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Gianluca Pessotto sensibilizou torcedores da Juve ao tentar suicídio

Um dia após a vitória da Nazionale sobre a Austrália nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2006, um jogador que fez sua história com a camisa da Juventus tentou o suicídio pulando da janela do segundo andar da sede bianconera. A carreira do versátil Gianluca Pessotto, porém, não foi marcada apenas pela quase tragédia.

Nascido na província de Údine, Pessotto ingressou no futebol profissional apenas com 19 anos. O lateral iniciou a carreira nos juvenis do Milan, mas foi transferido para o Varese, que disputava a Serie C2, e lá foi agregado ao elenco principal. A melhor das três temporadas que passou no pequeno clube da Lombardia foi a de 1989-90, quando a equipe subiu de divisão e ele marcou um dos poucos gols de sua carreira – foram 10 no total.

O bom desempenho no Varese acabou lhe valendo uma transferência para o Massese, que atuava na Serie C. A única (e boa) época pelo clube, em 1991, levou o defensor para o Bologna, que estava na Serie B. Apesar da má campanha do clube, que acabou rebaixado, Pessotto transferiu-se para o Hellas Verona, último clube que defendeu antes de chegar à elite do futebol italiano, para vestir a camisa granata do Torino. Pessotto representou o Torino em 32 oportunidades na temporada 1994-95, com bastante segurança para quem acaba de estrear na primeira divisão.

A regularidade do lateral despertou a cobiça da rival Juventus, impressionada com o bom campeonato realizado por Pessotto e pelas suas duas boas exibições no dérbi de Turim. Desta forma, então técnico juventino, Marcello Lippi, deu sinal verde para a contratação do atleta. Rapidamente, Pessotto assegurou a vaga na lateral-esquerda da equipe de Turim, onde jogou seu melhor futebol nos 11 anos que vestiu a camisa da Velha Senhora.

Jogando em alto nível, o setor foi quase transformado em seu território particular – status que permaneceria praticamente inalterado até 2002. Pessotto tinha uma imensa capacidade tática e era frio na marcação, mas também era capaz de subir ao ataque efetivamente, sempre com bons cruzamentos, apesar de não atuar em sua lateral de origem – a direita.

Em sua temporada de estreia pela Juve, Pessotto conquistou o primeiro troféu de sua longa carreira: a Liga dos Campeões. Na final disputada no Olímpico de Roma, contra o Ajax, o lateral converteu uma das cobranças de pênalti que definiram o título. Na época seguinte, o defensor conquistou a Supercopa da Europa, o Mundial Interclubes e a Serie A, além de debutar com a camisa da seleção italiana principal.

Pessotto já havia vestido o manto azul em 1987, quando disputou o Campeonato Mundial Sub-16, no Canadá. Pela seleção, o lateral representou o país na Copa do Mundo de 1998, na França, e na campanha do vice-campeonato na Eurocopa de 2000. O atleta só não foi para o Mundial de 2002 porque se machucou no último amistoso preparatório para a Copa, contra o Uruguai.

A lesão comprometeu ainda sua preparação para o início da temporada seguinte. A contratação de Mauro Camoranesi foi providencial para a Juventus, uma vez que Lippi moveu Gianluca Zambrotta para a lacuna deixada por Pessoto no setor esquerdo da defesa. Quando recuperado, o já experiente atleta viu o banco de reservas como seu companheiro – uma vez que Thuram havia se firmado à direita da zaga formada também por Ciro Ferrara e Paolo Montero. Entretanto, o friulano desempenhou papel importante na equipe: passou a temporada tendo um papel de 12º jogador da Juventus, pois era um dos suplentes mais utilizados.

Em 2005, a contratação de Giorgio Chiellini, então lateral esquerdo, começou a por, de vez, sua carreira em xeque. Não deu outra: Pessotto pendurou as chuteiras no final daquela temporada com 366 jogos, dez títulos e três gols. Exemplo de correção e esportividade, o defensor ficou conhecido como Professorino – ou “professor”, em tradução para o português – não só por tais características, mas também por ter conseguido conciliar a carreira de jogador profissional com a vida acadêmica e ter se graduado em Direito.

Logo após encerrar a carreira, Pessoto foi nomeado diretor-geral da Juventus em maio de 2006, sucedendo Alessio Secco, que assumiu o posto de diretor esportivo. No mês seguinte, um dia após a vitória da Nazionale sobre a Austrália nas oitavas de final da Copa na Alemanha, ele se atirou de uma das janelas da sede da Juventus. A Ansa, uma das principais agências de notícias italianas, informou que o dirigente subiu na clarabóia, apertando um terço entre as mãos, e se atirou de lá, caindo sobre – e destruindo – o Alfa Romeo de Roberto Bettega. Ele foi operado no hospital Le Molinette pelo médico Claudio Rabbia para interromper a hemorragia interna causada pelas múltiplas fraturas.

Sabendo do acontecido, Fabio Cannavaro, Gianluca Zambrotta, Alessandro Del Piero e Ciro Ferrara (à época, vice-treinador da Nazionale) saíram às pressas da Alemanha para visitar Pessotto no hospital. Em homenagem ao dirigente, os jogadores da Nazionale mostraram uma bandeira com a inscrição “Pessottino, estamos com você” após a vitória por 3 a 0 sobre a Ucrânia, nas quartas de final. Ao derrotar a França e conquistar o tetracampeonato mundial, jogadores da seleção, incluindo Del Piero e Cannavaro, levaram a taça para o quarto onde ele estava internado. Gianluca Pessotto se recuperou completamente e, atualmente, é o coordenador das categorias de base da Juventus.

Gianluca Pessotto
Nascimento: 11 de agosto de 1970, em Latisana
Posição: lateral
Clubes como jogador: Varese (1989-91), Massese (1991-92), Bologna (1992-93), Verona (1993-94), Torino (1994-95), Juventus (1995-2006)
Títulos: 4 Serie A (1996-97, 1997-98, 2001-02 e 2002-03), 3 Supercoppa Italiana (1997, 2002 e 2003), Liga dos Campeões da Europa (1995-96), Supercopa da Uefa (1996), Mundial Interclubes (1996), Copa Intertoto (1999)
Seleção italiana: 22 jogos

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