Serie A

O legado dos Moratti

A história de Angelo com a Inter não começa com a de todos os jovens apaixonados por futebol. A relação surge juntamente com a aparição de outra grande paixão: Erminia, sua futura esposa e mãe de seus cinco filhos, além de um sexto, adotivo. A então namorada de Angelo, o levou à Arena Cívica de Milão para uma partida da Inter e foi o que bastou para torná-lo um grande entusiasta interista.

Angelo Moratti deixou sua casa cedo, por atritos com sua madrasta – ele havia ficado órfão de mãe e pai. Aos 16 anos, começava sua vida como self-made man e com muito trabalho, foi subindo na carreira no emergente ramo petrolífero, até virar ele mesmo um produtor de petróleo, quando comprou um terreno e fundou a Saras. Em 1955, já sendo um poderoso empresário, adquiriu a Inter por 100 milhões de liras italianas, substituindo Carlo Masseroni na presidência nerazzurra – o 15º da história. À época, a Inter tinha sete títulos da Serie A e mais uma Coppa Italia.

A grande paixão pelo clube e a inexperiência no trabalho esportivo atrapalhou seu início. Angelo Moratti ficou conhecido por ser um “demolidor” de técnicos. Foram 11 mudanças, em seus primeiros cinco anos à frente dos nerazzurri, incluindo duas demissões do ídolo Giuseppe Meazza. Para acabar com o entra e sai de técnicos, Moratti escolheu Helenio Herrera e incumbiu o diretor geral Alberto Valentine de contratá-lo junto à seleção espanhola. Oferecendo quase 45 milhões de liras italianas por temporada, a contratação foi confirmada e com o treinador dos seus sonhos no comando nerazzurro, o presidente deu “carta branca” para que agisse. Por ser absolutamente passional, muitas vezes, Angelo Moratti fez com que o Herrera seguisse a sua cartilha para não ser dispensado. Alguma semelhança com os primeiros anos da gestão de Massimo, seu filho?

Na Inter, já surgiam jogadores brilhantes, como Giacinto Facchetti, Mario Corso e Sandro Mazzola. Mas o grande treinador também pode contratar outros nomes, que formaram a espinha dorsal da “Grande Inter”. Armamdo Picchi, Jair da Costa, Tarcisio Burgnich e Luis Suárez – o último contratado por 250 milhões de liras italianas, valor muito acima da média para transferências da época e que fez do espanhol o jogador mais caro do mundo.

A “Grande Inter” brilhou e conquistou a Serie A, em 1962-63, que lhe garantiu a vaga para Liga dos Campeões do ano seguinte. Um título da competição colocaria os nerazzurri ao lado do Milan, que já havia levantando a taça das grandes orelhas, enquanto a Inter vencia seu oitavo scudetto. Com “O Mago” no comando, Angelo Moratti viu a Beneamata fazer campanha praticamente perfeita e vencer o Real Madrid de Gento, Di Stéfano e Puskás – conquistando o título inédito de forma invicta. No final do ano, Moratti fez a Inter ser dona do mundo, ao vencer o Independiente na Taça Intercontinental.

Na temporada 1964-65, os nerazzurri voltaram a levantar o scudetto e fecharam o ano quase perfeito com mais um conquista continental, desta vez, contra o Benfica de Eusébio. Para seguir no topo do mundo, a Inter venceu nova disputa contra o Independiente e conquistou a taça pela segunda vez consecutiva. São justamente as conquistas europeias que aproximam as gestões de pai e filho.

A temporada de 1966-67 trouxe duas grandes desilusões que fizeram Angelo pensar em abandonar o comando nerazzurro: a perda do título europeu para o Celtic em 1967 e a Serie A da mesma temporada, quando o scudetto foi perdido na última rodada para a Juventus, após a Inter ser derrotada pelo Mantova.

Angelo Moratti só deixou o comando interista no ano seguinte, pois a tristeza foi ainda maior. O Milan ficou com a Serie A e a quinta colocação de sua equipe, com 13 pontos de desvantagem para o grande rival, sacramentou a decisão pensada 12 meses antes e foi o primeiro passo para o desmanche da Grande Inter – até o próximo scudetto, três temporadas depois, permaneceram apenas Facchetti, Burgnich, Bedin, Corso, Mazzola e Jair. Conhecido como Il Presidentissimo, a sua passagem no comando nerazzurro pode ser resumida por uma frase do craque, Sandro Mazzola: “Para nós, era como um pai, mas, sobretudo, um grande dirigente”.

A gestão de Massimo e as semelhanças

Quando assumiu o controle acionário interista em 1995, Massimo Moratti encontrou o clube ainda tendo apenas duas taças de grandes orelhas em sua sala de troféus – as duas conquistadas sob a batuta de seu pai. A paixão fez com que o segundo Moratti no comando nerazzurro consumisse treinadores, como fazia com os cigarros – dois hábitos passados de pai para filho.

Durante pelo menos metade de sua gestão, Massimo Moratti era visto como um dirigente que interferia demais no ambiente do clube e até superprotegia alguns jogadores – até mesmo se excedendo, como no caso das escutas telefônicas com Christian Vieri. Álvaro Recoba, por exemplo, sempre foi tratado como filho. Era o preferido de Massimo, assim como Adriano, anos depois. O trato com os profissionais que passam pelo clube sempre foi um traço forte na administração de Angelo e Massimo. Os dois são frequentemente elogiados por quem trabalhou no clube até mesmo anos depois de saírem, por seu comportamento humilde, elegante e amistoso.

Mais uma semelhança é que José Mourinho, assim como Helenio Herrera na época de Angelo, foi o décimo treinador efetivo da gestão de Massimo. E foi apenas o treinador português que conseguiu recolocar a Inter no patamar alcançado pela “Grande Inter” dos anos 60. A vitória de 2 a 0 sobre o Bayern, com dois gols de Milito, garantiu a Liga dos Campeões 2009-10 para os nerazzurri. O sonho de Massimo estava realizado, 15 anos depois de assumir o clube e 45 anos após a segunda conquista europeia da Inter de seu pai. No final do ano, já sob o comando de Rafa Benítez, a Beneamata voltou a ser campeã Mundial, vencendo os africanos do Mazembe na final, por 3 a 0. Hoje, dá para dizer que os grandes períodos de vitórias da história interista tiveram a família Moratti à frente do clube.

Porém, existem diferenças entre as equipes comandadas por pai e filho. A principal delas é a presença de italianos. Enquanto a “Grande Inter” de Angelo Moratti, contou nas duas conquistas com apenas três estrangeiros jogando a decisão. Já no terceiro título de Liga dos Campeões, todos os 11 titulares eram estrangeiros e, no banco, estavam apenas três italianos: Toldo, Balotelli e Materazzi. O zagueiro foi homenageado e entrou em campo já nos acréscimos da partida.

Mas o que aproxima, de fato, as duas gerações comandadas por pai e filho é a coesão entre os atletas e o foco no objetivo – pelo menos na segunda fase da gestão de Massimo. A primeira, com exceção de um título da Copa Uefa e uma semifinal de Liga dos Campeões, foi um fracasso, e teve até título perdido na última rodada, como aconteceu com seu pai. Hoje, após a saída de Mourinho, uma temporada confusa e correndo o risco de vender seus principais jogadores, como Samuel Eto’o e Wesley Sneijder, para equilibrar o balanço das finanças, a Inter se vê em um momento de hiato. Haverá um desmanche parecido com o que aconteceu com a Grande Inter? Seus torcedores esperam que não.

Deixe um comentário