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Subestimados do calcio: Domenico Morfeo

Domenico Morfeo é uma mistura de emoções diversas: jogador de classe, língua solta e personalidade agressiva, o meia-armador italiano de 34 anos é o estereótipo perfeito do “gênio louco”. Um campeão absolutamente atemporal. Nasceu em Pescina e começou a despontar para o grande público com a camisa da Atalanta, depois de excelentes temporadas entre os juvenis nerazzurri. Morfeo foi promovido aos profissionais do clube de Bérgamo em 1993, numa temporada em que seu jogo e seus três primeiros gols não foram o bastante para evitar o rebaixamento à Serie B. Mas na divisão inferior as coisas começaram a acontecer para Morfeo, um dos pilares da Atalanta que reconquistou a Serie A e, já em 1995, teve suas primeiras convocações para a seleção sub-20 da Itália. De volta à primeira divisão, Morfeo foi o principal jogador na campanha que conduziu a Atalanta à salvezza. Ao todo, com o time de Bérgamo, marcou 22 gols. Em 1996, ainda, ele disputou a Olimpíada.

Numa transação milionária, Morfeo foi comprado por 15 milhões de velhas liras pela Fiorentina. Em 1996-97, o clube de Florença viveria uma temporada importante, pois era o atual campeão da Coppa Italia e disputaria a hoje extinta Recopa da Uefa, seu retorno à Europa em um bom tempo. Tudo parecia conspirar a favor de Morfeo; mas, diferente de Bérgamo, em Florença, as coisas não aconteceram. Ele viu-se às voltas com um número alto de contusões já na sua primeira temporda em viola. Sua personalidade também não o ajudou muito: Morfeo já via alguns dos desmandos que, anos mais tarde, condenariam a Fiorentina a uma falência. E falava de tudo abertamente, entrando em atrito constante com a propriedade.

Em 1998-99, Morfeo foi cedido em empréstimo ao Milan. Se aquele ano foi fantástico para o clube de Milão, que acabou a temporada com um campeonato vencido duramente, não poderia ter sido pior para o jogador. Ainda que tenha conseguido seu primeiro (e único) scudetto, jogou apenas dez partidas e não conseguiu ir além de um gol marcado. Na temporada seguinte, foi para Cagliari em busca de melhor sorte. O ambiente também era forte na Sardenha, que fazia bons investimentos já há dois anos para sair da Serie B e não conseguia sucesso. Somadas ao ambiente, as contusões de Morfeo condicionaram sua passagem por Cagliari como um autêntico desastre, com apenas cinco jogos e um gol. No meio da temporada, em mais um de seus incontáveis empréstimos, Morfeo voltou para a Serie A, desta vez para jogar pelo Hellas Verona. Foi uma espécie de resgate. Mais uma vez, Morfeo jogou pouco – apenas dez partidas, – mas marcou a beleza de cinco gols. Ao lado do atacante Fabrizio Cammarata, formou uma dupla que, se mencionada em Verona, chega a arrancar suspiros dos mais saudosos.

Como fizera em Florença, porém, Morfeo entrou em claro atrito, não só com a propriedade do Verona (guiado na época por Giambattista Pastorello), mas também com a empresa gestora, a P&P, que redimensionava todos os contratos dos jogadores para baixo. Em 2001, sempre por empréstimo, ele retornou à sua “casa”, Bérgamo, onde ajudou a Atalanta a permanecer na Serie A e voltou a mostrar seus dotes de grande jogador, com cinco gols e jogadas preciosas em 19 jogos. Em 2002, Morfeo voltava à Fiorentina, para tentar salvar o clube da Serie B e presenciar as consequências do que ele e muitos outros diziam, cinco anos antes. A última passagem pela Atalanta, porém, fora marcante e o passe de Morfeo foi adquirido pela Internazionale – a custo zero, pois a falência da Fiorentina quebrou automaticamente seu vínculo. Nova esperança e nova decepção: um gol e umas poucas jogadas inspiradas, em 17 jogos, não lhe deram a chance de ser confirmado no clube de Milão.

Morfeo, então, dirigiu-se para o Parma, onde ficou por cinco temporadas. Mesmo com os problemas da falência da Parmalat, ex-patrona do clube, Morfeo conseguiu reconquistar o jogo e o destaque que outrora eram inquestionáveis. Ainda hoje, é um dos jogadores mais amados da história recente do clube. Os torcedores eram fanáticos por Morfeo, por suas declarações, suas polêmicas, seus toques de qualidade na bola e, sobretudo, por sua fabulosa apresentação no play-out contra o Bologna, na casa do adversário, que determinou a salvezza do Parma, em 2004-05, após uma temporada de muitos incidentes. Foram 111 jogos e 16 gols com a camisa parmigiana, mas nem ele pôde evitar um rebaixamento que há muito se desenhava, na temporada 2008-09. Com poucas certezas da nova propriedade do Parma, e sempre ocupado com suas muitas e muitas contusões, fechou contrato com o Brescia. Uma passagem que seria ainda mais problemática que aquela de Cagliari: Morfeo não conseguiu jogar e anunciou que estava deixando a carreira.

Para espanto de todos, porém, ele ressurgiu em 2009, na atual Prima Divisione, com a camisa da Cremonese. Em Cremona, Morfeo ficou pouco e encerrou sua carreira definitivamente. Viu seu time lutar para permanecer na categoria e não ir além de um parco vice-campeonato na Coppa Italia Lega Pro. Colecionou apenas três jogos e não marcou nenhum gol; numa dessas partidas, porém, Morfeo revisitou Verona, onde, com dois toques na bola, deu dois gols a seus companheiros, e foi descrito da seguinte forma por Roberto Puliero, cronista dos jogos do clube vêneto há mais de 30 anos: “E, no meio-de-campo, o Verona se reencontrará com um velho amigo seu: Morfeo, um jogador de categoria muito, muito superior à que vemos nos campos da Serie C, gênio absoluto do futebol”.

O sentimento que Morfeo inspira nos que o viram jogar não poderia ser melhor descrito. Neste ano, recebeu uma proposta para voltar a jogar pelo Pescina, clube da sua cidade, que figura na Prima Divisione. Mais consciente de seu tempo, desta vez, ele recusou.

Domenico Morfeo
Nascimento: 16 de janeiro de 1976, em Pescina
Posição: meia-armador
Clubes: Atalanta (1993-96), Fiorentina (1997-98 e 2001-02), Milan (1998-99), Cagliari (1999-2000), Hellas Verona (2000), Atalanta (2001), Internazionale (2002-03), Parma (2003-08), Brescia (2008-09) e Cremonese (2009)
Conquistas: 1 Serie A (Milan, 1998-99)

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