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Zbigniew Boniek, o belo da noite

Em entrevista após o fim da carreira, Boniek disse: “Não me considero um jogador especial. Não tenho uma técnica particular. Sou apenas um jogador útil”. Juventinos e romanistas discordam da humildade do atacante polonês. Considerado por muitos o maior ídolo da história do futebol de seu país, Zbigniew Boniek desfilou pelos gramados italianos de 1982 a 1988, conquistando fãs em Roma e Turim. Nesses seis anos, conquistou um scudetto, uma Liga dos Campeões, duas Copas da Itália, uma Supercopa da Uefa e uma Recopa.

Antes disso, já se tornara ídolo na Polônia, atuando pelo Widzew Łódź – um dos maiores clubes do país, e mostrara ao mundo do que era capaz: sob seu comando, a seleção pouco tradicional viveu seus melhores momentos em Copas do Mundo, chegando às quartas-de-final em 78, ao terceiro lugar em 82 e às oitavas-de-final em 86. Na Espanha, em 82, viveu seu auge representando o país. Apesar da derrota para a futura campeã Itália, nas semifinais, na disputa pelo terceiro lugar, desbancou a badalada França de seu amigo Platini.

As boas atuações na Copa de 1982 chamaram a atenção de diversos clubes do mundo. Ainda durante o Mundial, a diretoria da Roma teria acertado com Boniek e contava com os gols do jogador já para a temporada seguinte. “Um problema no pagamento da minha rescisão, no entanto, impediu o acordo com a Roma e então assinei com a Juventus”, revelou o jogador anos mais tarde. Boniek, que foi o primeiro jogador polonês a atuar no futebol italiano, já havia chamado a atenção da Juve alguns anos antes, quando o Widzew Łódź eliminou a Velha Senhora na Copa Uefa e o próprio Zibi cobrou o pênalti decisivo.

Em Turim, chegou junto com Platini, maior contratação do mercado, para jogar ao lado dos campeões do mundo Zoff, Gentile, Cabrini, Scirea, Causio, Tardelli e Rossi – alguns dos quais já haviam sido seus companheiros em um amistoso em que a seleção da Argentina enfrentava um combinado do resto do mundo, comandado por Enzo Bearzot, em 1979.

Em sua temporada de estreia, porém, o estrelado time de Trapattoni comemorou apenas o título da Coppa Italia. Na Serie A, a Roma de Falcão conquistava seu segundo scudetto, deixando o vice para a Juve, em disputa acirrada. Na Copa dos Campeões, Boniek ajudou a Juve a passar pelo seu antigo clube polonês nas semifinais, mas a equipe de Turim também ficou com o vice, após ser derrotada pelo Hamburgo, com um gol de Félix Magath logo no início do jogo.

Zibi, estrela da Juventus… (Il Giornale)

Algo que os torcedores logo notaram no primeiro ano de Boniek na Itália foi sua mudança de estilo. Enquanto na Polônia ele era artilheiro e encerrava a temporada com bom número de gols, na Itália nunca se destacou por isso. No ano em que mais marcou na Serie A, fez sete gols em 29 partidas, em sua primeira temporada pela Roma. Até por isso, o atacante ficou marcado pela dedicação ao time e ajuda aos companheiros.

Mas isso não significa que Boniek não era decisivo. Por causa de suas grandes exibições nos jogos de copas, que usualmente aconteciam durante a noite, o polonês recebeu o apelido de Bello di notte – Belo da noite. Logo em sua primeira decisão com a camisa bianconera, na Recopa de 1983-84, contra o Porto, marcou o gol do título juventino, no mesmo ano em que ganharia sua única Serie A.

Na final da Supercopa da Uefa de 1984, disputada em janeiro de 1985, também anotou os gols da taça: uma dopietta contra o Liverpool. Meses mais tarde, também contra o Liverpool, seria disputada a final da Copa dos Campeões, no dia da Tragédia de Heysel, que feriu mais de 600 e matou 39 torcedores, por causa do hooliganismo inglês, que fez os clubes do país ficarem banidos de competições europeias por cinco anos.

Por medo de que a situação piorasse em caso de adiamento do jogo, a partida aconteceu. Em campo, Boniek voltou a mostrar que tinha estrela: sofreu falta fora da área, que o juiz considerou pênalti, e Platini a converteu em título bianconero. Por causa da tragédia, o polonês declarou nunca ter considerado a taça sua e doou sua premiação, de cerca de 100 milhões de liras, às famílias das vítimas da tragédia. Ali, estava encerrada a passagem do “Belo da noite” com a camisa da Juve. Em julho de 1985, ele se transferiu para a capital, onde defendeu as cores da Roma por três outras temporadas.

Em Roma, era tão querido e popular que não era raro ler ou ouvir a seguinte frase: “dois poloneses mandam na cidade eterna: João Paulo II e Boniek”. Parafraseando o próprio, sua primeira temporada por lá foi uma das mais brilhantes da carreira. O time comandado por Sven-Göran Eriksson fez grande Serie A, quase ultrapassando a Juventus na tabela mesmo após estar nove pontos atrás. Ainda conquistou a Coppa Italia daquele ano, único troféu que levantou pela Roma. Boniek era um dos principais jogadores do time, tendo jogado também como meio-campista e até como líbero. Foi pelo clube capitolino que encerrou sua carreira dentro dos campos.

… e craque da Roma (Gazzetta Giallorossa)

A partir da temporada 1990-91, tentou se aventurar como técnico, mas não alcançou bons resultados por Lecce, Bari e Sambenedettese. No Avellino, em 1995, chegou a subir para a Serie B, mas acabou demitido no início da temporada seguinte. Depois, Boniek tornou-se presidente da Federação Polonesa de Futebol e chegou a dirigir a seleção, com maus resultados, após a Copa de 2002, e decidiu encerrar também a experiência como treinador, em dezembro daquele ano.

Hoje, é comentarista do programa Domenica Sportiva, da Rai 2, e participa frequentemente de programas de tv ligados à torcida romanista. No final de 2010, Boniek foi inserido em uma lista feita pela Juventus com os 50 principais jogadores de sua história mas, como criticava constantemente a diretoria nos últimos anos, as torcidas organizadas juventinas, enfurecidas, pediram a revogação do título. Em nova votação aberta, Zibi perdeu sua estrela, que acabou ficando com Edgar Davids. Até hoje, Boniek vive em Roma e, segundo dizem na Itália, guarda mais no coração a equipe giallorossa do que a bianconera.

Zbigniew Boniek
Nascimento: 3 de março de 1956, em Bydgoszcz, Polônia
Posição: Atacante
Clubes como jogador: Widzew Łódź (1975-82), Juventus (1982-85), Roma (1985-88)
Títulos: Serie A (1983-84), 2 Coppa Italia (1982-83 e 1985-86), 2 Campeonatos Poloneses (1980-81, 1981-82), Copa dos Campeões (1984-85), Supercopa da Uefa (1984) e Recopa Europeia (1983-84)
Seleção polonesa: 80 jogos e 24 gols

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