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Cortem as cabeças!

Louco, eu? Enrico Preziosi perde a paciência no comando do Genoa e toma decisões contestáveis, aparentemente sem planejamento (Getty Images)

Na semana em que se comemoram os 178 anos de nascimento do escritor Lewis Carroll, autor do psicodélico clássico infanto-juvenil Alice no País das Maravilhas, pouco ilustra tão bem o ambiente do Genoa como uma frase oriunda da obra do autor inglês. Quando Alice, em sua série de desventuras, encontra a egocêntrica e inconstante Rainha de Copas, logo a vê dando ordens contra soldados que haviam plantado, por engano, uma roseira branca em vez de uma vermelha: cortem-lhes as cabeças. No Genoa, o presidente Enrico Preziosi, dono da Giochi Preziosi, uma das maiores fabricantes de brinquedos do mundo, tem agido de maneira parecida: quando algo o desagrada minimamente, toma-se decisões radicais. Se jogadores não estão agradando, o presidente não dá tempo ao tempo e recorre ao mercado.

Quando a atual temporada se iniciava e os clubes se reforçavam com novos jogadores, a diretoria do Genoa foi muito elogiada. Protagonista no mercado de verão, o Grifone gastou cerca de 40 milhões de euros por reforços que se encaixavam no time. Se os problemas maiores eram a defesa e a falta de um matador no ataque, Preziosi e o diretor esportivo Stefano Capozzuca buscaram sanar os problemas. Trocaram Amelia por Eduardo, que vinha se destacando no gol do Braga e havia feito boa Copa do Mundo por Portugal. Para formar a defesa, mantiveram Ranocchia, não obstante o assédio da Inter, e ainda trouxeram Kaladze e Chico.

No ataque, embora tenha feito uma arriscada aposta em Toni, foram contratados o húngaro Rudolf (destaque do Debrecen) e Destro, uma das maiores promessas do futebol italiano. Preziosi ainda reforçou o meio-campo com Rafinha e Miguel Veloso. Se nem todas foram contratações de primeira linha, somadas a base que os rossoblù já tinha, era perfeitamente possível acreditar que o time iria brigar pelo objetivo primário da temporada: uma vaga em copas europeias. Meia temporada depois, o Genoa está apenas cinco pontos acima da zona de rebaixamento e deve ficar, no máximo, no meio da tabela.

Logo no início do campeonato, Preziosi já havia acenado com a possibilidade de cortar cabeças, depois que o time começou a tropeçar. A primeira cabeça cortada foi a do técnico Gian Piero Gasperini, que já estava no comando dos grifoni há quase cinco anos. Com Ballardini, o time não passou a jogar bem. Pelo contrário, continua não aproveitando o estádio Luigi Ferraris a seu favor e tem o segundo pior ataque da competição, com apenas 15 gols marcados – não fez gols em nove das 20 partidas disputadas. Preziosi achou por bem intervir intensamente no mercado mais uma vez.

Apenas em janeiro, Preziosi realizou nove operações em entrada e dez em saída, totalizando 26 transações de chegadas e 32 de saídas somando os dois mercados. No mercado de reparação, o presidente identificou o ataque como principal setor para ser reforçado, mas exagerou: dos atacantes que iniciaram a temporada, ficaram apenas Palacio, Destro, Jankovic e Boakye, enquanto foram negociados Toni (Juventus), Sculli (Lazio) e Palladino (Parma), jogadores que frequentemente eram titulares.

O exagero de Preziosi foi ainda maior na reposição: trouxe quatro atacantes de área – Paloschi, Floro Flores, Hallenius e Boselli. Como integrá-los em tão pouco tempo e fazê-los se entrosarem ao time? Por outro lado, como fica o moral dos jogadores que veem, cada vez mais, reforços chegando para disputarem vagas consigo? A concorrência pode aumentar: o Genoa está interessado no esloveno Valter Birsa (Auxerre) e ainda ainda pode fechar com Amauri antes de o mercado fechar. Nesta conjuntura, o clube pode emprestar Destro (um dos poucos jogadores que tem feito boas apresentações) a Lecce, Bologna ou Parma.

A situação é ainda mais surreal, como em Alice no País das Maravilhas, no que diz respeito ao que Preziosi pode fazer em respeito à situação dos goleiros do time. Preziosi chegou a cogitar a contratação de dois goleiros de uma só vez (Marchetti e Storari) para substituir Eduardo. Desde que chegou ao clube, o português decepciona: não é nem sombra do goleiro que foi na Copa do Mundo e já cometeu falhas incríveis, como a que deu vitórias à Inter e à Udinese. Se já não conta com o apoio da torcida, também entreou em descrédito com a direção, que havia cedido Amelia ao Milan para contar com o português. Nos últimos dias de mercado, é possível que haja, ainda, uma troca de Eduardo por Doni, encostado na Roma.

O que acontece, no fim das contas e com tantas mudanças, é que não se constrói continuidade. O ambiente atribulado, de pura impaciência e busca por resultados positivos, que impera dentro do clube faz com que Ballardini pouco insista nos mesmos jogadores. O Genoa não repetiu uma única escalação em 20 partidas. Apenas seis jogadores que foram titulares na primeira rodada deverão ser titulares amanhã – e o número pode diminuir ainda mais, com a inserção dos novos reforços e a provável saída de Eduardo. Como um time que tanto muda em uma única temporada pode conseguir o objetivo de se classificar para competições europeias?

Os torcedores rossoblù perderam a paciência, assim como os rivais dorianos, em uma crise poucas vezes vista nos dois clubes de Gênova. Irritados com a má fase do clube, setores da torcida ofenderam verbalmente Fabrizio Preziosi, filho do presidente, que prontamente ameaçou vender o clube, em meados de janeiro. A ameaça não passou de um blefe, mas o empresário claramente cansou de perder dinheiro com o clube, que não alcança os objetivos traçados.

Para que o Genoa ao menos possa entrar nos eixos, faria bem a Preziosi – e, consequentemente, a seus bolsos – controlar e planejar melhor os custos, além de cortar menos cabeças. Talvez seja este o caminho para que o Genoa retome o caminho que começou a construir duas temporadas atrás, com Milito e Thiago Motta, e deixe para trás os requintes de surrealismo que tem tomado o clube nesta temporada. Assim, quem sabe o País das Maravilhas passe a ter um significado mais próximo ao literal.

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