Serie A

Magia negra

Atrás de Ibrahimovic, Cassano sorri: grandes poderes exigem grandes responsabilidades (EFE)

É preciso ter noção do que a ida de Cassano ao Milan significa para o futebol italiano. Ao ingressar num time cujo ataque é composto por Pato, Robinho, Ibrahimovic e Inzaghi, o atacante barês criará um dos dilemas mais curiosos e animadores da história recente da Serie A. Esse dilema carrega duas possibilidades bastante distintas: a primeira significa o sucesso absoluto, embalado por atletas de nível técnico altíssimo e em boa fase, enquanto a segunda pode ser representada como uma bomba de egos tentada por explosão.

Massimiliano Allegri, como se sabe, não é bobo. Ao abdicar do esquema com três atacantes do início da temporada, viu que o Milan cresceu. Carregado por um Ibrahimovic decisivo, o treinador observou a evolução do time quando pôs somente Pato (e, posteriormente, Robinho) ao lado do sueco, como dupla de ataque. Os rossoneri têm o segundo melhor ataque do campeonato, mas se engana quem pensa que a ambição para por aí. Ao contratar Cassano, o Milan traz um jogador de potencial gigantesco, que se manteve em alto nível desde que chegou na Sampdoria, mas que, ainda assim, desperta sempre uma pulga atrás da orelha – até porque dá motivos para tal.

Ao passar muito tempo sendo exemplar em Gênova, o barês quase fez todos esquecerem de seu passado turbulento. O mundo são, porém, não deu trégua para Cassano, que quebrou o pau com Riccardo Garrone, presidente da Sampdoria. Ao recusar participação numa cerimônia festiva em que só deveria retirar um prêmio, o jogador efervesceu e atacou Garrone, ofendendo-lhe com xingamentos pesadíssimos. Ele queria ficar em casa com a mulher Carolina, a quem costumou atribuir todos os seus avanços pessoais. A discussão, contudo, rendeu o afastamento irrefutável de Cassano, que pela primeira vez em temporadas aprontava uma cassanata digna. Pedir desculpas não adiantou, e tão logo o atacante acabou fechando com o Milan – o que em lugar nenhum do planeta pode ser chamado de castigo.

Em Milão as coisas certamente serão diferentes. Cassano era o principal jogador da Sampdoria, craque e referência do time; capaz de levá-lo nas costas. Dessa vez, embora possa dividir responsabilidade, a pressão é bem maior: ele tem que corresponder, rodeado pela eterna expectativa que o rodeia, somada à (última?) oportunidade num clube grande. Se há anos seu apelido era Peter Pan, hoje Cassano cresceu e, com 28 anos, precisa agarrar a chance capaz de afastá-lo do inglório rol de jogadores que podiam ter conquistado muito mais. Vale lembrar que seu único título na carreira veio com o Real Madrid, quando, ao lado de Robinho (e Capello), conquistou a Liga em 2007.

A técnica desse novo ataque milanista só pode ser contestada por provocação. Exceto pelo estabanado Inzaghi, tem-se Robinho, Pato, Ibrahimovic e Cassano; todos dotados de habilidade (muito) acima da média. A troca de Ronaldinho pelo barês é bastante positiva: embora o brasileiro seja tão ou mais mágico, sua fase negativa e evidente desinteresse empacam a qualidade do atleta. O ex-Peter Pan, por sua vez, gastou a bola em todo seu período blucerchiato, e só foi parado pela própria cabeça. Aí, contudo, entra o problema principal: como conciliar um time que só em seu ataque agrega um ególatra, um maluco e um reclamão. O Milan construiu um ataque digno de Fantacalcio – jogo italiano semelhante ao Cartola -, mas a tarefa de fazê-lo funcionar sem rixas carrega seus riscos.

Uma das soluções é recuar Cassano. Caso atue na posição de trequartista, com funções mais voltadas à criação de jogo, será possível poupar uma das vagas de atacante, deixando a disputa para companheiro de Ibrahimovic entre Pato e Robinho. Nesse caso, Seedorf é quem mais se ausentaria, substituído pelo barês. Alguns problemas de adaptação poderiam surgir, visto que, por mais que Cassano tenha recuado nos últimos anos, é um jogador muito mais ofensivo que o veterano holandês, meio-campista de origem, disposto a trazer proteção à equipe. Nada que não possa ser contornado, considerando a linha recuada de ‘volantes’ do esquema e o mau momento de Seedorf.

Foi assim na vitória sobre o Cagliari: Cassano entrou no final da partida e permaneceu atrás de Pato e Robinho – Ibra estava suspenso – de onde participou diretamente no gol de Strasser. Foi bem em seus poucos minutos, o que deu ainda mais motivos para Allegri lançá-lo contra a Udinese, já diante de resultado adverso. O barês se sobressaiu jogando mais avançado – já não havia grandes preocupações táticas -, dando duas assistências nos seus vinte minutos de participação. Até o momento, contabilizando menos que um tempo inteiro, ele concedeu três assistências (para Strasser, Pato e Ibrahimovic), todas com toques curtos na entrada da área.

A empolgação não poderia ser maior: o “agora ou nunca” de Gattuso e a confiança de Allegri simbolizam bem o impulso que a transferência deu à equipe. Se tudo são flores em Milão, uma faísca em potencial surgiria no caso de Cassano ser escalado no ataque. É difícil crer que um entre Pato, Robinho e o próprio barês se contente com a reserva constante, ou com um turnover esporádico; isso já considerando Ibrahimovic como intocável. À exceção de Pato, os nomes do ataque milanista têm histórico de pautas negativas no que tange ao comportamento. E ainda assim: até que ponto o brasileiro, que saiu do Internacional para estourar no futebol europeu, se daria por satisfeito na reserva?

Seguindo a linha de que não se mexe em time vencedor, Allegri não deve retomar o esquema com três atacantes de ofício – até porque o sucesso do trequartista Cassano é provável. O banco, portanto, sobraria para Robinho, famoso por suas reclamações envoltas em comodismo. Mesmo ele, porém, parece mais tranquilo em Milão, e só largaria a boa condição que atingiu por estupidez. Entretanto, é de conhecimento geral que tanto Ibra quanto Cassano e Robinho já foram notícia e alvo de críticas por seu comportamento, mesmo em situações favoráveis – o sueco na Juventus, na Inter e no Barcelona; Cassano em Roma e Sampdoria; Robinho no Santos, no Real Madrid e no Manchester City. Todas essas transferências foram conturbadas.

Ao Milan resta um dos ataques mais fortes da história recente da Serie A, mas também cautela: o bombardeio é poderosíssimo, basta que não estoure no próprio clube.

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