Serie A

18ª rodada: Epifania

Paizão Leonardo? O brasileiro chegou, conquistou respeito dos jogadores e pode ser fator decisivo para a volta da Inter à briga pelo scudetto (Getty Images)

Neste dia 6 de janeiro, comemora-se o Dia de Reis, em todo o mundo. Na Itália, o dia tem mais importância que no Brasil, é feriado e é chamado de Epifania – como também no Brasil, de maneira pouco popular. Epifania quer dizer, entre outros significados, “aparição” ou “fenômeno miraculoso”. Assim como, reza a lenda, Jesus Cristo deu-se a conhecer aos Reis Magos neste dia 6 de janeiro, a Inter de Leonardo apareceu ao mundo pela primeira vez e sequer lembrou o time que Rafa Benítez comandara meses antes. Longe de qualquer comparação entre Leonardo e Jesus Cristo, a chegada do brasileiro dá esperanças aos torcedores, que veem a briga pelo scudetto como perspectiva real. Além da Inter de Leonardo, a rodada da Serie A, em luto pelo falecimento de Enzo Bearzot, em dezembro, trouxe ainda a vitória do Milan no sufoco sobre o Cagliari, a polêmica virada da Roma sobre o Catania, a goleada aplicada pelo Parma sobre a Juventus do instável Felipe Melo e um esboço de recuperação do Bari. Confira o resumo da 18ª rodada.

Inter 3-1 Napoli
Em sua estreia no comando da equipe nerazzurra, Leonardo passou no primeiro teste. Sem Eto’o e Sneijder, o treinador optou pela formação mais utilizada na Inter nos últimos anos: 4-4-2 com o meio-campo a rombo, ou seja, com um meia mais próximo do ataque, fazendo a ligação entre os setores. Stankovic, encarregado de fazer esse papel, logo se mostrou importante, ao dar bom passe para Thiago Motta, homem do jogo com dois gols, abrir o placar. O brasileiro, aliás, vive grande fase técnica, embora tenha se lesionado bastante, e terá importante papel (caso esteja bem fisicamente) no meio-campo proposto por Leonardo. Meio-campo que deverá ter postura mais parecida com a que foi empregada por Mourinho, com menos posse de bola e mais velocidade – ao contrário de Benítez, que prezava a posse de bola. E, pelo menos na partida de ontem, o time chegou a lembrar o da última temporada: calmo, não se abalou com o gol de empate de Pazienza e logo marcou o segundo, com Cambiasso, além de ter suportado com tranquilidade à pressão partenopea.

A adaptação de Leonardo na Inter, sua rival de tantos anos, tem sido veloz. Para isso, ajudam a boa relação com os brasileiros do time e sua amizade com o capitão Zanetti, iniciada quando o argentino começou a desempenhar o papel de embaixador da Inter em trabalhos sociais, que Leonardo já desenvolvia. Contribui para isso, ainda, o perfil de Leonardo, que costuma ficar muito próximo aos jogadores, assim como Mourinho – e de forma oposta a Benítez, que, em sua passagem pelo clube, apenas desenvolveu inimizades. No lado napolitano, desta vez Mazzarri não teve muito o que fazer, depois que a Inter decidiu jogar e, simplesmente, controlou o jogo. Se os partenopei não foram reprovados no primeiro teste de janeiro porque tiveram exibição razoável, tentarão buscar a recuperação em mais uma partida complicada amanhã, quando recebem a Juventus.

Cagliari 0-1 Milan
Na visita ao Sant’Elia, o Milan ia tropeçando, mas matou o jogo nos minutos finais, graças a duas boas cartadas de Max Allegri, ex-Cagliari, que bancou Strasser mais avançado e a estreia de Cassano, já decisivo. Um passe de Fantantonio para o meio-campista de Serra Leoa (impedido) aos 40 do segundo tempo decretou o título de campeão de inverno para os rossoneri, desfalcados de Ibrahimovic, Pirlo, Boateng e Nesta. Desde 1977, quem vence o título simbólico de campeão de inverno é campeão no fim da temporada. E, após uma vitória que foi conseguida em uma partida na qual o Diavolo passou longe de ser brilhante e encontrava dificuldades frente ao obstinado time comandado por Donadoni, ex-ídolo milanista, não dá para contestar o favoritismo rossonero. Contra a Udinese, o Milan terá Ibrahimovic de volta, mas continuará com meio time lesionado.

