Técnicos

Vittorio Pozzo, o único treinador que ganhou duas Copas do Mundo

Em uma época de tantas guerras na Europa Ocidental, Vittorio Pozzo implantou o “militarismo” na seleção italiana. Ele também inovou o sistema tático do futebol italiano nos anos 30 e se tornou o único treinador que venceu a Copa do Mundo duas vezes.

Os pais de um ainda garoto Pozzo queriam que ele se tornasse advogado ou médico, mas desde cedo Vittorio pensava somente no esporte. Praticou atletismo até que um amigo, Giovanni Goccione, zagueiro da Juventus nos anos 20, o levou para assistir uma partida de futebol. Ele ficou encantado. Quando foi à Suíça aprender línguas, ingressou no Grasshopper. Depois de estudar na Inglaterra e França, retornou ao seu país e, em 1906, ajudou a fundar o Torino. Em uma época de semiamadorismo no futebol, atuou como jogador por cinco anos até se tornar técnico da equipe, aos 26 anos.

Pozzo foi chamado pela primeira vez para dirigir a seleção olímpica italiana, tendo aberto mão de receber pelo trabalho. A Itália estreava em competições internacionais, mas foi eliminada nos Jogos de Estocolmo e nas quartas de final da Olimpíada de Paris, em 1924, quando o treinador já realizava seu segundo trabalho pela seleção. Deveras desmotivado após um curto período de trabalho no Milan, esteve focado apenas no emprego na multinacional Pirelli e como jornalista do jornal La Stampa, de Turim. Convidado por Leandro Arpiatti, presidente da Federação, aceitou retornar à Squadra Azzurra em 1929.

Ele começou a revolucionar o modo de empregar as táticas em suas equipes. Ao ver Charlie Roberts, do Manchester United, jogando, Pozzo criou o Metodo – ao mesmo momento em que outros treinadores ao redor do mundo, como Hugo Meisl, da Áustria, e Herbert Chapman, do Arsenal, testavam formações semelhantes. Seu esquema consistia em montar os times com dois volantes e um armador. Ele desmontou a conhecida “pirâmide invertida” (2-3-5) para introduzir o WW (2-3-2-3). Segundo o treinador, os jogadores italianos tinham as características perfeitas para serem encaixados nesta tática, que privilegiava um meio-campo compacto, que protegia a defesa e podia, ao mesmo tempo, armar contra-ataques velozes e fulminantes. Vittorio Pozzo empregou também a concentração pré-jogo e um sistema de trabalho rígido, em que não admitia, entre outros, fumantes ou atletas-problemas.

Semelhante inovação nunca antes havia ocorrido no futebol italiano. Pozzo, antigo tenente das tropas de montanha do exército italiano na Primeira Guerra Mundial levava o conhecimento militar para o campo, como mostra sua tática, que visava uma superioridade numérica no centro do campo. Mesmo assim, o treinador afirmava que ele tinha como melhor característica a psicologia do que a tática. A disciplina passada para os jogadores ajudaram a Nazionale a vencer pela primeira vez na história a Áustria de Matthias Sindelar (melhor atleta do país no século XX) por 2 a 1, em 1931.

A Itália se empenhou bastante para sediar o Mundial de 1934 e fazer uma propaganda positiva do governo fascista de Benito Mussolini, que Pozzo nunca declarou defender ou se opor. Além do título, a vitória na Copa do Mundo era a supremacia da ideologia do Duce e do povo italiano sobre os demais países. Dizem que o Vittorio Pozzo preparava os jogadores contando histórias de guerra e os fazia darem longas corridas em volta do gramado, nos treinamentos, assobiando a canção dos soldados italianos na I Guerra Mundial na batalha de Piave, quando resistiam ao avanço das tropas alemãs e austro-húngaras.

Guiada por Giuseppe Meazza, Giovanni Ferrari e Angelo Schiavio, a Itália ganhou a Copa em casa. O futebol apresentado foi muito forte. Um dos trunfos do Velho Maestro foi a polêmica convocação de oriundi, estrangeiros com ascendência italiana, como o brasileiro Filó, conhecido como Guarisi na Itália, e os argentinos vice-campeões de 1930 Demaría e Monti – todos atuavam no futebol italiano. A polêmica decisão de Pozzo, por questões políticas, recebeu uma dura resposta do treinador. Referindo-se ao fato de que todos eles serviam ao exército fascista, foi taxtivo: “Se podem morrer pela Itália, também podem jogar pela seleção”.

