Serie A

Um bom filho a casa entorta

Pepe (centro) e D’Agostino comemoram. Pela Udinese

Sem o passado do Milan, o presente da Inter e o futuro da Juventus, a Roma não só vive um péssimo momento como não inspira otimismo para o futuro.

Os problemas de hoje

Sua categoria de base não tem funcionado muito bem, seu departamento médico consegue competir com o próprio elenco, seu principal jogador e ídolo está desgastado, seu treinador parece – mais uma vez – ter seu ciclo naturalmente encerrado, seus esquemas já não funcionam, a equipe não possui mentalità vincente, seu psicológico é fraquíssimo. Entre os jogadores, Aquilani nunca se concretiza, Menez teima em se jogar ao chão, Vucinic vive de lampejos, Julio Baptista tem dias em que não consegue dominar a bola, Mexès continua se enfezando nos momentos cruciais e Juan nunca é presença garantida.

Pelo lado financeiro, tem-se uma situação na qual não é possível contratar craques e nem errar nas apostas. Uma opção seria jogar as fichas em jovens de talento, como um Lavezzi, por exemplo, que custou ao Napoli pouco mais da metade da quantia gasta em Baptista. Como a visão de mercado da Roma é indubitavelmente limitada, somando-se ao fato da base continuar deixando a desejar, resta, portanto, a contratação de jogadores de nível mediano, ou então de nível mais alto, porém em decadência. Riise, Cicinho, Perrotta, Baptista e Pizarro são exemplos de um ou de outro. Outros medianos, como Cassetti, Doni, Tonetto e Taddei, vieram após fim de contrato com seus clubes anteriores.

Baptista: sinal positivo ou mais um mediano que não deu certo?

Moneytalks

Muito dinheiro foi desperdiçado nos últimos anos. Olivier Dacourt, volante grotesco, custou quase 10 milhões de dólares; Mido, o egípcio brigão, também. Cassano saiu a preço de banana graças à proximidade do fim de seu contrato e o mesmo motivo reduziu bastante os valores de Chivu e Mancini. O primeiro, inclusive, deu prejuízo à Roma, bem como o barês. Isso prova que tais desacertos não são coisa antiga. Porque não estamos contando, claro, uma das piores negociações de todos os tempos, aquela de Fábio Junior – o “novo Ronaldo” – por 19 milhões de dólares. O problema é que a Internazionale pode se dar ao luxo de trazer Quaresma e Mancini sem sucesso, o Milan tem grana para gastar com ex-jogadores e se arrepender; a Roma não.

Como já mencionado, os giallorossi não têm a mesma visão de um Villarreal, por exemplo, que se não é brilhante, é, no mínimo, bastante eficaz. O submarino amarelo conseguiu trazer inúmeras promessas – principalmente sul-americanas – e ainda lucrar consideravelmente, chegando a um claro crescimento, garantindo assim, como consequência, presente e futuro. A questão principal deste texto é: até que ponto alguns erros do passado não comprometem – e muito – a Roma de hoje e de amanhã? O próximo ponto a ser analisado é a categoria de base. Será que ela deixou tanto a desejar assim?

Mancini e outro dedão positivo: lucro para a Roma, luxo para a Inter

O bom filho a casa entorta

Marco Amelia, Cesare Bovo, Damiano Ferronetti, Daniele Galloppa, Gaetano D’Agostino, Daniele Conti e Simone Pepe – o que todos estes têm em comum? Sua formação. Todos eles saíram das categorias de base da Roma. Se não são craques, sua utilidade, pelo menos, não tem muita discussão. E dos jogadores citados, somente D’Agostino não nasceu na província de Roma. Algo valioso para uma agremiação cuja torcida valoriza tanto a origem de seus ídolos, vulgo bandeiras.

Amelia talvez tenha passado pela situação mais infeliz. Romanista assumido, cansou de declarar seu amor à equipe e sua vontade de vestir a camisa do clube do coração. O goleiro, entretanto, nunca jogou oficialmente pelos giallorossi. Quando estes foram campeões da Itália, em 2001, Amelia – ainda muito jovem – era somente a terceira ou quarta opção para o gol. Sem chances de se tornar titular, mesmo a Roma se mantendo com goleiros inconfiáveis, tentou sua sorte no Livorno e, lançado por Roberto Donadoni, aproveitou suas oportunidades na temporada 2002/03. Desde então não decepcionou, sendo o terceiro goleiro da Itália na Copa do Mundo de 2006. Transferido para o Palermo, viu-se, mais uma vez, distante da capital. Tivesse ele permanecido e recebido as devidas chances, sucedendo Antonioli, provavelmente Pelizzoli e Zotti não teriam matado a torcida do coração. Doni, por sua vez, nem seria contratado.

Na zaga e laterais, Bovo e Ferronetti podem passar longe de excelentes nomes, mas sem dúvida nenhuma compensariam muito mais que os bizarros Traianos Dellas e Abel Xavier, que passaram recentemente pelo clube; e o atual reserva de imediato Simone Loria. Provavelmente mais do que o mal-sucedido Matteo Ferrari também. Bovo até recebia certo afeto da torcida e parecia se desenvolver como jogador. Sua decisão de co-propriedade, contudo, teve proposta maior do Palermo, que se assegurou do defensor. Passados os problemas físicos, Bovo, hoje, parece ter enfim se firmado no futebol. Ferronetti nunca recebeu oportunidades decentes em Roma e, hoje na Udinese, não só brigou por posição com Marco Motta – ironicamente agradando a todos na Roma – como mostrou-se versátil nos dois lados do campo. Ambos já serviram as seleções italianas de base.