Por sua vez, o Cagliari ficou com o amargor da derrota mesmo tendo sido superior em campo. Pisano e Astori fizeram ótima partida na defesa, bem como o goleiro Agazzi. No primeiro tempo, Canini poderia ter colocado os sardos na frente, mas sua cabeçada atingiu a trave. O brasileiro Nenê ainda perdeu a chance do jogo, quando Abbiati fez lambança e deixou o gol vazio para que o atacante apenas empurrasse a bola para dentro, mas chutasse para fora. Desta maneira, o bom Cagliari de Donadoni tem 50% de aproveitamento sob o comando do novo treinador e buscará a recuperação fora de casa contra o Parma.

Roma 4-2 Catania
Uma partida polêmica no Olímpico entre um Catania à argentina e uma Roma guiada por Borriello e Vucinic – e, segundo Antonio Pulvirenti, presidente do Catania, pelo árbitro Brighi, “autor de uma doppietta”, em suas palavras. De fato, a Roma venceu com dois gols irregulares, justamente aqueles responsáveis pela difícil virada. Se Borriello havia aberto o placar após falha de Andújar, o Catania virou ainda no primeiro tempo, com Silvestre e Maxi López, com assistências de Llama e Gómez. Na segunda etapa, os giallorossi empataram, novamente com Borriello, após Riise cruzar, nitidamente de fora do campo, bola para que cabeceasse.

O Catania, no entanto, resistia bravamente ao controle da equipe dona da casa, até que a entrada de Vucinic determinou a virada. A cinco minutos do fim, o montenegrino aproveitou posição de impedimento para marcar seu primeiro no jogo e, com fôlego, ainda ajudou o time a matar a partida, puxando alguns contra-ataques que, fatalmente, terminariam em mais um gol seu. Injustiçado pela arbitragem, o Catania segue sem vitórias fora de casa e enfrentará a Inter no Massimino, amanhã. A Roma, por sua vez, visitará Gênova e deve ter Borriello e Vucinic no ataque: a dupla deve ser premiada com a titularidade, em detrimento de Totti, que vive má fase. Ranieri deve colocá-lo no banco, de onde verá os responsáveis pela vitória no dia da Epifania comandando o ataque capitolino contra a Sampdoria.

Juventus 1-4 Parma
Se a Epifania foi um dia feliz para Inter e Milan, a Juventus tem muito o que lamentar após o vexame em casa. Mais que a humilhante (e improvável) goleada sofrida, a Velha Senhora sentiu dois golpes duros: primeiro, a expulsão de Felipe Melo por mais um ato injustificado de violência, que lhe custará três jogos de suspensão, e, depois, pela lesão de Quagliarella, que não jogará mais nesta temporada. O clube já contratou Luca Toni, em má fase no Genoa, e tem interesse em Maccarone e Floro Flores, atacantes que, de maneira alguma, fazem o torcedor juventino relembrar os melhores momentos da história do clube. Beppe Marotta, que fez ótimo trabalho na Sampdoria, não tem conseguido o mesmo no clube de Turim.

Para piorar, enquanto a Juventus pensa em reforços para o ataque, vê Giovinco, de propriedade do clube e emprestado ao Parma pelo mesmo Marotta, fazer boa temporada e excelente partida, coroada com dois gols. Outros ex-juventinos ainda brilharam: Candreva, que não teve opção de compra exercida pela Juve no mercado de verão, foi o dono do meio-campo na partida, enquanto Palladino estreou pelo Parma com gol. Na equipe crociata, que ensaia recuperação, destaca-se ainda o artilheiro Crespo, que chegou aos sete gols no campeonato e faz os torcedores lembrarem de seus melhores momentos na década de 90, quando foi ídolo do clube.

