Serie A

A competência é vermelha e azul

A chance de que algum time passe pela experiência de, em apenas quatro anos, jogar a terceira divisão de seu país e a mais importante competição de seu continente é muito reduzida. Até mesmo com a recente cultura futebolístico-empresarial, na qual milionários ambiciosos compram clubes pequenos para transformá-los em equipes-empresa competitivas. Na Itália, o Genoa está bem próximo de contrariar as possibilidades: após a demonstração de força com a vitória sobre a Juventus, a squadra rossoblù se afirma como favorita à vaga (inédita) para a Liga dos Campeões, reocupando a quarta posição. Mais: a derrota da Roma no clássico capitolino separou por oito pontos os grifoni da sexta colocada, praticamente confirmando que, na próxima temporada, a equipe genoana deve jogar ao menos a Liga Europa.

Ci pensa Motta! Futebol do meia é resumo do renascimento grifone

A receita do sucesso passa basicamente pela mescla de três fatores. O primeiro deles foi a aposta bem sucedida em jogadores mais experientes ou desacreditados por possuírem qualidade técnica questiovável. São os casos de Biava, Ferrari, Sculli, e dos brasileiros Thiago Motta e Rubinho: apesar de todas as críticas que receberam em suas carreiras, os cinco fazem temporadas praticamente impecáveis.

Rubinho ajuda a confirmar a boa fase dos goleiros brasileiros na Itália, e, desde a Serie B, apresenta nítida evolução em comparação à sua passagem pelo Corinthians. À sua frente, Ferrari nem parece o mesmo defensor inseguro e capaz de cometer falhas incríveis (como as que marcaram sua passagem pela Roma), enquanto Biava faz temporada superior a sua primeira na máxima divisão do país, pelo Palermo. Completando o trio de italianos em boa fase, Sculli, crescido no vivaio da Juventus e parte da seleção italiana que garantiu o bronze olímpico em Atenas (2004), tem sido tão útil quanto versátil: atuando como meia ou atacante pelos lados do campo, ele já marcou oito gols nesta Serie A, apresentando tardiamente – já tem 28 anos – o que se esperava de seu futebol.

Porém, o caso mais emblemático e simbólico da reação grifone é o de Thiago Motta. A ex-promessa do Barcelona, com passagem sofrível pelo Atlético de Madrid é, na opinião deste colunista, o mais importante jogador da equipe da Ligúria: excelentes exibições de Motta foram fundamentais para que o Genoa conquistasse pontos valiosos, como o conseguido no Giuseppe Meazza, ante a Inter. Além disso, cresceu em momentos decisivos e marcou seis gols para os rossoblù, inclusive em momentos cruciais de afirmação da equipe, como no sábado, quando marcou sua dopietta contra a Juventus, clube o qual o Genoa não vencia havia 14 anos. Por possuir dupla nacionalidade (brasileira e italiana), o meia chegou até a ser cogitado para a seleção italiana – embora depois se tenha percebido que ele não poderia jogar pela Azzurra, pois já tinha participado da Copa Ouro, atuando pelo Brasil.

Construindo para o futuro

“Mas como assim Milito não é o jogador grifone mais importante nesta temporada?”, pode se perguntar o leitor. O argentino é o segundo motivo de sucesso do Genoa nesta temporada. Contratado pela segunda vez na gestão do presidente Enrico Preziosi (a primeira tinha sido quando o clube do Marassi jogava a Serie B), “o Príncipe” foi uma das principais negociações da janela de verão em toda a Itália e demonstrou que o Genoa teria grandes ambições para esta temporada. As saídas de Bovo, Konko e, principalmente, Borriello, não afetaram o modo de jogar do time, que continuou a atuar sob o 3-4-3 compacto e ofensivo do técnico Gian Piero Gasperini. Assim, com moral de Bola de Ouro, Milito encontrou um time organizado para jogar para ele e não está decepcionando: marcou 16 gols até este momento.

No entanto, neste momento nevrálgico para a conquista da vaga inédita para a Liga dos Campeões, o bomber argentino tem deixado a desejar: passando por um momento abaixo da média, Milito se lesionou quando viajou até a América do Sul para defender a seleção argentina. Mas sua ausência não tem sido tão sentida, já que os atacantes da equipe têm dado conta do recado.

Além de Sculli, outros jogadores desacreditados em suas ex-equipes, como Palladino, Jankovic e Olivera (este em menor grau), encontraram no Marassi um treinador que lhes fez tirar o máximo de seu futebol. Gasperini, tentando cobrir as ausências de Milito, tem utilizado um esquema em que os três atacantes variam muito de posição. Foi a partir dessa mobilidade que Palladino, ex-Juventus, apareceu no centro da área bianconera para marcar o gol da vitória do time da casa.

Gasperini pode estar recolocando o Genoa na trilha do sucesso

Gasperini, “Panchina d’Argento” (segundo melhor treinador da última temporada italiana), é um técnico motivador, que está conseguindo fazer sua equipe jogar sem badalação e com muita modéstia. O fato de ter sido treinador das categorias de base da Juventus por nove temporadas lhe possibilitou trabalhar essas características, afinal, trabalhar com jovens requer muito mais cuidado e atenção psicológica.

Acostumado a trabalhar com promessas, o piemontês pediu a contratação de jogadores em processo de amadurecimento e com muito potencial, como os supracitados Jankovic e Palladino. Além deles, os defensores Bocchetti e Papastathopoulos, e os laterais Vanden Borre e Criscito têm feito grande temporada: a defesa do Genoa é a terceira melhor de toda a Serie A, com 29 gols sofridos. Na próxima temporada, o treinador pode apostar ainda nos defensores Ranocchia e Troest, que ainda estão vinculados ao clube rossoblù e são boas opções dos elencos de Bari e Parma, líderes da Serie B. Ligados ao Genoa ainda estão o meia Raggio Garibaldi, emprestado ao Pisa e um dos melhores jogadores italianos no Europeu sub-17, além do jovem meia El Shaarawy, que é presença constante na Azzurra sub-17 e já tem freqüentado a equipe principal.

Se a classificação for mesmo alcaçanda, a margem para o renascimento do clube, que já foi nove vezes campeão da Serie A, é enorme. Com um ótimo técnico, uma grande geração e dinheiro na conta (seja por boas vendas de jogadores e carnês ou pela conquista da vaga), o Genoa pode sonhar com um futuro brilhante, como o seu passado.

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