Brasileiros no calcio

Do Ascoli ao Torino, Casagrande construiu carreira de respeito

Um artilheiro rock’n’roll. Com seu estilo de roqueiro, muitas polêmicas fora dos gramados e um faro de gol apuradíssimo dentro deles, Walter Casagrande Júnior marcou época no futebol. Se não esteve entre os melhores do mundo, Casão – como foi apelidado pela torcida do Corinthians – quebrou paradigmas ao mostrar habilidade fora de comum para seus 1,91m e ainda colecionou títulos pelos clubes que passou, mesmo sempre envolvido em confusões e problemas fora dos gramados.

Destaque das categorias de base do Corinthians, Casagrande foi alçado para os profissionais ainda aos 17 anos, em 1980. Sua permanência no Alvinegro, porém, não seria muito longa no começo de sua carreira. O atacante mostraria, em 1981, afinidade com confusões. Ao se desentender com o lendário técnico Oswaldo Brandão o jovem foi enviado para o Caldense, pequena equipe de Minas Gerais, na qual permaneceu durante um ano, tempo considerado ideal pelo clube paulista para o amadurecimento do jogador.

O amadurecimento necessário para que Casão estourasse foi visto logo de cara, em 1982, quando o atacante foi essencial para ao lado de Sócrates liderar o Corinthians na conquista do Paulista daquele ano, feito que ainda seria repetido em 1983. O período, porém, ficou marcado mais pela revolução feita por aquele grupo de jogadores que integravam o plantel do Timão do que pelos títulos em si. Com o Brasil na busca pelo final da ditadura, Casagrande foi, além de essencial na caminhada dos títulos, um dos líderes do movimento que ficou conhecido como Democracia Corinthiana.

E se foi nesse período que o atacante mostrou toda sua consciência ao utilizar o apelo do futebol para lutar pela democracia, foi também aquele no qual Casagrande era visto frequentemente na noite paulistana. O envolvimento do jogador com drogas era notícia constante na imprensa e mesmo com os títulos Casão acabou deixando o Corinthians mais uma vez por empréstimo, mais uma vez devido aos seus problemas extracampo. O destino da vez, porém, seria maior do que o do início de sua carreira e o jogador acabou sendo emprestado para o grande rival São Paulo.

No Tricolor, Casão teve bons momentos atuando em uma posição diferente da sua original. Pelo fato de o time paulista já contar com Careca para a função de matador, Casagrande foi realocado na meia-direita, atuando como um falso ponta-de-lança. Seu bom desempenho pelo São Paulo chamou novamente a atenção do Corinthians, que em 1985 o trouxe de volta para seu elenco. A passagem, porém, seria curta mais uma vez. Não tardou e o atacante foi vendido para o Porto, clube no qual alcançou talvez suas maiores glórias como jogador.

Já gabaritado pelas experiências nos times paulistas e pela participação como reserva na Copa do Mundo de 1986, Casagrande chegou à Europa credenciado para ser um dos destaques do time português. E apesar da ótima campanha do Porto naquela temporada de 1986-87, festejada pelo título da Copa dos Campeões da Europa, o atacante brasileiro não caiu nas graças da torcida. Suas sequenciais lesões e as já conhecidas noitadas fizeram com que o jogador ficasse sem o carinho dos fãs apesar dos títulos conquistados, forçando uma nova transferência.

Casagrande (de perfil) jogou a final da Copa Uefa (TorinoFC)

Foi com essa nova movimentação que Casão finalmente passou a ter estabilidade no futebol. Em 1987, Costantino Rozzi, então presidente do Ascoli, decidiu investir no brasileiro para tentar alavancar seu clube na Serie A. Os planos, porém, não foram tão bem sucedidos, com os bianconeri sempre brigando apenas contra o rebaixamento, terminando quase sempre o campeonato em posições intermediárias. A dedicação de Casagrande, porém, fez com que nem o rebaixamento para a Serie B em 1989-90 fosse suficiente para que a torcida desgostasse de si. Sua boa passagem pelo Ascoli, com três temporadas na primeira e mais uma na segunda divisão, e 38 gols no total, renderam boa fama ao jogador na Itália, garantindo uma transferência para um clube maior.

Com quatro anos de futebol italiano, Casagrande foi para o Torino em 1991 para viver seus melhores momentos na Itália. Em sua primeira temporada viu os granata, treinados por Emiliano Mondonico, obterem a terceira posição na Serie A, com ele marcando gols bastante importantes. Casão demorou para se acertar em Turim e passou por um jejum de gols. Porém, guardou o melhor para jogos importantes. Fez gols contra Sampdoria, Milan e, melhor ainda, marcou dois sobre a Juventus na vitória no dérbi local, em um dos últimos triunfos do time grená sobre a sua maior rival.

Casão também fez gols importantes no mata-mata da Copa Uefa, competição na qual o Toro chegou à final. Entre os gols mais importantes, destacam-se os decisivos contra AEK, Real Madrid e dois na partida de ida, em casa, no 2 a 2 contra o Ajax. Na volta, o 0 a 0 e os gols fora de casa deram o título aos holandeses.

Em seu segundo ano em Turim conseguiu seu primeiro título no Belpaese, a Coppa Italia. Já combalido por lesões, porém, perdeu espaço para outro cabeludo – o atacante Andrea Silenzi, recém-contratado – e preferiu voltar ao Brasil para iniciar seus últimos anos como profissional.

Sua volta aconteceu com uma transferência para o Flamengo, no qual ficou apenas um ano e não conquistou nada. Depois de passar em branco pelo Rubro-Negro, fez sua última passagem pelo Corinthians, passando posteriormente por Paulista de Jundiaí e São Francisco, pequeno clube pelo qual se aposentou. Após a aposentadoria continuou ligado com o futebol e com a noite. Até hoje é comentarista da TV Globo, tendo passado recentemente por sérios problemas de saúde causados por conta da dependência química.

Walter Casagrande Júnior
Nascimento: 15 de abril de 1963, em São Paulo, Brasil
Posição: atacante
Clubes como jogador: Corinthians (1980-81, 1982-83, 1985-86 e 1994), Caldense (1981), São Paulo (1984), Porto (1986-87), Ascoli (1987-1991), Torino (1991-1993), Flamengo (1993), Paulista de Jundiaí (1995) e São Francisco (1996)
Títulos: 2 Campeonatos Paulistas (1982, 1983), 1 Liga dos Campeões (1986-87) e 1 Coppa Italia (1993)
Seleção brasileira: 19 jogos e oito gols

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