Copa do Mundo

Crônica de uma morte anunciada

Mesmo anunciada, queda da seleção italiana não deixa de ser inesperada. Marcello Lippi poderia
ter feito algo para evitar o desastre. Mas só a assistiu de perto. (Reuters)

No dia em que iriam eliminá-lo, Marcello Lippi levantou-se às seis da manhã para esperar que o melhor acontecesse. Tinha sonhado que atravessava uma mata de altas figueiras, onde caía uma chuva branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros. “Sonhava sempre com árvores”, disse-me o filho, Davide Lippi, recordando 27 anos depois os pormenores daquela quinta-feira ingrata. Tinha uma reputação bastante razoável de vencedor de troféus e sempre se mostrara confiante nos momentos certos, porém desta vez não conseguira prever o início do jejum italiano.

Mas Lippi não reconheceu o presságio. Dormira pouco e mal, sem despir a roupa, e acordou com dores de cabeça. Interpretou como estragos naturais da farra do tetracampeonato que se tinha prolongado até as últimas partidas das Eliminatórias. Saiu da concentração rapidamente, um bocado sonolento mas de bom humor, e a todos comentava que fazia um dia lindo. Ninguém tinha a certeza de que ele se referia ao estado do tempo.

Marcello Lippi enfiou umas calças e um casaco vermeho igual ao dos empates com Paraguai e Nova Zelândia para o confronto. Era roupa conhecida. Pensara de novo em Totti e Cassano, aqueles resquícios de talentos que haviam sido abandonados em prol de… de que mesmo? Se apostou em tantos daqueles campeões de 2006 no ocaso da carreira, por que deixara para trás o camisa 10 de quatro anos atrás, um dos poucos em boa fase recente? Se fez tantas escolhas de risco em opções de última hora para sua defesa, por que deixara para trás o oásis de fantasia no futebol italiano?

Ficou bastante tempo andando e repassando as garantias de que estava certo. Qualquer afirmação contrária havia sido limada por Marcello Lippi e assim continuaria fazendo nas próximas horas. Mas herdera o instinto de sua família e sabia que a escolha para os últimos jogos não seria suficiente. Mudou o time, mas não muito. Em campo, o recuo inexplicável de Daniele De Rossi foi percebido quando o romanista entregou o primeiro gol de Vittek à Eslováquia. Pouco depois, Marchetti fez sua única defesa em três jogos de Copa do Mundo. Para a Itália marcar, a única chance foi um recuo de Skrtel que quase se tornou gol contra.

Pouco demais para suas ambições, um Marcello Lippi já abobalhado fez o que deveria ter feito há alguns dias, abrindo espaço para Maggio e Quagliarella. Também voltou a ver Pirlo jogar num campo que também contava com os tétricos Cannavaro, Pepe e Iaquinta, presenças inexplicáveis com a camisa azul enquanto Pazzini assistia a tudo do banco. Acuada, a Itália não saía da defesa. Quando o fez, Skrtel tirou sobre a linha uma bola que Quagliarella por pouco não mandou às redes. Mas não demorou para que Vittek marcasse o segundo. Num final emocionante, Di Natale ainda diminuiu e Quagliarella viu seu gol do empate ser anulado de forma polêmica.

A esperança de Marcello Lippi morreu nos pés de Kopunek. Quagliarella a recuperou com o gol mais bonito do Mundial até aqui, já nos acréscimos. Pepe quase marcou o terceiro nos segundos finais, mas pôs para fora uma bola que já era comemorada por uma campeã irreconhecível que tropeçou em si mesma para terminar na lanterna de um grupo que contou com a semi-amadora Nova Zelândia. Choro e destempero, tão comuns nesta hora, de nada adiantaram. Restou a Marcello assumir toda a culpa por erros claríssimos que até então não havia aceitado.

“Marcello, meu caro, o que há?”, perguntou um jornalista.

“Eliminaram-me. A responsabilidade é minha e preparei tudo errado”, respondeu.

Tropeçou no último degrau, mas levantou-se logo. Pela primeira vez nos últimos dias, teve o cuidado de ser polido. Depois, entrou na Itália pela porta dos fundos e desabou de bruços em sua Turim.

Narrativa baseada no romance homônimo de Gabriel García Márquez, Crônica de uma morte anunciada. Uma leitura obrigatória para quem está de férias, como os jogadores da seleção italiana, a partir de agora.

4 comentários

  • Muito bom, é uma pena, mas era esperado e acredite quem quiser Nova Zelandia fez um copa melhor que a Italia, nao só ela, acredito que esta foi a pior equipe do mundial.Infelizmente.

  • Para falar só de atacantes a lista de jogadores não convocados e melhores que o titular absoluto Iaquinta por ex: Totti, Cassano, Balotelli, G.Rossi, Miccoli e Borrielo. Iaquinta nem em sua melhor fase era bom, Gilardino tem potencial mas estava em muito má fase, o que nos faz perguntar o porq da NÃO escalação do melhor jogador de frente convocado por Lippi: Quagliarela

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