Técnicos

Nenhum treinador da Inter foi maior que Helenio Herrera

Quase 12 anos depois de sua morte, Helenio Herrera ainda é muito influente no futebol mundial. Em um duelo entre os dois maiores times que treinou, então, não pode passar em branco. Semana passada, na batalha entre Inter e Barcelona, pela primeira rodada da Liga dos Campeões, o mestre do catenaccio foi mais uma vez lembrado, e foi o time de Milão que resgatou os ensinamentos do franco-argentino. Jogando atrás, mesmo com o mando da partida, os nerazzurri seguraram (com eficiência) os comandados de Josep Guardiola, que não conseguiram furar a proteção interista nem com a ajuda de seus três atacantes e seus impressionantes 67% de posse de bola.

Nascido em Buenos Aires, em 1910, Herrera mudou-se ainda criança para o Marrocos, onde seus pais buscavam uma vida melhor. Na colônia, HH, como ficou conhecido, se adaptou ao estilo de vida francês e começou sua carreira, em 1928, jogando pelo Roches Noires Casablanca, time da cidade em que vivia. Ali, ainda jogou no Racing Casablanca, antes de se mudar para Paris e se naturalizar francês.

Foi lá que Herrera construiu sua humilde carreira de jogador. Como zagueiro, passou por diversos clubes, mas nunca saiu do país. Eram tempos difíceis: na França, jogou de 1932 até 1945, quando a Segunda Grande Guerra assolava o continente. Com o fim da guerra e a opção pelo lado externo das quatro linhas, começando sua carreira de treinador, no entanto, sua sorte foi outra. HH tornou-se um dos mais prestigiados técnicos do futebol mundial e ficou marcado pela importância que alcançou no jogo tático.

Sua primeira experiência no banco de reservas foi por um time da periferia de Paris, o Puteaux, mesmo time em que encerrou sua carreira de jogador. Antes de encerrar a temporada pelo clube, transferiu-se para o Stade Français, de onde saiu, sem conquistar nenhum título, no ano de 1948. Foi quando recebeu uma proposta do Atlético de Madrid e começou seus tempos de glória como treinador.

Na Espanha, começou treinando o Real Valladolid, apesar de ter assinado contrato com o Atlético. O acordo com o time de Madri era o seguinte: primeiramente, passar por um clube de menor expressão, para ganhar experiência. Depois, assumir o time da capital. A fase de experimentações não durou muito. Depois de uma boa temporada em Valladolid, assumiu o Atlético e fez sua estréia já no campeonato de 1949-50, no qual não decepcionou dirigentes e nem torcida: foi campeão, ganhando o terceiro campeonato nacional da história do clube. Na temporada seguinte, conseguiu o primeiro e único bicampeonato do Atlético de Madrid.

Depois disso, passou por Málaga e Deportivo La Coruña em menos de duas temporadas, e Sevilla, onde permaneceu até 1956. Disso tudo, só aproveitou a passagem por La Coruña, na qual descobriu Luis Suárez, ponta esquerda que levaria consigo para o Barcelona e para a Inter, posteriormente. Por impedimentos contratuais não pôde treinar nenhum time espanhol de 1956 a 1958, período em que se dedicou ao Belenenses, de Portugal. Quando seu contrato com o Sevilla terminou, então, voltou para a Espanha, dessa vez para treinar o todo poderoso Barcelona.

Na Catalunha, começou as transformações que o tornaram famoso. Levou os exercícios espirituais de Inácio de Loyola para os treinamentos e começou as chamadas concentrações, que não eram usadas na época. Treinando o Barça de Kubala, Evaristo e Luis Suárez, seu jogador de confiança, conquistou já em seus dois primeiros anos o bicampeonato espanhol, somando quatro em sua carreira. Colocou também na galeria de troféus do Barcelona uma Copa do Rei e duas Copas das Feiras, que, por sinal, foram essenciais para a sua contratação pela Inter de Milão, em 1960. A história é de que o então presidente nerazzurro, Angelo Moratti, se encantou pelo treinador argentino na derrota do seu time para o Barça, nas quartas de final da Copa daquele ano.

