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No Milan, Frank Rijkaard se consolidou como um dos jogadores mais inteligentes do futebol

Para que serve um tripé? Para prover sustentação e equilíbrio, certo? Foi com um tripé holandês que o Milan encantou o mundo a partir do final da década de 1980. O trio Rijkaard, Gullit e van Basten tornou-se sinônimo de espetáculo. Tanto no Milan quanto na seleção holandesa, a parceria não se contentava em vencer. Dar show também era preciso. Rijkaard, um verdadeiro apaixonado pela bola, viveu o que de melhor o esporte pode proporcionar e retribuiu aos fãs com a mesma intensidade.

Filho de uma holandesa e um surinamês que tentou a carreira de jogador na antiga colônia holandesa, Franklin Edmundo Rijkaard nasceu no ano de 1962, em Amsterdã. Sendo herdeiro de um frustrado aspirante a atleta, o jovem recebeu de seu pai a missão de ser aquilo que ele não conseguira.

Já aos sete anos, começou a jogar por equipes regionais e de pouca expressão, como o Buitenveldert e o DWS. Durante sua juventude, seguia destacando-se entre os atletas de mesma idade, principalmente pela versatilidade e técnica. Aos treze, ingressou nas categorias inferiores do gigante Ajax, onde ficou até os dezessete, quando recebeu do técnico Leo Beenhakker a chance de integrar o plantel principal da equipe. Era o fim das peladas descompromissadas disputadas nas ruas da zona oeste de Amsterdã junto aos amigos – entre eles, estava ninguém menos que o futuro astro Gullit.

Em 1980, debutou como profissional e, ao decorrer da temporada, deixou claro que não se tratava de um jogador comum. Já em seu primeiro jogo marcou um gol na vitória por 4 a 2 sobre o Go Ahead Eagles. Rapidamente tornou-se titular da equipe e fez parte de um elenco supercampeão. Conheceu Marco van Basten, de quem seria companheiro por longos anos, e com ele, em sete temporadas de Ajax, conquistou sete títulos. Entre eles, três campeonatos holandeses.

No meio desta caminhada, mais precisamente em 1985, o clube apontou Johan Cruyff, que até 1983 era companheiro de elenco de Rijkaard, como seu comandante. Sob a batuta do mágico camisa 14, Rijkaard acrescentou ainda mais versatilidade ao seu estilo de jogo. Como um legítimo discípulo do lendário Rinus Michels, Cruyff implementou um futebol extremamente dinâmico na equipe e isso fez com que Rijkaard, que até então jogava como zagueiro ou mais preso como segundo homem de meio-campo, transitasse mais pelo gramado. Tais mudanças não agradaram o atleta, que achava estar perdendo sua identidade. Após discutir com o treinador durante o treino, o jogador decidiu procurar por novos ares.

Com os braços cansados de tanto levantar troféus em seu país, Rijkaard assinou com o Sporting de Portugal em outubro de 1987. Entretanto, o Sporting não depositou o dinheiro referente a negociação e o meia ficou sem jogar até fevereiro do ano seguinte, quando de fato tornou-se jogador da equipe aliverde. Como não chegou a tempo de ser inscrito na Federação Portuguesa de Futebol, teve de ser emprestado para chegar em forma na Eurocopa. O destino foi o Real Zaragoza, da Espanha.

Atuando praticamente sozinho (praticamente porque o artilheiro uruguaio Rubén Sosa era seu companheiro), Rijkaard atuou o restante da temporada de forma discreta, assim como sua equipe, que terminou o campeonato nacional na 11ª posição. Antes de viajar à Alemanha Ocidental para defender a Holanda na Eurocopa, o craque acertou sua transferência para o Milan, aonde iria voltar a desfilar seu futebol em uma equipe de sua altura.

Vestindo a camisa 17, Rijkaard fez belíssimas exibições e foi titular em todos as partidas da Oranje. A estréia não foi muito animadora. A equipe foi derrotada por 1 a 0 pela União Soviética e todos os fantasmas sobre a enigmática seleção voltaram à tona. Será que o time que sempre encantava a todos nunca seria campeão? No segundo jogo, contra a Inglaterra, era vencer ou vencer. Um endiabrado van Basten marcou três gols e colocou a seleção novamente no páreo. Contra Irlanda e a dona da casa Alemanha Ocidental, mais dois triunfos. A seleção chegou então à final. O adversário foi a mesma União Soviética da estréia. Mas desta vez, Rijkaard e seus companheiros venceram por 2 a 0 e, com isso, deram a seu país o primeiro título do torneio.

Com a alma lavada por dar a alegria a uma nação que tinha o grito de campeão entalada na garganta desde 1974, o meia tinha motivação extra para desfilar sua arte nos campos italianos. Logo ao desembarcar na Bota, conquistou seu primeiro título – e com direito a um gol na vitória por 3 a 1 sobre a Sampdoria na Suppercopa Italiana de 1988. A conquista foi apenas para esquentar o motor da máquina de ganhar títulos que seria o Milan nos anos consecutivos, com o técnico Arrigo Sacchi, que o transformou de vez em meio-campista central, com grande sucesso.

Ao lado dos companheiros van Basten e Gullit, Rijkaard, no centro, segura o troféu de uma das três Ligas dos Campeões conquistadas por ele como jogador (The Offside)

Em 1989 começou a avalanche: na Copa dos Campeões, a fórmula Rijkaard, Gullit e Van Basten era sinônimo de arte. Na partida de volta das semifinais, contra o Real Madrid, em um San Siro com mais de 73 mil espectadores, o time atropelou os espanhóis com um sonoro 5 a 0 – Rijkaard marcou o segundo. Na final contra o Steaua Bucareste, disputada no Camp Nou, outro passeio: 4 a 0. Na Supercopa Europeia, 2 a 1 no placar agregado sobre o Barcelona. No Mundial Interclubes, 1 a 0 sobre o Atlético Nacional, da Colômbia. Rijkaard ficou na terceira colocação da eleição da Bola de Ouro da revista France Football.

