Serie A

4ª rodada: Vida clichê

Moratti faz cara feia: Gasperini, sua quinta opção como técnico no mercado, dará lugar a outro técnico tampão. Um ano e meio atrás, time comemorava tripletta (Getty Images)


Esta terça-feira, 20 de setembro de 2011, foi um dia absolutamente histórico para a Inter. Não só porque Javier Zanetti chegou a marca de 757 jogos pelo clube, ultrapassando Giuseppe Bergomi como o jogador que mais vestiu a camisa do clube. Esta terça marcou, também, o dia em que a Beneamata igualou a péssima marca da temporada 1983-84, quando somou apenas 1 ponto nos primeiros cinco jogos da temporada. Gian Piero Gasperini deixa a equipe com o pífio aproveitamento de aproximadamente 6,67%, sem uma única vitória em jogos oficiais. Depois de ser demitido pelo Genoa no início de 2010-11, Gasp vê sua temporada encerrar-se mais cedo outra vez.

Contra o Novara, a Inter voltou ao 3-4-3 e, novamente, jogou muito mal. Enquanto Castaignos e Forlán nada criavam no ataque, Chivu aprontava das suas na defesa. Samuel e Pazzini viam tudo do banco. A incoerência de Gasperini deixava Álvarez, contratação mais cara do mercado nerazzurro, e Muntari, um jogador que passou de descartável a ás na partida contra a Roma, nas tribunas. Massimo Moratti foi taxativo ao final da partida: “Gasperini não me pareceu ter o controle do grupo”.

Gasp, assim como Rafa Benítez, não conseguiu dominar o vestiário difícil e cheio de senadores da equipe de Milão e nem fazê-los acreditar por muito tempo em suas concepções táticas. Cambiasso, assim como com Benítez, por quem não nutria o mais nobre dos sentimentos, faz partidas muito abaixo da crítica – e ontem foi flagrado ordenando a Ranocchia que formasse uma defesa a quatro, à revelia do técnico. Está deslocado no esquema ou fazendo corpo mole? Fato é que os jogadores do elenco sempre renderam mais jogando como José Mourinho lhes pedia. O sucesso de Leonardo – embora tenha tido problemas defensivos – se deveu ao mesmo motivo.

Não foi por falta de aviso. Com Benítez, a Inter já havia sucumbido às mudanças táticas, quando o treinador chegou ao clube tentando, de maneira dogmática, implantar sua filosofia de jogo. Cabe aqui levantar uma questão: até que pontos os jogadores podem ter tanto poder dentro de um clube de futebol? O afastamento de Gabriele Oriali, ex-jogador com status de ídolo no clube e que dois anos atrás era responsável pelo mercado, mas também por “fazer o meio-campo” entre jogadores, técnico e direção se mostra fundamental para o atual estado de crise interna do clube.

O Novara, que nada tinha a ver com isso, entrou no seu campo de grama sintética do estádio Silvio Piola motivadíssimo por poder realizar novamente uma partida da Serie A em casa. Os azzurri engoliram a Inter: Rigoni, Mazzarani, Morimoto e Meggiorini incorporaram Xavi, Iniesta, Villa e Messi e, frente a uma Inter que jogava como uma equipe provinciana, perdida em todos os sentidos. Até mesmo o normalmente calmo Ranocchia perdeu a cabeça em diversos momentos e acabou expulso por cometer pênalti em Morimoto.

A Inter, agora, tem de olhar para frente. Como Moratti declarou que usaria a madrugada desta quarta para se decidir – para bom entendedor, negociar com um substituto -, convém imaginar o perfil do treinador que a Inter quer para substituir Gasperini. Em um mercado (não apenas interno, mas em todo o futebol europeu) esvaziado, fala-se em opções caseiras, como a de efetivar Luís Figo, em parceria com o auxiliar Giuseppe Baresi, ou até de trazer ex-jogadores interistas, como Walter Zenga e até Roberto Baggio, que assim como Figo nunca treinou um clube.

O favorito, segundo a mídia especializada italiana, seria Claudio Ranieri. Uma aposta arriscadíssima, não só pelas claras limitações do romano em seu último trabalho, pela Roma, mas também porque muitos jogadores são mourinianos e Ranieri é um dos grandes rivais do português, já tendo sido ridicularizado por ele… assim como Benítez. Um raio cai duas vezes no mesmo lugar? Outra alternativa é Delio Rossi, mas surgem com menos força os nomes de Roberto Donadoni e de Quique Sánchez Flores.

Para Gasperini, este outro ano de férias forçadas – e remuneradas -, que poderia ser um sonho para tantos profissionais, lhe constrange a rever seus dogmas. Gasperini, apesar de sua péssima passagem por Appiano Gentile, tem sido um dos bons técnicos da nova geração italiana, mas acabou alçado muito cedo a uma grande equipe, assim como Allegri e Conte, pela má fase dos principais treinadores do Belpaese – já falamos sobre isso aqui.

Embora seja uma “vítima do sistema” e possa até reclamar de não ter sido completamente apoiado pela sociedade em termos táticos, sobretudo com a ação no mercad, até que ponto vale ser tão inflexível com sua filosofia de jogo e não adaptar-se às peças que tem à disposição? Caso continue tentando levar a cabo sua concepção de como jogar futebol à força bruta, como se estivesse tentando provar a todos, de maneira pretensiosa, que é um mago do esporte, estará fadado a treinar equipes pequenas e médias. Assim como Zdenek Zeman. E tem gente que recusa a existência de uma vida tão clichê.

Veja todos os gols da partida aqui.

1 comentário

  • Sempre que posso acompanhho o blog, e hoje eu achei bem interessante a tua colocação sobre o poder dos jogadores. Penso que é uma mão de via dupla, muitas vezes o jogador pode acrescentar algo ao time, sendo a visão de quem está ali no dia a dia do clube e do time, sabendo avaliar um pouco melhor o que cabe melhor na equipe. O oposto também é vero, o jogador pode derrubar um técnico, fazendo corpo mole e dando " dicas " erradas ao colegas…
    Abraço!

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