Categorias de base

Entrevista: João Paulo Marangon

Novembro de 2007. Menos de uma semana depois da morte de Gabriele Sandri, um dérbi romano recebeu muita atenção. No meio das discussões sobre se o futebol italiano deveria ou não parar, o time primavera da Roma perdia por 1 a 0 para a Lazio, quando um camisa 11 arrancou do meio-campo, passou por três, tabelou com Bianchini e bateu firme de dentro da área pra marcar um belo gol sobre Degré. O empate saiu dos pés de João Paulo Marangon, irmão mais novo do goleiro Doni, tradicionalmente meia-direito do time no 4-1-4-1 de Alberto De Rossi – este, pai do meia Daniele De Rossi.

O jogo terminou em 3 a 3 e fez o lado esportivo da cidade botar os olhos sobre João Paulo, autor de seu primeiro gol na Itália. Mas no fim, sua única oportunidade – por assim dizer – foi ficar no banco de reservas em uma partida contra o Torino, pela Coppa Italia. Sem chances com Spalletti, hoje João Paulo já estourou a idade para ficar no elenco primavera e agora treina separado na Roma, aguardando algum clube. Falamos com ele.

Você treinava em algum clube no Brasil, antes de ir para a Itália?

Comecei jogando no infantil do Paulista de Jundiaí e, aos 15 anos, fui para o juvenil do Ituano, clube pelo qual ainda guardo um grande carinho até hoje.

Como foi sua chegada à Roma? Quem te procurou para ser contratado?

Vim para Roma tirar minha cidadania italiana e depois voltar ao Ituano. Quando cheguei, um empresário me perguntou se eu queria fazer testes em alguns times médios da Itália e eu aceitei. Aí meu irmão interveio e disse que, já que eu estava aqui, devia tentar primeiro na Roma. No inicio me assustei com a ideia, mas fiz o teste com personalidade e acabei sendo aprovado.

Havia pressão no vestiário, pelo fato de você ser irmão do Doni e talvez estar lá só por isso?

Pelo contrário, meus companheiros sempre me falaram que eu nunca seria prejudicado pelos outros pensarem assim. Outros jogadores trouxeram parentes para Roma, o Mancini trouxe o primo, o Cicinho trouxe o sobrinho, mas infelizmente não tiveram a mesma sorte que eu. Parentesco aqui não conta nada, os meninos eram muito bons, mas aqui eles são exigentes e analisam muitas coisas.

Brasileiros estão indo cada vez mais cedo para a Europa. O Caio Werneck, por exemplo, foi para a Roma no ano passado com apenas nove anos. Compensa sair tão cedo do país?

Não compensa. Melhor crescer perto da família, além do mais o futebol brasileiro é especialista em criar jogadores. Aqui é difícil para começar, quase sempre tem que começar de baixo. No Brasil, se o menino for bom, com 16 anos está no profissional. Mas isso aqui é praticamente impossível, até nas divisões inferiores.

Na temporada 2007-08, pelo time de Alberto De Rossi, você costumava atuar mais aberto pelo lado direito, mas jogou também pela esquerda, e até de centroavante, pela falta de um bom nome na posição. Essas mudanças no posicionamento atrapalharam sua adaptação?

Nunca atrapalharam não. O Della Penna [meia-esquerdo, esteve com a Itália no último Mundial Sub-20] e eu combinávamos antes do jogo de trocar de lado sempre, aqui os pontas sempre ficam muito abertos mesmo. Mas eu prefiro jogar pela direita.

Nessa mesma temporada, você marcou um gol contra a Lazio num dérbi primavera. Deu pra sentir o reconhecimento da torcida, depois desse gol?

Demais, o dérbi aqui é muito importante até nas categorias de base. Os dérbis primavera, particularmente, passam na televisão. Muitas pessoas vieram me dar os parabéns. Aquele dia foi especial para mim, nunca o esquecerei.

As equipes da Serie A costumam emprestar os jogadores da base para as divisões menores – e a Roma também segue isso, historicamente. Você não chegou a estrear na primeira divisão, é tão complicado assim ser lançado direto?

Muito difícil, tem que dar a sorte de o clube estar com poucos jogadores no elenco, ou alguns machucarem, e eles terem de apostar em você porque não têm outra opção (risos). Eu tive a sorte de ficar no banco no jogo Torino 3×1 Roma, mas infelizmente não entrei. É a política deles.

Sob o comando de Spalletti, pouca gente da base teve chance real no time de cima. Curci, Bovo, Rosi e Okaka foram as excessões, em mais de quatro anos de trabalho. Falta uma ligação entre a base e os profissionais?

A Roma é uma equipe grande, aposta sempre em jogadores já formados, de seleção, experientes… Esses aí estavam no elenco, mas também nunca tiveram muitas oportunidades. Hoje, o Okaka e o Cerci são os únicos que estão aqui. Com isso, a Roma acabou perdendo ótimos jogadores: Amelia, Pepe e D’Agostino hoje estão na seleção, tem também o Galloppa e muitos outros.

Você já tem alguma negociação engatilhada pros próximos meses?

No momento estou na Roma, mas treinando separado. O Della Penna e eu estávamos assim, mas agora que ele voltou do Mundial Sub-20, resolveram dar a ele a oportunidade de treinar junto do elenco. Infelizmente, eu pouco vou, só quando tem alguém machucado. Gostaria de voltar ao Brasil sim, faz três anos e meio que estou fora, tenho muita saudade. Mas sou pouco conhecido no país, é difícil arrumar um clube. Meus representantes estão vendo algo para quando se abrir o mercado para os campeonatos que começam em janeiro. Mas aqui na Europa é mais fácil, sou mais conhecido.

1 comentário

  • Não só a Roma, mas os times italianos perdem muito por não investirem nos jovens. A seleção italiana está tendo problemas com isso, porque a maioria dos titulares tem de 30 pra cima. E ele está certo, os meninos tem que fazer uma boa carreira aqui no Brasil pra depois ir pra Europa, porque o futebol brasileiro é uma fábrica de craques mesmo.

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