Brasileiros no calcio

Carnaval e rebaixamento: os anos de Edmundo na Serie A

Edmundo nunca quis agradar a todos. E, de fato, nunca agradou. Amado por muitos e odiado por outros tantos, o atacante sempre viveu de extremos. Besta e bestial, louco e lúcido, simples e exagerado, irreverente e grosseiro, agressivo e sentimental, goleador e perdedor de pênaltis, mocinho e vilão. Humano e Animal.

Todas essas características fizeram de Edmundo um dos jogadores mais peculiares dos anos 90 – nos anos 2000, o Animal, mais experiente, começava a se amansar e a medir seus atos. Quando foi negociado pelo Vasco com a Fiorentina, no fim de 1997, Edmundo estava no auge da carreira e já havia vencido praticamente tudo no Brasil e, também, vivido todo tipo de polêmica. Mesmo antes de estrear profissionalmente, em 1992, ele já havia sido expulso da base do Botafogo por ter andado nu na concentração e ter sido surpreendido por um dirigente.

Acabou retornando para o Vasco, clube do qual é torcedor e onde começara sua carreira na base. No cruzmaltino, teve grande sucesso pelo time principal, em jogos do Campeonato Brasileiro e do Carioca, mostrando os atributos que o acompanhariam ao longo da carreira: explosão, habilidade, uma perna direita calibrada, objetividade, muita mobilidade na frente e dos lados da área e, claro, faro de gol. Com apenas 21 anos, foi convocado para a seleção brasileira  – com a qual jogaria a Copa América de 1993 – e, depois, acabou negociado com o Palmeiras.

Pelo alviverde, jogou ainda mais bola e fez parte do histórico time palmeirense que marcou mais de 100 gols em um ano. Ainda ajudou o time a sair da fila desde os anos 70, com o título paulista e, principalmente, do bicampeonato do Brasileirão, virando ídolo da torcida e ganhando o prêmio Bola de Prata, da Placar. Em São Paulo, Edmundo começou a demonstrar seu lado agressivo e ganhou de Osmar Santos o apelido de Animal, que o acompanharia ao longo da carreira.

Ainda no Palmeiras, depois de um jogo da Libertadores, contra o El Nacional, em que perderia um pênalti, acabou agredindo um repórter e teve de ficar preso em Guayaquil por seis dias. Internamente, Edmundo tinha mau relacionamento com o técnico Vanderlei Luxemburgo e com alguns jogadores do elenco. Em 1995, foi para o Flamengo, com a ideia de formar o “ataque dos sonhos” com Romário e Sávio, mas o único sucesso foi da passagem foi o “Rap dos bad boys”, composto com o Baixinho.

Quando estava no clube, o Animal ainda protagonizou uma briga com o zagueiro Zandoná, do Vélez Sarsfield, e também causou o acidente automobilístico que matou três pessoas, no Rio de Janeiro, pelo qual seria preso – e liberado, via habeas corpus – quatro anos depois. Acabou retornando para São Paulo, para defender o Corinthians, mas também não teve sucesso. Acabou retornando, inicialmente sem permissão, mais uma vez para o Vasco.

Na segunda passagem pelo Vasco, Edmundo reencontrou a paz. Ajudou o Vasco a se livrar do rebaixamento em 1996 e, em 1997, foi o grande nome do time da Colina na conquista do tricapeonato brasileiro, quando reeditou dupla de sucesso com Evair. O Animal marcou 29 gols, batendo recorde de gols marcados em uma única edição do Brasileirão e, de lambuja, marcou três na semifinal contra o Flamengo. Jogando pela seleção brasileira, foi titular na Copa América daquele ano e ainda marcou um gol na final contra a Bolívia, ajudando o Brasil a conquistar o título.

Pelo que jogou naquele ano, foi tido por muitos comentaristas como um dos melhores jogadores em atividade. E por algumas polêmicas daquele ano, como a rebolada frente ao botafoguense Gonçalves, companheiro de seleção, a comemoração debochada na semifinal do Brasileiro contra o Flamengo, por ter chamado o juiz cearense Dacildo Mourão de “paraíba” e por ter forçado uma expulsão para poder jogar a segunda partida da final contra o Palmeiras, ficou ainda mais marcado.

Vendo em Edmundo um grande talento a ser explorado, e com apenas 25 anos, a Fiorentina decidiu desembolsar cerca de 9 milhões de dólares para tê-lo. No clube de Florença, Edmundo chegaria para fazer dupla letal com Gabriel Batistuta, matador por excelência. Endinheirada, a sociedade dirigida por Vittorio Cecchi Gori buscava chegar à Liga dos Campeões e, para isso, formava grande time, com Francesco Toldo no gol, Stefan Schwarz, Andrei Kanchelskis e Rui Costa no meio, além do forte ataque, que ainda tinha Luis Oliveira e Domenico Morfeo. A grande concorrência no ataque fez com que Edmundo fosse mal aproveitado por Alberto Malesani e fizesse apenas nove partidas entre janeiro e junho. Mas a média de gols foi boa: quatro marcados nestas partidas.

Edmundo foi convocado pelo técnico Zagallo para a Copa de 1998. Porém, embora estivesse em fase superior à de Bebeto, não foi titular no ataque ao lado de Ronaldo – o que até hoje gera polêmica. O atacante reclamava publicamente por não ser titular, mas quando teve chance, contra o Marrocos, atuou muito mal. Só voltaria a atuar novamente na final, contra a França, onde até chegou a ser escalado como titular depois das convulsões de Ronaldo. Acabou no banco e entrou apenas no fim do segundo tempo, quando o jogo estava praticamente perdido.