Palermo 3-0 Sampdoria
Quem diria que o mesmo confronto valia, meses atrás, uma vaga na Liga dos Campeões? A ampla superioridade imposta pelo Palermo sobre a Sampdoria desde o início da partida serve como amostra de como a gestão ambiciosa de Maurizio Zamparini e uma boa política de contratações tem feito o Palermo sonhar cada vez mais, em contraste com uma Sampdoria que não é nem sombra daquela que fez ótimo campeonato em 2009-10 e sucumbe com opções contestáveis do técnico Di Carlo. A insistência no futebol opaco de Tissone impressiona. O argentino vem de uma temporada na reserva e, mesmo assim, é o favorito do treinador em relação a Poli e Dessena, dois dos volantes que mais chamaram a atenção na última Serie A. O péssimo desempenho do meio-campo doriano na partida fez com que Pastore e Ilicic nem precisassem tirar coelhos da cartola: cada um foi autor de uma assistência e nada mais, apenas fizeram o “feijão com arroz” no restante dos 90 minutos. A Sampdoria sucumbiu muito rapidamente ao jogo imposto pela equipe rosanero.

Sem Cassano e mesmo com a contratação de Macheda, a tendência é que a Samp perca de vez seu elemento de imprevisibilidade e torne-se cada vez mais pragmática e engessada: a fixidez do 4-4-2 de Di Carlo deve ser mantida, sem grandes arroubos de genialidade vindas do meio-campo, tornando Macheda e Pazzini um tanto reféns do módulo tático e opções de luxo para um time que dificlmente conseguirá algo mais que uma posição no meio da tabela. O Palermo, por sua vez, sonha com a classificação para a Liga dos Campeões: mesmo com um elenco limitado (não existe uma opção tão confiável à Pastore e Ilicic e para as laterais), os sicilianos deverão continuar na briga até o fim do campeonato. Uma vaga na Liga Europa já seria bem vinda.

Genoa 0-0 Lazio
Mais uma vez, o Genoa não conseguiu utilizar o Marassi a seu favor e empatou em casa. A superioridade em campo apenas durante o segundo tempo não foi traduzida em gols novamente, após a última (e melancólica) partida de Toni com a camisa do clube. Por outro lado, Jankovic voltou ao time e, no 4-3-1-2 de Ballardini, fez boa partida como trequartista, da mesma forma como Destro também atuou bem, em suporte a Toni. Com a saída do bomber, deve assumir o comando de ataque (ao menos até a recuperação de Paloschi) e terá o húngaro Rudolf como companheiro. Uma dupla improvável no início do campeonato, mas que tem potencial para devolver os gols ao clube lígure.

A Lazio, por sua vez, não fez muito para vencer a partida. Sem Reja, que cumpria suspensão, o time pareceu perder um pouco de vibração e não fez muito mais que se defender ao longo da partida. Destaque para Muslera, que em um de seus lampejos, fez uma excelente defesa frente a Toni e garantiu o placar. Com um pouco mais de sorte, os três pontos poderiam ter sido conseguidos: em uma das poucas chances do time, Hernanes acertou um chute na trave de fora da área. Em casa, contra o Lecce, um empate não será bom resultado.

Bologna 1-1 Fiorentina
Se o ambiente tumultuado do Bologna começa a ganhar paz com a compra do clube pelo empresário Massimo Zanetti, o da Fiorentina apenas se complica, com a crise técnica dentro de campo e com a indisciplina de Mutu fora dele. No entanto, no Derby do Appennino, os dois times pareceram esquecer o extracampo e fizeram uma partida divertida. Logo no início, uma cabeçada de Di Vaio deu a vantagem aos donos da casa, que foram superiores no restante do primeiro tempo. A reação viola veio na segunda etapa, quando Babacar foi peça-chave nos contra-ataques da equipe, que tinha Montolivo, D’Agostino e Gilardino de volta, após lesão. No entanto, quem voltou de lesão e foi importante foi Santana, autor do gol de empate após jogada de Babacar e passe de Cerci. A partir de então, o jogo ficou muito aberto e cada equipe teve chances claras de gol, que não foram convertidas por pouco. Pior para a Fiorentina, que teve oportunidades melhores com Ljajic e Gilardino e segue atrás do Bologna na tabela.