A partida mais famosa daquela Copa do Mundo foi contra a Espanha de Ricardo Zamora, vencida após um jogo extra nas quartas-de-final. Na decisão, a Squadra Azzurra derrotou, por 2 a 1, a República Checa do excelente goleiro Frantisek Planicka e o artilheiro Oldrich Nejedly, muito elogiados pelo comandante no artigo que escreveu para o La Stampa no dia seguinte à final. Dois anos depois, nos famosos Jogos Olímpicos de Berlim, que tiveram o corredor afro-americano Jesse Owens vencendo provas frente a Adolf Hitler, a Itália de Pozzo levava o único ouro olímpico do futebol italiano para casa.

A Itália chegou para a Copa do Mundo da França, em 1938, como campeã mundial e olímpica e, obviamente, favorita ao título. Reformulada por Pozzo, a seleção teve apenas Giuseppe Meazza e Giovanni Ferrari mantidos do título quatro anos antes – ambos como titulares, jogando como mezz’ala. Muitos italianos que moravam na França – porque fugiram do regime – foram ao estádio vaiar a própria equipe. Por ordem de Mussolini, os atletas deveriam fazer a saudação fascista ao se apresentarem para a partida. Contra a Noruega, na estreia, alguns titubearam, mas Pozzo “puxou” a saudação.

Para este Mundial, o Velho Maestro recuou o já experiente Meazza para o meio-campo com o intuito que ele municiasse o bomber Silvio Piola e o ponta Gino Colaussi. Os atacantes foram os artilheiros da equipe na competição com cinco e quatro gols cada, respectivamente. Aliás, ambos marcaram duas vezes na final contra a Hungria. Pozzo é, até hoje, o único treinador a ter vencido por duas vezes uma Copa do Mundo, seja como a Itália ou com qualquer outra seleção.

Pressionado pela Federação Italiana após o fim do regime fascista por ser identificado demais com um período nefasto da história italiana, Vittorio Pozzo pediu demissão do cargo de treinador após a derrota para a Dinamarca nas Olimpíadas de Londres em 1948. Ao todo, o técnico piemontês dirigiu a seleção por 19 anos, o que significam 6927 dias e 97 partidas. Nenhum outro treinador passou tanto tempo na Nazionale. Pozzo também tem o recorde de aproveitamento: em sua carreira em azzurro, foram 65 vitórias, 17 empates e 15 derrotas, resultando 65,97% de aproveitamento final.

Depois de deixar a profissão, Pozzo voltou a atuar apenas como jornalista e chegou a cobrir o Mundial de 1950, no Brasil. Teve também uma grande dor, ao participar do reconhecimento dos corpos dos jogadores do Grande Torino, seus amigos e discípulos, mortos no desastre de Superga. Por outro lado, o técnico deixou um grande legado ao futebol italiano: como conselheiro técnico, indicado pelo dirigente esportivo Luigi Ridolfi Vay da Verrazzano, participou da fundação do Centro Técnico Federal de Coverciano, a escola para treinadores da Federação Italiana de Futebol (FIGC) e atual centro de treinamentos da seleção italiana.

A identificação de Pozzo com a época do regime fascista também impediu que o estádio Delle Alpi de Turim, construído para a Copa de 1990, recebesse seu nome. Isso, no entanto, não importou para que o estádio da pequena Biellese, da sexta divisão nacional, recebesse a homenagem em 2008.

Vittorio Pozzo morreu em dezembro de 1968, aos 82 anos de idade.

Vittorio Pozzo
Nascimento: 2 de março de 1886, em Turim
Falecimento: 21 de dezembro de 1968, em Turim
Clubes como jogador: Grasshoppers (1905-06) e Torino (1906-11)
Carreira como técnico: Itália (1912, 1924 e 1929-1948), Torino (1912-22) e Milan (1924-25)
Títulos como técnico: 2 Copa Internacional (1927-30 e 1933-35), 2 Copas do Mundo (1934 e 1938), Ouro olímpico (1936)

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