Herrera e sua fórmula do sucesso

A Grande Inter e o catenaccio
Ao mesmo tempo em que treinava a seleção espanhola, foi para Milão por um salário estratosférico: 45 milhões por temporada, sem contar as premiações. Levou junto o meia esquerda Luis Suárez, que tornou-se símbolo daquela Inter, sendo um dos jogadores de escape daquele ferrolho azul e preto. A divisão de trabalhos entre a Fúria e o clube italiano não rendeu bons resultados para nenhum dos lados: então, em 1962, Herrera decide sair da seleção da Espanha, dedicando-se exclusivamente à Inter. Aparentemente, deu certo. Na temporada daquele mesmo ano, conquistou seu primeiro scudetto, iniciando uma carreira vitoriosa na que se tornaria a Grande Inter.

Na Itália, teve que largar o futebol vistoso e ofensivo que aplicava no Barcelona. Foi aprimorando o catenaccio, inventado pelo austríaco Karl Rappan e levado à Itália por Nereo Rocco, que Herrera se consagrou e montou um dos melhores times da década de 1960. Sua grande jogada foi recuar um jogador para fazer a função de líbero e jogar atrás dos três zagueiros. Coube a Armando Picchi fazer esse papel naquela Inter, lembrando que é função do líbero adiantar-se e equilibrar o meio de campo, quando seu time está com a posse da bola.

À frente do sistema defensivo, jogava ainda um volante, ou mediano, com a função de ligar o jogo entre defesa e meio-campo. Era um dos jogadores mais fortes fisicamente, já que era o que mais corria no time. Ao seu lado, jogava um meia esquerda, que tinha a responsabilidade de fazer o jogo da equipe inteira fluir, com passes e lançamentos precisos. Era o melhor do mundo de 1960, Suárez, que ocupava essa posição no time de Herrera. Do outro lado, o meia direita se tornava uma espécie de segundo atacante e era encarregado de puxar os contra-ataques da equipe. Existia, ainda, os dois alas, que compunham o meio de campo, mas cuja função verdadeira era atacar pelo flancos, fazendo companhia para o centroavante.

Assim, ficava completo o esquema que fez a Inter chegar aos três scudetti, às duas Ligas dos Campeões e às duas Copas Intercontinentais. Se elevava também Herrera, que também é lembrado por ter sido um dos primeiros técnicos a usar substancialmente dos artifícios psicológicos para motivar seus atletas e confundir os adversários. Uma história que ficou famosa foi a de que ele teria punido um de seus jogadores por ter falado “Vamos jogar em Roma” ao invés de “Vamos ganhar em Roma”. Esse seu modo de tratar os jogadores também servia para inflamar os torcedores e, por isso, tem seu nome ligado à criação das torcidas ultra, muitas vezes.

Um Herrera pouco feliz após clássico contra a Lazio

Ainda treinou a Roma, de 1968 a 1973, quando conquistou seus últimos títulos: uma Copa da Itália (1968-69) e uma Copa Anglo-italiana (1972). Em sua passagem pelo clube da capital, não teve muito sucesso, porém, nos dérbis contra a Lazio – venceu três dos cinco primeiros, mas não conseguiu nenhum triunfo entre 1970 e 1973, quando a Roma fez campanhas medianas.

Antes de se aposentar, por problemas de saúde, ainda teve uma breve passagem pela Inter, a convite do presidente Ivanoe Fraizzoli, pelo Rimini e pelo Barcelona, novamente. Seus problemas cardíacos, no entanto, não o deixavam continuar à beira do campo e HH decide se aposentar, em 1981. “Il Mago”, como era chamado pelos seus jogadores, em tempos de Inter, morreu dia 9 de novembro de 1997, em Veneza, aos 87 anos.

Helenio Herrera
Nascimento: 10 de abril de 1910, em Buenos Aires
Clubes: Puteaux (1944-45), Stade Français (1945-48), Real Valladolid (1949), Atlético de Madri (1949-52), Málaga (1952), Deportivo La Coruña (1953), Sevilha (1953-56), Belenenses (1956-58), Barcelona (1958-60 e 1979-81), Inter de Milão (1960-68 e 1973-74), Roma (1968-73), e Rimini (1978-79)
Seleções: Seleção Espanhola (1959-62) e Seleção Italiana, como auxiliar técnico (1966-67)
Títulos nacionais: 4 Campeonatos Espanhóis (1949-50, 1950,51, 1958-59 e 1959-60), 3 Campeonatos Italianos (1962-63, 1964-65 e 1965-66), 1 Copa do Rei (1958-59) e 1 Copa da Itália (1968-69)
Títulos internacionais: 2 Ligas dos Campeões (1963-64 e 1964-65), 2 Copas Intercontinentais (1964 e 1965), 2 Copas das Feiras (1958 e 1960) e 1 Copa Anglo-italiana

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