Liga dos Campeões

5-2-Sem fantasia

LinkSem mágica: esquema ultra ofensivo de Leonardo não traz fantasia, apenas gols sofridos à rodo e dores de cabeça para a comunidade interista (Reuters)

Desde que começou na carreira de treinador, Leonardo põe em campo times com clara vocação ofensiva, em um módulo tático chamado por ele de “4-2-fantasia”. Seu Milan teve e sua Inter tem como grande qualidade um ataque forte, com facilidade de marcar gols. Na segunda experiência do brasileiro como técnico de um clube de futebol, o grande problema vivido pelos rossoneri continua se apresentando aos interistas como um fantasma que toma cada vez mais corpo.

A falta de equilíbrio no esquema tático é evidente e leva a Inter a sofrer muitos – e bobos – gols. No vexame contra o Schalke 04, a Inter voltou ao 4-3-1-2, mas esta faceta se apresentou com força máxima e se somou às trapalhadas de Chivu e a um cansaço físico e psicológico gigantescos. O favoritismo absoluto se transformou, em 90 minutos, a uma ínfima chance de seguir adiante na Liga dos Campeões.

Nos 19 jogos nos quais Leonardo dirigiu a Inter, a equipe sofreu 29 gols, média de aproximadamente 1,53 gol por partida. Na segunda temporada sob o comando de José Mourinho, a média foi de menos de um gol sofrido a cada 90 minutos: apenas 0,79. O ataque da equipe de Leonardo é levemente melhor, em números: 2,05 gols a cada partida, contra 1,71 do time do técnico de Setúbal. Na média, o saldo da equipe de Mourinho é melhor em cerca de 50%, apenas comprovando em números a maior solidez da equipe que garantiu a Tríplice Coroa.

Além da diferença numérica, as duas equipes tem uma diferença tática fundamental: no 4-2-3-1 mouriniano, Eto’o, Sneijder e Pandev, que compunham a linha de três logo atrás de Milito, tinham a obrigação de voltar maraca marcar – sobretudo os pontas, que equilibravam o time ao acompanharem os laterais adversários, ajudando volantes e laterais. Sob Leonardo, não existe a obrigação de voltar para ajudar o time atrás, deixando espaços de sobra no meio-campo e uma defesa absolutamente exposta. Contra os alemães, a Inter relembrou a seus torcedores uma época nada feliz, em que o time dava vexames históricos na Liga dos Campeões e ia campo com profissionais de nível duvidoso, como Georgatos, Gresko, Okan, Colonnese, Bréchet e tantos outros.

Quase afônico, Leonardo atribuiu o apagão interista ao cansaço acumulado nos últimos três meses, nos quais o time deu o máximo de si para alcançar o Milan na Serie A. Meia verdade. O problema tático que abordamos é nítido, ainda que o cansaço físico certamente exista, mas dificilmente atinja todos os jogadores, levando em conta que Júlio César, Maicon, Cambiasso e Sneijder, por exemplo, tiveram momentos de descanso ao longo da temporada, enquanto se recuperavam de lesões.

O golpe psicológico após a derrota na partida vital contra o Milan certamente deve ser considerado, sobretudo quando se pensa que a equipe de Leonardo costuma jogar melhor no segundo tempo e simplesmente desabou após o 3 a 2 marcado por Raúl e entrou em queda livre após o 4 a 2 e a expulsão de Chivu.

De qualquer forma, os aspectos táticos tem pesado em qualquer crítica feita a Leonardo, reconhecido pelo menos como um técnico motivador e que tem conseguido a confiança dos jogadores. Em todo o mundo e, como não poderia deixar de ser, também na Itália, fala-se que ele não deveria ser treinador de futebol e que deveria deixar a profissão, por não saber colocar um time postado taticamente para defender. Michele Criscitiello, editor de Tuttomercatoweb, já disparou pesadamente contra uma falta de senso tático de Leonardo. Jornalistas de vários outros meios de comunicação também já falaram sobre isso e recomendam que a Inter não confirme Leo para a próxima temporada.

