Serie A

Mais um lento fim do Catanzaro

Dezembro de 2010: há meses sem receber, os jogadores do Catanzaro sentaram-se em campo. Apenas um dos atos de uma longa agonia (marinaonline.com)

Pela segunda vez em cinco anos, as bandeiras giallorosse baixaram e, nas imediações do estádio Nicola Ceravolo, em Catanzaro, sente-se apenas o tremular daquelas brancas: por uma opção consensual do seu grupo de acionistas – justamente as pessoas que deveriam trabalhar pelo futuro – o Catanzaro Calcio está falido.

Foi o fim de uma longa série de absurdos e ingerências que, de agosto de 2010 para cá, jogaram na lama o nome do glorioso clube calabrês. E mais um duro golpe na estima de seus torcedores e da cidade, que mal haviam se refeito da quebra e desfiliação de 2006, e agora torcem para que o título esportivo do clube seja salvo e se possa recomeçar a vida no próximo campeonato da Serie D.

Problemas antigos

Engana-se quem pensa que os problemas do futebol catanzarese emergiram a partir da falência de cinco anos atrás: fazer futebol profissional em Catanzaro se tornou uma tarefa hercúlea desde o início dos anos 1990. O clube, desde então pessimamente administrado, ficou mais de uma década imerso na antiga Serie C2, alternando más campanhas a derrotas nos play-offs.

Em 2006-07, após três anos de ausência (pontuados por duas repescagens: uma para a antiga C1, outra para a Serie B) o Catanzaro retornou à quarta divisão com uma nova sociedade. Os resultados, porém, ainda eram os de sempre: parcas nona e décima colocações, nos primeiros anos, e mais uma derrota nos play-offs, na temporada 2008-09.

A derrota definitiva

A temporada 2009-10 foi traumática para o Catanzaro. Em meio a grandes incertezas societárias, o clube por pouco não se inscreveu no campeonato de Seconda Divisione. Conseguiu, de última hora e foi penalizado em três pontos por irregularidades administrativas.

Um começo conturbado que preparava terreno para um final ainda mais decepcionante: após comandar a classificação na maior parte do torneio, o Catanzaro foi superado pela Juve Stabia, nas últimas rodadas, perdendo a promoção direta. Nos play-offs, a equipe giallorossa superou o Barletta para depois repetir a triste sina dos últimos anos, sendo derrotada pela Cisco Roma (atual Atletico Roma).

Pior do que a derrota foi a certeza que, desta vez, a esperança dos torcedores tinha sido realmente traída: mais de 4000 deles haviam se deslocado de Catanzaro rumo ao modesto estádio Flaminio, em Roma, para o primeiro jogo da final e voltaram para casa com uma derrota por 4 a 0 na bagagem. Após esse jogo, os ultrà do clube publicaram um comunicado radical, em que pediam uma propriedade sólida ou a falência. Pareciam adivinhar o futuro.

O fim

O enésimo fracasso dos últimos anos condenou a propriedade do Catanzaro. Financeiramente, além de seus próprios problemas, o clube sentiria o impacto do verão de sangue da Lega Pro, que transformou o campeonato da Seconda Divisione em um “parente menos pobre” da Serie D.

De agosto de 2010 até agora, o Catanzaro não encontrou um só minuto de paz. Negociações e projetos para a compra do pacote societário do clube foram pensados e desfeitos com o mesmo desinteresse que se usaria para com um time de paróquia. Nesse meio tempo, o Catanzaro viu toda a sua estrutura ser comprometida: sem dinheiro para pagar contas básicas, o clube não conseguia oferecer alojamento, roupas limpas, ou mesmo água quente para seus atletas, que – claro – também não recebiam salários.

Semana a semana, o Catanzaro ia a campo para evitar derrotas, mas muitas vezes não conseguia. Chegou a conquistar três pontos (fruto de três empates) mas teve seu esforço reduzido a nada pela punição por irregularidades administrativas. No último dezembro, fartos de tanto desrespeito, seus jogadores protestaram sentando-se no gramado, enquanto o jogo contra o Pomezia acontecia; dias depois, a sociedade não efetuaria o depósito de recapitalização. Virtualmente falido, o Catanzaro estudou abdicar das partidas fora de casa, o que lhe renderia uma nova desfiliação. Deu-se remédio à situação no último dia 21, quando a assembleia societária do clube decidiu pelo processo de falência.

Dois dias depois, a equipe, composta por juniores, desceu ao gramado do velho, e hoje semideserto, estádio Ceravolo, onde foi facilmente abatida pelo líder Latina. Após a partida, o técnico catanzarese, Tonino Aloi, amargurado, fez a mais dura de todas as constatações: “O nível do campeonato é muito baixo. Bastariam uns poucos reforços para que o Catanzaro pudesse se salvar”.

Em livre interpretação de suas palavras: mais uma grande história do futebol italiano foi interrompida, e irremediavelmente manchada, pela indiferença de quem espera um negócio seguro – com a torcida que tem, o título do Catanzaro, na Serie D, vale muito – e não se importa com os sentimentos e a fé de toda uma cidade. Triste.

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