchiola, Perazzo e Regini. Na final, a Sampdoria tinha a chance de garantir o “tris” e, de quebra, desbancar a Juventus, que surpreende ao tomar a liderança do time de Gênova em seu grupo, no campeonato Primavera. Um resumo da final pode ser lido a seguir.

Inter
Técnico: Vincenzo Esposito.
Destaques: Vid Belec (g), Luca Caldirola (d), Cristian Alexandru Daminuta (d), Mattia Destro (a), Aiman Napoli (a).

Do grupo campeão no ano passado sobraram vários remanescentes, embora a maior parte deles fosse reserva em 2008. Homens de confiança do técnico Vincenzo Esposito, o goleiro Belec, o zagueiro Caldirola, os meias Khrin, Gerbo e Obi, além dos bons atacantes Napoli e Destro, assumiram a responsabilidade e foram os jogadores mais importantes da equipe nerazzurra durante o torneio. Entre os novatos, Mei, Daminuta e Stevanovic (este último contratado em janeiro, estreando pela Inter em Viareggio) buscavam afirmação. Na primeira fase, a Inter confirmou o favoritismo e passou com facilidade por Queens Park Rangers (2×1), Palermo (1×0) e APIA Leichhardt (4×1), mesmo mudando algumas peças a cada jogo. Em seu 4-4-2, Esposito prefere deixar um atacante mais fixo, acompanhado por outro mais habilidoso. Assim, Bocalon era titular absoluto, enquanto Napoli e Destro – artilheiros e melhores jogadores da Inter no campeonato Primavera – disputavam a outra vaga. Destro, mesmo saindo do banco na maioria das vezes, foi o artilheiro da equipe, com três gols, seguido por Napoli, com dois.

Mattia Destro, da Inter, mudava o jogo quando vinha do banco

Nas oitavas, a Inter teve pela frente um adversário mais duro: o Vicenza, semifinalista da última edição. Os comandados de Esposito venceram por 3×1, jogando bem contra uma equipe que contava com Ortolan e Maaroufi (ex-Inter), mas não com Forestieri, integrado ao time principal. Nesta partida, destaque para um belo gol num tiro de falta, a trinta metros do gol, feito pelo zagueiro Daminuta (tido como herdeiro de Chivu). Nas quartas-de-final, a Inter não tomou conhecimento do Maccabi Haifa – único sobrevivente estrangeiro em Viareggio após a vitória ante a Fiorentina – e aplicou um sonoro 3×0. A confiança era alta, mas o adversário da semifinal não poderia ser pior: a Sampdoria, de Guido Marilungo. Mesmo eliminada após esbarrar na forte defesa da “Samp”, e saindo do torneio sem o bicampeonato, a participação da Inter em Viareggio acabou sendo positiva: mostrou que tem um trabalho de base consolidado, sob a batuta de Vincenzo Esposito, e que pode revelar jogadores para o elenco principal. Basta lembrar que Giuseppe Baresi, auxiliar de Mourinho, comandava o vivaio do clube até pouco tempo atrás. Deste modo, Balotelli e Santon podem ganhar a companhia de Belec, Mei, Daminuta, Destro e Napoli, todos acompanhados de perto por Mourinho.

Torino
Técnico: Giuseppe Scienza
Destaques: Rolandone (m), Suciu (m), D’Onofrio (a).

Surpreendente. O adjetivo pode definir a campanha do Torino em Viareggio. Desacreditado em nosso preview por estar fazendo má campanha no campeonato Primavera italiano, o Torino contou com um caminho relativamente fácil, se comparado com as outras semifinalistas. Tendo caído num grupo fácil, o time passou invicto por Belasica, Bari e Independiente de Santa Fé. Ainda assim, o caminho, aparentemente fácil, não foi tranquilo: as vitórias sobre Belasica e Bari foram conseguidas com muito custo, graças a gols marcados pelo atacante D’Onofrio. Contra o Bari, por exemplo, a vitória magra surgiu depois de uma cobrança de pênalti convertida pela revelação granata.

Nas fases eliminatórias, o “Toro” continuava muito dependente da dupla Suciu-D’Onofrio. Nas oitavas-de-final, contra o surpreendente time sub-18 da Cisco Roma, a equipe de Turim venceu os romanos por 3×1, com dois gols marcados pelo bomber granata. Só nas quartas-de-final, o Torino teria uma prova de fogo; enfrentaria a Reggina, que havia se classificado no mesmo grupo que a Cisco Roma e também contava com uma dupla que estava fazendo sucesso no carnaval italiano: o meia-atacante Viola e o centroavante Ianazzo. Em uma partida tensa, em que a Reggina esteve duas vezes à frente – com dois tentos assinalados por Ianazzo –, o Torino empatou com Avanzi e, mais uma vez com D’Onofrio. Nos pênaltis, deu Torino (6×3), mas o time seguiria para fazer um dérbi nas semifinais sem dois jogadores importantes, o goleiro Gomis e o meia Rolandone.

D’Onofrio, que tinha o mérito de ter marcado em todas as partidas disputadas no torneio até então, desapareceu no dérbi, quando todo o time teve um apagão, sem a presença dos dois suspensos. O bom desempenho em Viareggio traz esperança para o restante do campeonato Primavera e até mesmo para a equipe profissional, que pode apostar em Suciu e D’Onofrio para escapar do rebaixamento.

