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Roberto Baggio: o mais querido e discutido craque italiano

Se nem só de campeões vive o futebol, Roberto Baggio é a grande prova. Desde que começou a carreira, no Vicenza, em 1982, precisou de 11 anos até conquistar o primeiro dos quatro títulos que venceria como jogador – pouco demais para tamanha técnica. Depois do último deles, em 1996, ainda passaria mais oito anos como profissional. Ainda assim, Baggio sempre foi o jogadores que todos quiseram e muitos puderam ter. Ainda que, pouco depois, o deixassem ir embora sem muitas lamentações. E sempre foi capaz de inflamar discussões em mesas de bar e mesas-redondas para cada uma de suas polêmicas, seja na seleção, nos clubes… ou mesmo dentro de campo. Afinal, era ele um armador ou um atacante?

Michel Platini foi quem encerrou este tema. Entre a camisa 10 típica do trequartista, o tradicional armador italiano capaz de encantar, e a camisa 9 do centroavante, como todo o mundo conhece ao vê-lo marcar 205 gols na Serie A e mais 27 pela seleção azzurra, o francês vaticinou: “Baggio é um nove e meio”. Mais seco ainda foi Carlo Mazzone, que o treinou já no Brescia, em fim de carreira: “Sem problemas nos joelhos, teria sido o melhor do mundo”. Joelhos que foram para Baggio motivo da última polêmica da carreira, ao não ser convocado por Giovanni Trapattoni para sua quarta Copa do Mundo: “Não te convoco porque você não está bem fisicamente”, ainda que o craque tivesse disputado mais de 75% dos jogos do Brescia na temporada pré-Copa.

Começando a carreira, no Vicenza, Baggio já dava sinais de ser um craque (Fantasista10)

Baggio chegou a Vicenza aos 13 anos e fez história nas categorias de base do clube, com 110 gols em 120 partidas. Os lanerossi ainda estavam na Serie C1 e por lá jovem vêneto estreou, na última rodada da temporada 1982-83. Aos poucos conseguiu seu espaço e, em 1984-85, já era titular absoluto do time que conseguiria subir para a Serie B. A alegria só não foi maior por conta de um jogo contra o Rimini de Arrigo Sacchi, já no fim do campeonato. Naquele 5 de maio, Baggio rompeu o joelho direito em vários pontos e passou mais de um ano parado. Mas aprendeu que a culpa ou o mérito do que te acontece pertence a você mesmo: um dos principais ensinamentos budistas, religião que passou a seguir enquanto se recuperava de sua primeira grande lesão.

Mesmo após lesão, Baggio se tornou ícone em Florença (Imgkid)

A Fiorentina já o havia contratado e poderia ter rescindido o contrato, mas apostou em sua recuperação. Um ano e meio depois, Baggio estreava na Serie A. Em maio de 1987, marcava seu primeiro gol na primeira divisão, no empate em 1 a 1 com o Napoli de Maradona, que naquele dia festejava o primeiro scudetto de sua história. Logo se tornou indispensável ao clube viola, chegou à seleção italiana e foi vice-campeão da Copa da Uefa em 1990. O título foi perdido para a Juventus, grande rival da equipe em solo italiano.

E foi para lá que Baggio seguiu, por 25 bilhões de liras, cerca de 13 milhões de euros em moeda corrente, uma cifra recorde naquela época. Os protestos em Florença foram tantos que causaram problemas até na concentração para a Copa do Mundo, na qual Baggio passou grande parte no banco de Vialli. Pudera: a torcida dava adeus a um de seus torcedores, que se recusara a vestir um cachecol da Juve em sua apresentação e, mais tarde, também não aceitaria cobrar um pênalti contra a Fiorentina. Após deixar o campo num jogo contra a própria Viola, Baggio não se furtou a ficar com um cachecol atirado do clube florentino, atirado para ele por um fã. Controvertido, mas quase sempre brilhante em Turim.

Nem mesmo na Juventus, onde foi ídolo, Baggio esqueceu amor pela Fiorentina (Fantasista10)

Sua história em Turim duraria cinco anos e 115 gols, 78 deles na Serie A. Depois de uma estreia ruim com o time instável de Gigi Maifredi, na qual foi bastante atacado por torcida e imprensa, chegou o tempo para consagração. Primeiro, se tornando líder e capitão. Depois, vencendo a Copa da Uefa que havia perdido três anos antes, desta vez marcando cinco gols entre semifinais (contra o Paris Saint-Germain) e final (frente ao Borussia Dortmund). Na Serie A, os anos eram difíceis para algum time que não fosse o Milan de Fabio Capello. Em 1994, tudo mudou: Baggio era titular absoluto da seleção italiana na Copa dos Estados Unidos e fez uma competição espetacular, coroada pela espetacular doppietta na semifinal com a Bulgária, mas manchada pelo pênalti isolado na final em que jogou no sacrifício contra o Brasil.

