Serie A

Um futuro preso ao passado

Artilheiro e ídolo em sua primeira passagem pela Sardenha, Suazo representa o passado que o Cagliari não larga para ter um futuro melhor (CalcioPro.com)
“Queremos dar a Europa de presente aos nossos torcedores”. Assim Andrea Cossu, principal jogador do Cagliari, sacramentou o grande objetivo do time para a temporada que está para começar. Uma resposta que surgiu do questionamento sobre o novo estádio da equipe, previsto para 2013 e anunciado nos últimos meses, uma obra que que é tida pela imprensa italiana, principalmente a da Sardenha, como o grande presente da diretoria para os fãs rossoblù. A ação da diretoria para modernizar o Sant’Elia, reformado para a Copa de 1990 e que, como costuma dizer o comentarista Silvio Lancellotti, é “um estádio dentro do outro”, desperta em todos que estão envolvidos com os projetos sardos o sentimento de que o Cagliari pode ser o time do futuro.
Um panorama otimista que deverá encontrar muitos percalços para virar realidade, a começar pelo planejamento no presente. Se acredita que um estádio moderno é a solução para os problemas dentro de campo, a diretoria rossoblù dará com os burros n’água em pouquíssimo tempo. A formação de um time que acompanhe a qualidade do futuro campo de jogo é mais do que essencial e o Cagliari não começa tão bem assim suas movimentações no mercado. O ataque, setor mais carente do time, mostra bem algum contraste entre desejos e realidades. Se perdeu Matri de forma inevitável para a Juventus, a diretoria optou por não manter Acquafresca, que vinha de boa temporada, e acabou perdendo quase todas as suas referências ofensivas, ficando apenas com Nenê. E a substituição do matador é um dos dramas atuais do clube. Apegada ao passado em meios aos planos de futuro, a diretoria se movimenta para sacramentar a praticamente garantida volta do (ex) artilheiro hondurenho David Suazo. Ídolo recente na Sardenha, o atacante vagou pelo futebol após deixar o Cagliari e nunca mais fez as pazes com o gol. Seu retorno soa mais como uma tentativa de resgatar o que já passou do que uma forma de montar um elenco com futuro – ou até mesmo um que possa almejar a Europa, como sonha Cossu. Contrasta, por exemplo, com as presenças dos jovens Moestafa El Kabir e Víctor Ibarbo, atacantes com pouca rodagem e sem experiência na Serie A, mas que ao que tudo indica são boas apostas da diretoria. A chegada do hondurenho praticamente sela o destino dos dois garotos: deverão ser utilizados sem muita frequência, já que as fichas devem ser apostadas todas em uma possível – e difícil – recuperação de Suazo, um jogador que receberá um alto salário e dificilmente se contentaria com mais um ano de poucos minutos em campo. Uma situação complicada para o técnico Roberto Donadoni, que se posicionou contra a transferência do antigo ídolo e provavelmente será pressionado a não colocar no banco de reservas aquele que deverá ser a principal contratação e o mais experiente atacante do time. Ao mesmo tempo, Donadoni fica de mãos amarradas quanto a uma renovação que parece ser necessária no ataque. Se conta com a principal estrela da equipe, Cossu, o meio-campo parece ser o setor mais próximo de atender às expectativas de uma renovação. O grande jogador do Cagliari já chegou aos 31 anos e dificilmente se manterá em alto nível por mais do que três temporadas. A diretoria, porém, agiu bem nos últimos anos e conta hoje com o belga Radja Nainggolan, revelação do clube na última temporada, e o uruguaio Pablo Ceppelini, destaque da seleção sub-20 de seu país, mas que, por concorrer com Cossu e Lazzari, fez poucos jogos vestindo rossoblù na última Serie A.
Ceppelini, no entanto, pode começar a aparecer mais no time principal. A venda de Lazzari para a Fiorentina pode ter sido o primeiro para dar mais espaço ao uruguaio e pode também render frutos para o reforço de outros setores. Para ajudar o capitão Cossu com experiência e até ser referência para os mais novos, pode chegar ainda o bom Marco Parolo, atualmente no Cesena e um dos desejos da diretoria para a temporada. A renovação do atleta com seu clube atual até 2013, porém, pode ser um empecilho importantíssimo para que os sardos concretizem a negociação.
Os quatro atletas promissores – que não são realidades ainda – não são suficientes para colocar em prática ambiciosos planos de consolidação da equipe entre os melhores – leia-se parte de cima da tabela – do futebol italiano. E é bom lembrar, também, que as categorias de base rossoblù não vão tão bem assim, participando mal de competições como o campeonato Primavera. Sinal de que o investimento para o time crescer não passa apenas por um novo estádio, mas por toda uma reestruturação do clube. Falta ao Cagliari mais planejamento dentro das quatro linhas, enquanto as coisas parecem ir bem fora delas. Um novo e moderno campo de jogo, de propriedade não mais da prefeitura mas do próprio clube, pode ser um atrativo para a torcida, fundamental no almejado crescimento, e também pode fazer com que a equipe deixe de ter a obrigação de vender seus melhores atletas para clubes maiores, como tem feito nos últimos anos. Por outro lado, bons e jovens jogadores são essenciais para um time que sonha com um futuro muito melhor que o presente, mas vive preso a um passado que condena e não engrena. Uma missão difícil que poderá ter em Donadoni uma figura central. Resta saber se o treinador terá a coragem necessária para lançar na equipe principal jovens que parecem ter um bom futuro dentro do futebol.

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