A campeã

Juventus
Técnico: Massimiliano Maddaloni.
Destaques: Daud (a), Immobile (a), Marrone (m), D’Elia (d), Ariaudo (d).

A primeira partida da Juventus na competição, contra o Maccabi Haifa, acabou sendo um reflexo de todo o torneio da equipe bianconera. Os motivos? Vitória convincente e gols de Ayub Daud. O meia-atacante da Somália realizou os dois tentos da Vecchia Signora na vitória por 2 a 0. No confronto seguinte, contra o Parma, a mesma situação da estreia: vitória e gol de Daud. A Juve, pressionando desde o início e movida pelo tridente ofensivo Daud-Immobile-Esposito, ditou o ritmo do jogo, que permaneceu com placar fechado até os 30 minutos do segundo tempo. Para fechar a fase de grupos, os bianconeri, já classificados, entraram em campo com uma equipe praticamente toda reserva contra o Frosinone. O goleiro Sperduti, em jogada atrapalhada de escanteio, marcou um gol contra, abrindo o placar para a Juventus. Mal houve tempo para comemorar, visto que cinco minutos depois Cardinali já igualaria – e fecharia – a contagem.

Nas oitavas-de-final, um encontro igual ao de 2008: na mesma fase, Juventus e Lazio se enfrentaram. Naquela ocasião, porém, os laziali haviam levado a melhor. Logo no início da partida, Daud, mais uma vez, deixou o dele, aproveitando-se de bate-rebate na grande área para concluir de perna esquerda. A Juve teve duas chances claras de ampliar o marcador, mas quem chegou às redes foi a Lazio: o zagueiro Tuia, batendo pênalti, deixou tudo igual. Com 20 minutos de segundo tempo, em mais um bate-rebate na área romana, o também zagueiro De Paolo colocou os bianconeri na frente mais uma vez. A Lazio ainda empataria novamente, levando a decisão da vaga para os pênaltis. Após Cavanda desperdiçar uma cobrança alternada, os juventini conseguiriam então se vingar do confronto do ano passado, passando para as quartas de final do torneio.

No confronto entre as duas equipes alvinegras, quem saiu na frente foi o Siena, em cabeçada de Larrondo. Quando a apatia juventina em campo parecia levar a um resultado desagradável para o grupo de Maddaloni, mais uma vez a estrela de Daud brilhou. A dois minutos do fim do primeiro tempo, após grande falha do goleiro Ivanov, o meia-atacante, em outro momento de grande oportunismo, só teve o trabalho de completar para o gol. E sua doppietta veio logo aos quatro minutos de segundo tempo. A Juventus deslanchou e, dois minutos depois, fez mais um com Marrone. Ainda deu tempo de Giannetti descontar para o Siena aos 90’. Nas semifinais, o dérbi de Turim garantiria a Vecchia Signora na final. Esta provavelmente foi a vitória menos empolgante da campanha bianconera: fora os gols, pouquíssimas chances foram criadas durante o jogo. Uma Juventus fria e calculista, com dois de Immobile e um de Daud, chegava à final da Coppa Viareggio 2009 para enfrentar a Sampdoria.

O gol contra de Perazzo aos 13 minutos de jogo deu a famosa “sorte de campeão” à Juve. Desestabilizando a Sampdoria, que foi forçada a se lançar ao ataque, sobrou espaço nas laterais. E, do mesmo lado esquerdo em que havia surgido a jogada do primeiro gol, D’Elia, em belo lance individual, foi à linha de fundo e deixou a bola em cima da linha para Immobile aumentar o placar. Querendo mais, logo na volta do segundo tempo, Daud – da esquerda e de esquerda – conseguiu acertar um chute magnífico que sacramentaria a partida. A Samp ainda diminuiria com Di Leva, em uma falta totalmente desviada na barreira. Immobile, aproveitando-se de recuada bizarra para o goleiro, tomou a bola e fechou o placar, aos 47 minutos de segundo tempo.

O número de gols de Daud – oito – é uma equivalência ao recorde de Giacomo Banchelli, então na Fiorentina, em 1992. Tanto ele quanto Immobile, nascidos em 90, não devem ter muitas oportunidades na equipe principal tão cedo. Do grupo campeão de Viareggio, aquele mais próximo de atuar pelo time de cima é Albin Ekdal, meio-campista sueco, que já treina com os mesmos. Outros jogadores, como Castiglia, Esposito e Vecchione também já serviram os profissionais. Em 94, a única vez na década de 90 em que a Juventus faturou Viareggio, Alessandro Del Piero fazia parte da equipe. Já nas conquistas recentes, nomes como De Ceglie, Criscito, Marchisio e Giovinco foram lançados.

Esta é, naturalmente, a hora de dar o tempo certo aos garotos e esperar pelos resultados profissionais da vitoriosa base juventina.

1 comentário

  • Parabéns pelo texto Matts! Acompanhei a fase final do torneio e posso dizer que como juventino esses últimos anos me encheram de orgulho e esperança. As revelações de Giovinco, De Ceglie, Marchisio, Ariaudo entre outros, prova que o clube está mudando sua mentalidade e os resultados (profissionais) serão colhidos com o tempo.

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