Galloppa é um caso que chega a beirar o absurdo: talento indiscutível no Siena, mostrou-se um meio-campista de bom nível para a Serie A; foi, inclusive, nome certo para retornar à Roma em definitivo. A equipe rubro-amarela inacreditavelmente trocou a metade de seus direitos por Simone Loria; um desastroso zagueiro com mais de 30 anos, nenhuma passagem por grandes equipes e sequer alguma qualidade em campo. D’Agostino sofreu com a concorrência no forte grupo de 2003/04 e, após mostrar belo serviço no empréstimo ao Messina, foi adquirido pela Udinese, depois de mais um vacilo romanista. Lá foi recuando, se encontrou e mostrou que suas presenças nas seleções de base também não foram por acaso.

Filho do ídolo Bruno Conti, Daniele tinha tudo para fazer como os Maldini e manter a dinastia no clube. Entretanto, foi praticamente mandado embora com a chegada de Fabio Capello para virar ídolo no Cagliari. Versátil, organizador e líder, seria – ou teria sido -, sem dúvidas, peça no mínimo importante para o meio-campo romanista. Na atual temporada, fez um golaço no seu ex-clube em pleno Stadio Olimpico. O feito valeu um close repentino em Bruno Conti, que só pôde fazer cara de desaprovação. Já Simone Pepe, que assim como todos os outros serviu as seleções menores, tem sido um dos nomes do ataque convocado por Marcello Lippi. Encontrou-se nos lados do campo e mostrou que não deveria substituir Luca Toni ou Iaquinta em Palermo e Udinese, respectivamente, e sim desempenhar uma outra função.

Daniele Conti persegue Totti: lado errado, talvez

Antes nunca do que tarde

Perder estes talentos, negociá-los a preços medíocres e forçar o clube a buscar soluções de fora para o que poderia ter vindo de dentro comprometeu e continuará comprometendo toda a estrutura romanista. Seja no campo financeiro, dentro das quatro linhas ou na composição de um time completo com peças de reposição. Ter apostado em nomes ora terríveis ora simplesmente mal-sucedidos custou muito caro à Roma. Mais caro, talvez, do que o dinheiro jogado no lixo com a aquisição de Fábio Jr., há mais de dez anos. E que ninguém duvide que a mesma situação acima possa ocorrer com Aleandro Rosi, Stefano Okaka e, principalmente, Alessio Cerci. Veremos nós. Ou nossos filhos.

3 comentários

  • Todo mundo enxerga os problemas da Roma. Só a Roma que não. O departamento médico é uma vergonha, a “visão” (se é que podemos chamar isso de visão) de mercado é bem ruim, acho que qualquer um que entenda de futebol faria melhores contratações que a diretoria romanista. Reclamam que falta grana, que fulano é caro, mas é muito melhor investir em um ou 2 jogadores de verdade do que comprar um monte que não resolve nada, sendo que o grupo é bom e é unido, só está precisando de um novo técnico. Aliás, um que tenha a bendita da mentalità vincente, porque de todos os problemas da Roma, esse é o maior: a falta dela. O Capello disse que essa foi a maior dificuldade quando ele treinou a Roma, colocar na cabeça dos jogadores que eles eram campeões. E ainda por cima, sem visão de mercado, vendem os melhores jogadores do clube e não os subsituem à altura – tipo o Mancini, fora Amelia e outros tantos que vieram das categorias de base. E tão quase perdendo o Aquilani. Não aguento mais ver a Roma perder pontos bobos e depender do vacilo de terceiros pra alcançar seus objetivos.

  • Somente alguém com muita afinidade a Roma poderia fazer um raio x tão detalhado do clube. é exagero meu afirmar, mas nem mesmo Rosella Sensi teria capacidade, haja visto que grande parte das pindas que acontecem na Roma tem dedinhos de Pradè, Sensi e muita gente desinformada de futebol na capital. Sem dizer o velho problema de falta de peça de reposição. vivemos a mesma balela ano pós ano: montamos um bome elenco, mas depois contratamos peças raras pra sustentá-los e com isto sofremos na enfermaria e sofremos goleadas ridículas acabando com o coração de qualquer torcedor.
    eu imagino o quanto deve ter sido doído o Mateus escrever esta excelente análise, e olha que pensei seriamente em passá-la para o italiano e mandar diretamente a Dra. Mazzoleni, gestora econômica do clube.
    Eu não posso e não quero acreditar que a Roma, com todos os craques que já passaram por lá, com pessoas influentes em torno da sociedade não consiga ter a mesma linha de raciocínio.

  • Excelente, mamá!
    Não sabialembrava de tudo e, talvez por isso, eu sempre concorde com a frase "A ignorância é uma bênção". Acho que eu preferia saber menos do que ter que lamentar tantas trapalhadas de mercado.

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