Lecce 0-1 Bari
Após dez anos, o dérbi da Puglia voltou a ser realizado na Serie A, em meio a várias polêmicas. A grande rivalidade entre as cidades e a recente agressão de torcedores do Lecce a Diamoutene, que jogou no Bari, fez com que o júri esportivo italiano decidisse que a partida teria portões fechados, embora a decisão tenha sido revogada dias antes da partida. O Lecce foi melhor durante toda a partida, mas uma tarde pouco inspirada de Chevantón e Ofere foi suficiente para que o time não aproveitasse os espaços dados pela defesa biancorossa. Acabou decidindo o jogo quem menos tempo teve para vivenciar a rivalidade entre os times: Okaka, contratado por empréstimo junto à Roma um dia antes do jogo, saiu do banco no segundo tempo e marcou o gol da vitória, após receber belo lançamento de Gazzi. 2011 deve ser de plena recuperação para o Bari, que quebrou a série de 12 jogos sem vencer fora de cada, justamente no dérbi. O time segue na zona de rebaixamento, mas está apenas um ponto atrás de Lecce e Brescia.

Brescia 1-2 Cesena
Em partida chave na luta contra o rebaixamento, o que se viu foi um nível técnico baixíssimo. No frio da Lombardia, o Cesena foi mais aguerrido e mais feliz: contou com dois gols provenientes de bolas desviadas pela defesa bresciana para abrir boa vantagem ainda no primeiro tempo. O Brescia foi o dono do segundo tempo e, mesmo com o gol do brasileiro Éder logo após o intervalo, pouco incomodou os bianconeri, seguros na defesa. Em um jogo tão fraco, os atrativos ficaram por conta da estreia dos novos reforços – Lanzafame pelo Brescia e Sammarco pelo Cesena – , além do diferente uniforme das andorinhas. Ao invés do tradicional “V” branco sobre fundo azul, o uniforme desta noite apresentou uma faixa vertical, no centro da camisa.

Udinese 2-0 Chievo
O minuto de silêncio pelo falecimento de Bearzot, friulano de nascimento, foi o único momento triste para os bianconeri nesta quinta. A Udinese não demorou para começar a atropelar o Chievo: logo aos 15 minutos, Sánchez abriu os trabalhos e, 10 minutos depois, Di Natale ampliou com um golaço a partir de um chute cruzado. Totò, novo artilheiro da Serie A com 11 gols ainda perdeu pênalti logo depois, o que o impediu de matar o jogo e dar um pequeno sprint na corrida pelo segundo ano consecutivo na artilharia do campeonato. Pinzi, ex-Chievo, foi expulso aos 34 minutos e chegou a dar alguma esperança para o Chievo que, nem com um a mais, incomodou. Pioli errou ao substiruir Constant por Théréau no intervalo e o time ficou sem um meia que pudesse criar ocasiões de gol, embora esitvesse jogando com quatro atacantes de ofício: Pellissier, Moscardelli, Théréau e Granoche. Por incrível que pareça, a Udinese seguiu inabalável na defesa e chegou aos 26 pontos na tabela com muita tranquilidade.

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Seleção da 18ª rodada
Muslera (Lazio); Maicon (Inter), André Dias (Lazio), Von Bergen (Cesena), Balzaretti (Palermo); Candreva (Parma), Migliaccio (Palermo), Thiago Motta (Inter); Giovinco (Parma), Okaka (Bari), Vucinic (Roma). Técnico: Leonardo (Inter).

3 comentários

  • "Beppe Marotta, que fez ótimo trabalho na Sampdoria, não tem conseguido o mesmo no clube de Turim."

    Bom, pra mim ele fez sim um bom trabalho na outra janela de transferèncias: trouxe Krasic, Quagliarella e Aquilani.

  • Bom, seleções sempre são contraditórias e nunca cabem todos que jogaram bem. 😛

    Quanto ao Marotta, acho que o trabalho dele não passa de razoável. Krasic, Aquilani e Quagliarella foram sim boas contratações, mas é bom lembrar que o atacante era a terceira opção (o time não conseguiu nem Borriello nem Di Natale).

    Além disso, Marotta torrou muita grana com jogadores medianos e que mal jogam ou já saíram, como Martínez (bom jogador, mas pouco útil no esquema de Del Neri), Motta, Lanzafame, Traoré e Rinaudo. Outro erro foi ter supervalorizado Bonucci e Pepe, que acabaram saindo caros demais. A Juventus é dona de muitos jogadores no futebol italiano e não usou nenhum como contrapeso, por exemplo.

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