Pela Juventus, foi um ano em chiaroscuro. Baggio começou muito bem junto do time, mas lesionou outra vez o joelho direito e ficou cinco meses parado. Quando voltou, marcou gols e ajudou na conquista de um scudetto que não vinha há sete anos. Mas a temporada também marcou o surgimento de Del Piero e assim Baggio acabou cedido ao Milan, para a cólera de mais uma torcida que dava adeus a um ídolo. Na Milão de Capello, foi o quinto jogador da história a vencer duas vezes seguidas a Serie A, por times diferentes. Em rossonero, formou um ótimo trio ofensivo com Weah e Savicevic até que uma crise de resultados atingisse a equipe: de novo sob o comando de Sacchi, com quem tinha entrado em atrito na seleção, acabou como reserva de Dugarry.

Mesmo com título e carreira brilhante, Milan preferiu se privar de Baggio (Calcioweb)

No verão de 1997, Capello estava de volta e Baggio esperava recuperar sua posição no time, mas passou uma das maiores humilhações da vida de jogador: o clube pediu para que encontrasse outro lugar para continuar a carreira. Depois de acertar com o Parma, acabou vetado por Carlo Ancelotti, por “questões táticas”. Para jogar com continuidade e entrar na lista para a Copa do Mundo na França, escolheu o Bologna, cortou os cabelos e fez história, apesar dos problemas com mais um técnico, desta vez Renzo Ulivieri: 22 gols em 30 partidas e a convocação tão aguardada para a Nazionale de Cesare Maldini. Sem o rabo de cavalo que lhe era tradicional, Baggio aproveitou para diminuir o número de vezes que era chamado de codino divino, título que nunca havia apreciado.

O fantasista só precisou de um ano para ser ídolo histórico do Bologna

Em França ’98, Baggio venceu a concorrência com Del Piero e de novo jogou acima do nível do time. Mas viu sua Itália eliminada nas quartas-de-final, numa cobrança de pênalti que Di Biagio falhou. Ainda assim, tornou-se o maior artilheiro italiano em Copas do Mundo (nove gols, assim como Paolo Rossi e Vieri), além do único a marcar em três edições diferentes. Depois da competição, fechou com uma Inter recém-campeã da Copa da Uefa e superfavorita em todas as frentes, mas que acabou a temporada atormentada pela lesão de Ronaldo e com quatro técnicos diferentes. Depois, com Marcello Lippi, Baggio passou seu segundo e último ano em Appiano Gentile sendo pouco utilizado e se degladiando publicamente com o treinador. Em sua despedida, marcou duas vezes contra o Parma para colocar a Inter nas preliminares da Liga dos Campeões.

Baggio e Ronaldo jogaram pouco juntos, por causa de lesões: uma pena para o futebol (Imgkid)

Desmotivado, Baggio recusou propostas de Arsenal e Real Madrid e estava prestes a fechar com a Reggina quando foi convencido por Carlo Mazzone a assinar com o Brescia: queria disputar outra Copa do Mundo, ser fundamental para algum time e ficar perto de casa. Venceu a desconfiança de quem lhe dava como terminado, guiando os rondinelle em seus melhores anos.

Logo em sua primeira temporada, um sétimo lugar histórico para o clube. E o ano seguinte só não foi melhor porque um Baggio espetacular, com oito gols nas nove primeiras rodadas, perdeu alguns meses por conta de uma lesão no joelho direito. Em 2001, mesmo longe da seleção e em um time de menor relevância, entrou na lista final da Bola de Ouro. No ano seguinte, acabou de fora da lista de Trapattoni para o Mundial.

San Siro ficou cheio para ver o último recital do craque (AFP)

O jogador encerrou sua carreira em 2004, aos 37 anos. Com 205 gols marcados na Serie A – o último, esta pérola contra a Lazio –, é até hoje um dos dez maiores marcadores de toda a história da competição. Entrou em campo pela última vez contra o Milan, em um San Siro que ficou lotado para ver um dos maiores jogadores de todos os tempos dar seu último espetáculo. Os rossoneri venceram por 4 a 2, mas a salva de palmas a Baggio foi o principal evento daquele jogo. Bastou uma temporada para o Brescia aposentar sua camisa 10 e ser rebaixado.

Roberto Baggio
Nascimento: 18 de fevereiro de 1967, em Caldogno
Posição: atacante
Clubes: Vicenza (1982-85), Fiorentina (1985-90), Juventus (1990-95), Milan (1995-97), Bologna (1997-98), Inter (1998-2000), Brescia (2000-04)
Seleção italiana: 56 jogos, 27 gols
Títulos: 2 Serie A (1995, 96), 1 Coppa Italia (1995), 1 Copa da Uefa (1993)

2 comentários

  • Cracasso de bola! realmente uma copa do mundo conta muito no curriculum de um jogador, mais vale ressaltar que na final da copa do mundo de 94 Baggio chegou contundido, caso contrário a história poderia ter sido diferente pois ele estava voando naquela copa. O que prejudicou a sua carreira foram as lesões e os treinadores com quem trabalhou.

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