Técnicos

Ferruccio Valcareggi, o único campeão da Eurocopa

Dias após as tropas soviéticas ocuparem a Ucrânia durante a Primeira Guerra Mundial, nascia Ferruccio Valcareggi em Trieste. O friulano, anos depois, seria jogador, técnico da Squadra Azzurra, conselheiro das categorias de base da seleção e diretor-geral de uma escola de futebol. Em 1932, muito antes de ser o único treinador que conquistou um título europeu com o selecionado italiano, começava a carreira como futebolista.

Valcareggi era ainda um adolescente quando começou a bater bola no bairro de Gretta, onde morava. Registrado no Ponziana, equipe local, enfrenta a Triestina e seu time vence por 7 a 0, mostrando seu cartão de visitas. Uma semana após a partida, Valcareggi, então com 13 anos, se junta aos meninos do clube biancorosso. Durante a II Guerra Mundial, em meio ao fascismo e a ameaças de explosões, Valcareggi, que jogava como interno, defendeu, além da Triestina, Fiorentina, Milan (à época chamado de Milano, por obrigações nacionalistas impostas pelo fascismo) e Bologna. No pós-guerra, ele ainda passou por Vicenza, Lucchese, Brescia e Piombino antes de pendurar as chuteiras no meio da década de 1950.

O primeiro trabalho como técnico aconteceu no próprio Piombino, na Serie B, quando Valcareggi acumulou as funções de técnico e jogador por duas temporadas. Em seu trabalho seguinte, o treinador levou o Prato, em 1956-57, à Serie B e deixou o clube cinco anos depois de chegar, quando caiu para a Serie C. Mesmo com a queda, Valcareggi foi contratado pela Atalanta, que havia acabado de subir para a Serie A. Em seu período no clube lombardo, o técnico conseguiu sustentar a equipe em posições intermediárias na tabela, sobretudo com a ajuda do atacante Angelo Domenghini, do meio-campista argentino Humberto Maschio e do defensor sueco Bengt Gustavsson.

Após as boas campanhas, o toscano Enrico Longinotti levou o técnico para Florença. Na Fiorentina do artilheiro sueco Kurt Hamrin, Valcareggi conseguiu a sexta posição em 1962-63 e se demitiu na sétima rodada do ano seguinte, após derrota para o Vicenza do brasileiro Luís Vinício. Ao deixar a cidade, ele retornou a Bérgamo, mas não conseguiu entrar em acordo com a gerência do Atalanta e a volta durou muito pouco.

A partir daí, Valcareggi começou sua aventura à frente da seleção italiana. A derrota por 1 a 0 para a Coréia do Norte na Copa do Mundo de 1966, que custou a eliminação italiana no Mundial, colocou um ponto final na história de Edmondo Fabbri no comando técnico da seleção. Para seu lugar chegaram dois treinadores: Helenio Herrera e Ferruccio Valcareggi. Ambos comandaram o time em apenas quatro oportunidades, com nenhuma derrota. O objetivo, agora somente de Valcareggi, era simples: elevar o nome da Squadra Azzurra. Como? Vencendo o Campeonato Europeu de 1968, em casa.

O trabalho foi executado com facilidade na fase de grupos com um Gigi Riva inspirado contra Romênia, Suíça e Chipre. A derrota para a Bulgária em nada abalou os ânimos da seleção, que venceu o jogo de volta pela diferença mínima. Após eliminar a União Soviética, o Olímpico de Roma viu o campeonato ser decidido em duas partidas contra a Iugoslávia: a primeira acabou em um duro empate por 1 a 1 e rendeu um jogo desempate, no qual a Itália venceu por 2 a 0. Missão cumprida para Valcareggi e seus comandados, entre eles Dino Zoff, Facchetti, Domenghini, Mazzola e De Sisti.

Riva voava na qualificação europeia para a Copa do Mundo de 70. A Itália apresentava uma defesa sólida com Albertosi no gol e Burgnich e Facchetti à sua frente. O sistema defensivo era prioridade da seleção de Valcareggi. Era defender e contra-atacar rapidamente. Já na Copa do Mundo, Riva, atacante do Cagliari, começava a se tornar apático nas partidas, enquanto Gianni Rivera, o Golden Boy, ficava no banco por problemas disciplinares (o milanista quase foi cortado da delegação dias antes do começo do Mundial). Riva foi desencantar com uma doppietta nas quartas-de-final ao lado de Rivera, que também marcou.

A participação italiana na Copa do Mundo, no entanto, ficou marcada por polêmicas que envolveram escolhas feitas por Valcareggi. O treinador fazia um rodízio constante entre Mazzola e Rivera: os dois não jogavam juntos de maneira alguma e, costumeiramente, cada um jogava um dos tempos de uma partida. O Golden Boy salvou a Itália na semifinal contra a Alemanha, mas, na final contra o Brasil, que a Itália perdia sumariamente, Valcareggi colocou o jovem do Milan em campo faltando apenas seis minutos para o término da partida no lugar de Boninsegna.

O técnico foi muito criticado ao chegar a Roma, mas já preparava sua equipe para a próxima Copa. O primeiro movimento tinha acontecido antes mesmo do Mundial, quando Enzo Bearzot foi chamado para treinar a seleção sub-23 em 1969, pensando no futuro. Se na Euro 1972 a Itália caiu nas quartas para a Bélgica, a qualificação e os amistosos pré-Copa de 1974 foram ótimos, com direito a vitória sobre a Inglaterra, no Wembley. Alf Ramsey, técnico do selecionado inglês, até disse que os quatro principais jogadores italianos eram “Rivera, Rivera, Rivera e Rivera.” E foi ele o camisa 10, apesar da má condição física, no Mundial de 74.

A base da Copa anterior foi mantida, mas nem mesmo o novo 9, o ídolo laziale Chinaglia ajudou a Itália a passar da primeira fase. Assim como Fabbri, Valcareggi sucumbiu à eliminação precoce. O treinador deu uma pausa na carreira até voltar ao banco de reservas do Verona. Foram três boas temporadas, principalmente a primeira, quando conseguiu o vice-campeonato da Coppa Italia. Valcareggi ainda passou pela Roma antes de voltar à Squadra Azzurra, agora como treinador da equipe B. O treinador também dirigiu a Fiorentina em 1984-85 antes de se aposentar e se tornar comentarista esportivo.

O técnico campeão europeu de 68 faleceu em 2005.

Ferruccio Valcareggi
Nascimento: 12 de fevereiro de 1919, em Trieste
Morte: 2 de novembro de 2005, em Florença
Posição: atacante
Clubes como jogador: Triestina (1937-40), Fiorentina (1940-43 e 1947-48), Milan (1944), Bologna (1944-47), Vicenza (1948-49), Lucchese (1949-51), Brescia (1951-52), Piombino (1952-54)
Clubes como treinador: Piombino (1952-54), Prato (1954-59), Atalanta (1959-62 e 1964-65), Fiorentina (1962-64), seleção italiana (1966-74), Verona (1975-78), Roma (1978-79), seleção italiana B (1979-84), Fiorentina (1984-85)
Títulos como treinador: Campeonato Europeu (1968)

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