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Paolo Rossi: muito além do Sarriá

Se você tem menos de 30 anos e nunca ouviu falar de Paolo Rossi, ouse perguntar a seu pai quem foi este atacante italiano. Logo irá perceber sua fisionomia ficar sisuda, porque você o estará lembrando da existência do carrasco que destruiu os sonhos daquela que, com certeza, foi uma das seleções brasileiras que apresentava o mais envolvente futebol.

No começo da carreira, o atacante passou por diversos clubes pequenos até chegar às categorias de base da Juventus, em 1972. Ainda jovem, sofria diversas lesões, chegando a passar por três cirurgias em um período de dois anos. Com poucas oportunidades no time bianconero, aceitou ser emprestado para o Como, onde atuou por seis vezes, mas sem marcar gols.

Em 1976, Rossi, então com 20 anos, chegou ao Lanerossi Vicenza e, com 21 gols em 36 jogos, foi peça fundamental na subida da equipe para a Serie A. Espantosamente, na disputa da primeira divisão, ainda pela equipe alvirrubra, Rossi melhorou o nível do futebol e marcou 24 vezes em 30 partidas, levando o clube à segunda colocação do campeonato, atrás apenas da Juventus.

A ótima fase de Rossi foi reconhecida e Enzo Bearzot o convocou para a Copa do Mundo de 1978, na qual fez três gols e ajudou a Squadra Azzurra a chegar na quarta colocação. Mas esta ainda não foi sua Copa. A competição que o colocou sob holofotes de todo o mundo e o projetou para a galeria dos que para sempre serão lembrados como carrascos da seleção canarinho (ao lado de Ghiggia e Zidane), foi a Copa de 1982, disputada na Espanha.

O Brasil, comandado por Telê Santana, chegava como favorito, contando com craques de indiscutível qualidade como Zico, Falcão, Junior e Sócrates. A Itália tinha sua força no sistema defensivo, com Zoff, Baresi, Bergomi e Gentile. No ataque, o time contava com algumas incógnitas. Graziani não vivia boa fase, o artilheiro da equipe até então, Roberto Bettega, se machucou meses antes da convocação e Paolo Rossi acabara de voltar de uma suspensão por suposto envolvimento com um esquema de armação de resultados da Loteria Esportiva Italiana que o impediu de jogar por dois anos. O escândalo aconteceu quando ele jogava pelo Perugia: Rossi foi acusado de concordar com a manipulação de uma partida contra o Avellino – na qual fez dois gols. O atacante, que fez ótimo campeonato pelo time alvirrubro em 1979-80, passou à Juventus, que quis contratá-lo mesmo suspenso.

Sem jogar por quase dois anos, Rossi ficou treinando com os outros jogadores da Velha Senhora, e estreou pela equipe apenas em abril de 1982. Mesmo tendo jogado apenas três partidas oficiais pelos bianconeri, Bearzot o convocou ao Mundial. Sem ritmo de jogo. O que fez o meia Gabriele Oriali, também convocado à competição, dizer pouco antes de a delegação rumar à Espanha: “Com Paolo Rossi no ataque, nossas chances de vencer ficam reduzidas”. E assim foi na primeira fase, onde o ataque passou em branco nas partidas contra Polônia, Peru e Camarões.

Quiseram os deuses do futebol que as seleções caíssem no mesmo grupo da segunda fase, que contava ainda com a campeã Argentina. Para muitos, seria o típico jogo de ataque contra defesa, em que as apostas seriam apenas para ver por quanto tempo os italianos aguentariam a pressão brasileira.

Logo aos cinco minutos de jogo, Rossi mostrou o cartão de visitas e abriu o placar com uma cabeçada fulminante após cruzamento de Cabrini. O Brasil não se abateu e empatou aos 12. Aos 25, Rossi aproveitou passe errado de Toninho Cerezo e, com o habitual oportunismo, roubou a bola para colocar a Nazionale novamente à frente do placar. Na segunda etapa, o Brasil pressionou até encontrar o gol, com Falcão. Após o empate, o Brasil cresceu muito e teve oportunidades para virar o placar, mas então eis que Paolo Rossi, que já havia marcado duas vezes, apareceu novamente para dar o golpe de misericórdia. Aos 30 minutos, livre de marcação, desviou chute na pequena área. O Brasil não conseguiu superar o baque e, graças a Rossi, a Itália estava classificada para as semifinais.

Pablito comemora um de seus gols contra o Brasil (Interleaning)

O atacante ainda marcou duas vezes contra a Polônia, na semifinal, e uma contra a Alemanha, na final, e conquistou a chuteira de ouro da competição, com seis gols. Naquele ano, Rossi também ficou com a Bola de Ouro da France Football. Foi o terceiro italiano a ganhar o prêmio, após Gianni Rivera e Omar Sívori.

Em nível de clubes, sua melhor passagem foi pela Juventus, mesmo entre altos e baixos e mesmo sem nunca ter estabelecido um relacionamento muito amigável com a torcida, com o técnico Trapattoni e o presidente Boniperti. Pablito reclamava de ser substituído com frequência, treinava sem motivação e entrou em atritos com o presidente algumas vezes por pedir aumentos salariais.

De qualquer forma, ao lado de Platini e Boniek, Rossi conquistou diversos títulos com a Velha Senhora, dentre os quais se destacam os scudetti de 1982 e 1984 e a Copa dos Campeões de 1985. Sua melhor temporada foi a segunda, na qual contribuiu com 13 gols para o scudetto.

Rossi fez trio de luxo com Platini e Boniek (Interleaning)

Em 1985, transferiu-se para o Milan, mas devido aos antigos problemas no joelho, não conseguiu render o que se espera de um legítimo matador e marcou apenas dois gols com a camisa rossonera. No ano seguinte foi convocado para a terceira Copa do Mundo, na qual não chegou a jogar, defendendo então o Hellas Verona, time em que encerrou sua carreira após marcar quatro gols em vinte jogos.

Em 2002, Pablito publicou uma autobiografia, intitulada Eu fiz o Brasil chorar. Atualmente, é comentarista do canal italiano Sky Sports, presidente honorário do Prato e dirige uma agência imobiliária em Vicenza.

Paolo Rossi
Nascimento: 23 de setembro de 1956, em Prato
Posição: atacante
Clubes: Juventus (1973-75), Como (1975-76), Lanerossi Vicenza (1976-1979), Perugia (1979-80), Juventus (1981-85), Milan (1985-86), Hellas Verona (1986-87)
Títulos: Serie A (1977), 2 Serie A (1982 e 1984), 1 Coppa Italia (1983), 1 Copa dos Campeões da Europa (1985), 1 Recopa Europeia (1984), 1 Copa do Mundo (1982)
Seleção Italiana: 48 jogos e 20 gols.

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