O jogador alcançava o auge de sua carreira, uma Tríplice Coroa nas competições internacionais. O time jogava por música e tudo dava certo. Era difícil imaginar que o ritmo fosse mantido, mas aconteceu e, para Rijkaard, com um gosto ainda mais especial.

No ano seguinte, o holandês ajudou o Milan a levantar mais um título com grandes exibições e um gol marcado na final da Liga dos Campeões, contra o Benfica. No segundo jogo da Supercopa Europeia, mais um gol do camisa cinco, na vitória sobre a Sampdoria por 2 a 0. Na final do Mundial Interclubes, mais dois gols na vitória sobre o Olimpia, do Paraguai. Rijkaard encerrou a temporada com chave de ouro e realizou a façanha de marcar gols em todas as finais disputadas.

Ninguém parou o holandês na final europeia diante do Benfica (Getty Images)

A esta altura, faltava apenas um troféu pelo Diavolo: o scudetto. Em 1991, Fabio Capello assumiu a equipe no lugar do vitorioso Sacchi. Mantendo a base da equipe, e com o reforço de Albertini, a equipe fazia gols a atacado, tinha uma defesa extremamente sólida e foi campeã com todos os méritos. Na última rodada, com o título já garantido, o clube não quis saber de festejos e goleou o Foggia de Zdenek Zeman, fora de casa, por 8 a 2. Na Serie A seguinte, mesmo com os três astros holandeses tendo passado por lesões, o clube sagrou-se bicampeão. Rijkaard participou de 22 dos 34 jogos e anotou dois gols. Novamente, a forte linha de frente fez a diferença para os rossoneri.

Após cinco maravilhosos anos defendendo o clube, estava na hora de voltar para casa, o Ajax. Assim que chegou, adicionou mais um Campeonato Holandês a seu currículo. A nova geração do clube tinha jovens de potencial inestimável, como os irmãos De Boer, Davids, Overmars e Kluivert, além de van der Sar, e Rijkaard era o toque de experiência que faltava para o time decolar. Voltando a atuar como zagueiro, o astro comandava a retaguarda da equipe de Louis van Gaal, que conseguia fazer a equipe jogar de forma leve e bastante técnica.

Desta forma, a equipe conquistou outro campeonato nacional na sequência e, na Copa dos Campeões foi batendo os adversários um a um, inclusive o Milan, na fase de grupos. O futebol, assim como a vida, sempre reserva surpresas fascinantes para os momentos em que não esperamos. Rijkaard iria enfrentar na final da competição continental novamente o Milan, o clube com o qual havia vivenciado suas maiores felicidades.

Em um jogo duríssimo, em que Rijkaard marcou Marco Simone de forma impecável, o grandalhão Kluivert anotou um tento no fim da segunda etapa e deu ao astro seu terceiro e último troféu da Liga dos Campeões. O título culminaria ainda na conquista do Mundial Interclubes, sobre o Grêmio, mas Rijkaard não estava mais no plantel. O atleta encerrou a carreira de jogador pouco antes do time viajar ao Japão.

Pouco tempo depois, aceitou o convite de Guus Hiddink para fazer parte da comissão técnica da seleção holandesa, cargo que ocupou até a eliminação da equipe da Copa do Mundo de 1998, quando assumiu como treinador principal da seleção. Na Eurocopa 2000, o treinador viu seus comandados caírem nas semifinais para a Itália, na disputa de penalidades. Em 2001, tentou livrar o Sparta Rotterdam do descenso, mas não conseguiu.

Em 2003, um salto em sua nova carreira. Do modesto Sparta para o gigante Barcelona. No clube espanhol conquistou dois Campeonatos Espanhóis, duas Copas do Rei e sua quarta Liga dos Campeões. Foi também o responsável por introduzir Lionel Messi na equipe princpal, embora suas qualidades como treinador de futebol sejam questionadas até hoje. Ficou a frente dos blaugrana até 2008 e, um ano depois, assumiu o Galatasaray, da Turquia. Atualmente encontra-se sem clube e seu nome é especulado para comandar Chelsea ou Sporting na próxima temporada.

Franklin Edmundo Rijkaard
Nascimento: 30 de setembro de 1962, em Amsterdã, Holanda
Posição: Zagueiro e meio-campista
Clubes: Ajax (1980-87), Sporting (1987-88), Zaragoza (1988), Milan (1988-93), Ajax (1993-95)
Títulos como jogador: 5 Campeonatos Holandeses (1982, 1983, 1985, 1994, 1995), 3 Copas da Holanda (1983, 1986, 1987), 3 Supercopas holandesas (1993, 1994, 1995), 2 Campeonatos Italianos (1992, 1993), 2 Supercoppa italianas (1988, 1992), 1 Recopa Europeia (1987), 3 Liga dos Campeões da Europa (1989, 1990, 1995), 3 Supercopas Europeias (1989, 1990, 1995) 2 Mundiais Interclubes (1989, 1990), 1 Eurocopa (1988)
Títulos como treinador: 2 Campeonatos Espanhóis (2005, 2006), 2 Copas do Rei (2005, 2006), 1 Liga dos Campeões (2006)
Seleção holandesa: 73 partidas e 10 gols

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