Serie A

O buraco é mais embaixo

Giuseppe Signori chora: clubes e jogadores envolvidos em esquema de apostas ilegais foram rapidamente punidos. Mas problemas estruturais no futebol italiano ficam cada vez mais evidentes (Bild)

Quando jornais italianos noticiaram mais um escândalo envolvendo manipulação de resultados na Bota, há pouco mais de dois meses, as provas ainda não eram consistentes e a maioria dos apaixonados por futebol preferia não acreditar que estava acontecendo de novo. Mas estava. Foram mais de 60 dias de investigações para comprovar o envolvimento de 16 times e 18 pessoas no esquema, que culminou nas sentenças apresentadas na última terça-feira, dia 9, pela Federação Italiana de Futebol.
Os principais punidos são Giuseppe Signori, Cristiano Doni e Thomas Manfredini. Signori, ex-jogador da Lazio e da seleção italiana, pegou cinco anos de suspensão e não poderá assumir nenhuma função relativa ao futebol nesse período. Cristiano Doni (38 anos), capitão da Atalanta na campanha do acesso, foi punido com três anos e meio de suspensão e, provavelmente, terá de pendurar as chuteiras mais cedo. Seu companheiro de equipe, Manfredini, ficará longe dos gramados por três anos. Mais 15 pessoas terão de pagar penas de um a cinco anos de suspensão.
Além disso, 16 clubes também receberam punições. A Atalanta é a única da Serie A e terá missão mais difícil para se manter na elite, uma vez que começará o campeonato com -6 pontos e sem dois titulares absolutos – sem contar que Doni era capitão do time e referência para todos, inclusive os jovens do bom vivaio atalantino. Na Serie B, o Ascoli é o principal prejudicado: começará a competição com -6 pontos e ainda terá de pagar multa de 50 mil euros. Hellas Verona e Sassuolo foram os outros dois punidos da Serie B, com multa de 20 mil euros para cada. Na Lega Pro (terceira divisão), as punições mais graves foram para Alessandria e Ravenna, que foram rebaixados. A lista completa dos punidos você confere aqui.
Mais importante do que as punições em si é a forma como o esquema escancara mais um problema do futebol italiano, que afasta investidores e até mesmo o público dos estádios. Nas divisões inferiores, o amadorismo prevalece, jogadores recebem pouco (quando recebem) e procuram outras maneiras de ganhar dinheiro, como comprova o goleiro Rubinho, em entrevista dada a Gustavo Hofman, da Trivela, no mês passado. “Na [Serie] B tem clubes que sabem que não vão subir, vão ficar lá seis, sete anos, e aí os jogadores veem essa forma de ganhar seu dinheirinho, pelas apostas, uma aqui, outra ali”, afirma o goleiro. Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.
Mas a falta de compromisso com contratos não é um problema só do futebol italiano. Na Espanha, o Rayo Vallecano, que acaba de retornar à elite, passa por um problema financeiro sério e seus jogadores estão sem receber salários há muito tempo. Em alguns casos, especula-se que os atrasos chegam a 17 meses. Não à toa, as primeiras rodadas das duas primeiras divisões estão suspensas por lá: o sindicato de jogadores entrou em greve à procura de uma proteção maior à sua classe, querendo garantias de que os contratos serão respeitados mesmo que os clubes quebrem. O apoio dos capitães Puyol, do Barcelona, e Casillas, do Real Madrid, é de suma importância neste momento e dá força ao movimento.

Na Itália, o Bologna foi penalizado por atraso de salários na última campanha. Em outro caso, o sindicato dos jogadores ameaçou parar o campeonato no ano passado, por desacordos em relação ao contrato coletivo e, neste ano, ameaçam não entrar em campo se os problemas não forem resolvidos até a primeira rodada.

Os exemplos a serem seguidos vêm de Alemanha e França, que veem suas ligas crescerem e encorparem ao lado de gestões centradas. Nos dois países, há organismos independentes de fiscalização das finanças dos clubes. O melhor exemplo é a francesa DNCG (Direção Nacional de Controle e Gestão), que tem acesso a todos os documentos e deve assegurar que os times respeitem seus contratos. Caso não o façam, os clubes ficam sujeitos a penalizações como proibição de efetuar novas contratações, exclusão de competições e até mesmo rebaixamento.
Na Alemanha, além da regulação financeira, há um estatuto social que obriga os clubes a reterem pelo menos 51% das ações em suas mãos. Assim, grandes investidores ficam longe de ter todo o controle acionário dos clubes evita-se uma inflação no mercado, como acontece na Inglaterra. Isso ajuda a manter os times com os pés no chão e a não ultrapassarem os limites de endividamento. O critério de distribuição das cotas de TV também exerce muita influência. Diferente do que ocorre em Itália e Espanha, por exemplo, os valores de transmissão são distribuídos de forma mais uniforme, dando maior equilíbrio entre as equipes. Na Itália, essa é uma discussão que já acontece há algum tempo, mas que ainda não tem solução.
Uma das principais bandeiras da administração de Michel Platini na Uefa, o fair play financeiro é uma importante ação contra o endividamento e a falência de clubes de todos os tamanhos na Europa. Porém, enquanto as federações nacionais não se preocuparem em discutir gestões mais cautelosas para seus clubes e jogadores continuarem recebendo salários atrasados, escândalos como este, de apostas ilegais, podem estar sempre em pauta.

1 comentário

  • Como sempre, ótimo texto, o Ravenna já não iria se inscrever de qualquer forma, terminou o campeonato quebrado financeiramente.

    Missão espinhosa para o Benevento, que montou um ótimo time, mas agora vai ter a campanha seriamente prejudicada devido a penalização.

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