As dúvidas também se abatem sobre o próprio treinador. Leonardo, que sempre viu com estranheza seu “pulo” de dirigente a técnico, declarou, nesta semana, que não tinha certeza de sua permanência no clube após o término da temporada. À época de seu acerto com a sociedade nerazzurra, chegou a ser especulado que o brasileiro ficaria no comando do time apenas até o fim da temporada e que, depois, daria lugar a novo treinador – ou a um retorno de Mourinho – e assumiria um cargo na direção da Beneamata.

Por outro lado, para Leonardo, valerá a pena deixar a carreira de técnico logo agora – com ou sem títulos ao fim da temporada, mas com um bom trabalho de recuperação, caso a Inter continua no ritmo -, depois de ter trocado um lado pelo outro de Milão? Valerá a pena ter se exposto tanto e ter virado Judas?

Antes de se discutir este tipo de coisa, o que deve acontecer no fim da temporada, a Inter necessita se reconstruir mais uma vez. Precisando de um milagre em Gelsenkirchen para bater os azuis-reais por quatro gols de diferença, a Inter precisa se mirar em um conceito que permeia a história e o hino do clube. A “louca” Inter que deu origem ao hino do clube, Pazza Inter, tem no seu DNA a “habilidade” de fazer partidas absolutamente insanas e ruins, como a de ontem, e outras insanas e positivas, como a que terminou em 5 a 3 contra a Roma, em fevereiro.

Nos aspectos bons e ruins, a Inter tem provado nos últimos anos que nada é impossível para ela, lembrando de frase proferida pelo narrador Roberto Scarpini, do Inter Channel, quando os nerazzurri viraram desvantagem de 2 a 0 contra a Sampdoria em menos de cinco minutos. Na Veltins Arena, terá de jogar muito para provar isso. Para sua torcida, obviamente descrente quanto a uma classificação, deve ao menos um jogo disputado com honra, para sair da competição com a dignidade que uma atual campeã merece.

Notas
Júlio César, 5,5 – voltou a pé para casa de novo, mas não por culpa sua: fez sua parte nos lances dos dois primeiros gols e também tentou evitar um vexame ainda pior.
Maicon, 4 – marcou mal, perdeu o confronto para Baumjohann e só subiu ao ataque no primeiro tempo. Onde está o Maicon das últimas temporadas?
Ranocchia, 4 – sem cobertura, mostrou seu grande ponto fraco: a falta de velocidade. Sucumbiu psiologicamente junto com o time e marcou um gol contra simplório.
Chivu, 2,5 – repetiu a dose do dérbi: lentidão, mal posicionamento e, como cereja do bolo, a expulsão – o segundo cartão foi rigoroso, mas evitável.
Córdoba (18′ st), 5 – depois que entrou, ainda sofreu com Edu, mas foi mais seguro que Chivu.
Zanetti, 5 – não conseguiu conter os avanços de Farfán e, pasmem, parece cansado.
Stankovic, 6 – além do golaço, combatia no meio-campo e ajudava Sneijder. No entanto, não marcou Papadopoulos no primeiro gol do Schalke.
Thiago Motta, 5 – não conseguiu marcar Jurado e contribuiu para a desorganização tática do time (Nagatomo, 31′ st, sem nota).
Cambiasso, 4,5 – fez mais uma partida abaixo de sua média quando atua pela esquerda do meio-campo e nem a assistência para Milito o absolve. Rende mais centralizado, no vértice baixo do losango.
Kharja (24′ pt), 4,5 – entrou no lugar de Stankovic, mas ninguém viu.
Sneijder, 6 – quase todas as jogadas construídas pela Inter passaram por seus pés. No entanto, ficou muito sozinho na função.
Eto’o, 4,5 – omisso, não chamou a responsabilidade, assim como no dérbi. Não foi o Eto’o que se costuma ver na LC.
Milito, 7 – voltou bem ao time, participou da jogada do primeiro gol e marcou o segundo. Se movimentou com desenvoltura, mas perdeu chance que poderia ter mudado o jogo.
Leonardo, 4 – novamente, persistiu nos mesmos erros da ida contra o Bayern e no dérbi de Milão: pouco reativo, demorou a fazer substituições e não fez as corretas. Além disso, a desorganização tática e a falta de uma defesa respeitável demonstram sua inexperiência ou, dizem alguns, sua inabilidade.

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