Depois do desilusão na Copa do Mundo e o quinto lugar com a Fiorentina em 1997-98, que levou a equipe viola à Copa Uefa, Edmundo teria a chance de fazer pela primeira vez uma pré-temporada por um clube europeu. As ambições da Fiorentina eram maiores: Giovanni Trapattoni chegou do Bayern de Munique para levar um time ainda mais forte, com as chegadas de Moreno Torricelli, Jörg Heinrich e Guillermo Amor à Champions. O Animal, desta vez titular, se encaixou rapidamente no esquema da equipe e fez o que dele se esperava: foi o parceiro perfeito para Batistuta. Os dois tiveram grande interação e, com Rui Costa, formaram um tridente ofensivo muito forte, que marcou, ao todo, 39 gols (21 do argentino, 10 do português e 8 do brasileiro), mais de 70% dos gols da equipe.

Edmundo, porém, não selivrara das polêmicas. Insultou Trap publicamente, ao ser substituído em uma derrota contra a Roma, e também chegou a ir às vias de fato com o reserva Emiliano Bigica, que era seu amigo. Porém, a maior de todas as polêmicas aconteceu em fevereiro daquele ano. Em meio a uma dura sequência de jogos (Milan, Udinese e Roma, três jogos em que a Fiorentina não venceu), o Animal viajou para curtir o Carnaval – com autorização do clube, mas em um momento delicado.

O ato de insubordinação revoltou todo o grupo e alguns jogadores, como Rui Costa, deram fortes declarações contra a falta de profissionalismo do brasileiro. Mesmo assim, Edmundo voltou ao clube e ainda jogou na temporada. Fez dois gols contra o Perugia e deixou o clube no fim de 1998-99, tendo sido importante para classificar a equipe para a LC, com o terceiro lugar conquistado.

Mais uma vez, Edmundo retornaria ao Vasco – desta vez, por uma alta quantia, emprestada pelo Bank Of America, que ajudaria a quebrar o clube nos anos seguintes. Sua terceira passagem pelo clube do seu coração não foi tão positiva quanto a segunda, mas foi importante na sua carreira. Ele não conseguiu ajudar a equipe cruzmaltina a passar pelo Vitória, no mata-mata do Brasileirão de 1999 e, depois, reeditou dupla de ataque com Romário, com quem não tinha boa relação fora de campo.

Com trégua declarada, os dois tiveram muito destaque no Mundial Interclubes da Fifa, disputado no Rio de Janeiro. Edmundo fez um ótimo torneio, com destaque para atuação de gala frente ao Manchester United, partida em que marcouum golaço, entortando o zagueiro Silvestre, e ainda deu passe para o Baixinho marcar outro. Na final, contra o Corinthians, Edmundo bateu pênalti para fora e o Vasco acabou com o vice-campeonato.

As rusgas com Romário continuaram, após o Mundial, e Edmundo acabou emprestado ao Santos, depois de perder a faixa de capitão da equipe carioca para o Baixinho. A passagem pela Baixada Santista foi apenas um ponto de parada antes de receber a segunda (e última) chance na Europa. Ainda impressionado pela grande atuação de Edmundo no Mundial, o Napoli decidiu assumir o risco de bancar sua contratação e o levou para a Campânia, em janeiro de 2001. Pelos azzurri, completamente desorganizados dentro e fora de campo, Edmundo jogou 17 partidas (todas como titular) e foi visto como uma espécie de salvador da pátria da equipe.

Segundo e último time do Animal na Itália foi o Napoli (Getty Images)

O atacante, porém, marcou apenas quatro gols (menos que Amoruso, que fez 10, e Pecchia, 6) e não conseguiu fazer com que o time permanecesse na elite. A última rodada, que poderia garantir o Napoli na Serie A, foi melancólica e ainda teve vitória de pirro. Lecce, Verona e Reggina, adversárias diretas na briga pela permanência, venceram fora de casa e nem mesmo o resultado positivo, em partida sofrida frente à Fiorentina, sua ex-equipe, com gol dele nos acréscimos, foi suficiente para manter a equipe partenopea na primeira divisão. Assim, Edmundo se despediu da Europa com duas outras manchas na carreira: além do rebaixamento, foi eleito um dos piores da temporada. Ainda assim, inspirou o atacante Amauri, que jogou junto com ele em Nápoles. Até hoje, o atacante ítalo-brasileiro diz que Edmundo é seu ídolo e modelo de atacante.

Edmundo, que já tinha 29 anos, passou boa parte da carreira sem brilho. Jogou pelo Cruzeiro e acabou saindo do clube após perder pênalti em partida contra o Vasco, depois de declarar que não gostaria de marcar contra o clube que amava, e foi jogar no Japão, onde ficou por três anos, jogando por Tokyo Verdy e Urawa Red Diamonds. Ainda jogou novamente pelo Vasco, por onde ficou pouco tempo, antes de brigar com o presidente Eurico Miranda por salários atrasados.

Foi para o Fluminense, onde faria mais uma dupla sem sucesso com Romário, antes de cair em ligeiro ostracismo. Atuou dois jogos no pequeno Nova Iguaçu, do amigo Zinho, e aceitou uma proposta do Figueirense, em 2005. Pelo clube de Florianópolis, voltou a jogar bem: marcou 15 gols no campeonato. Retornou ao Palmeiras e, mesmo veterano, teve boa participação no clube.

Em 2008, retornou ao Vasco pela quinta vez, para encerrar a carreira, mas viu o clube ser rebaixado pela primeira vez em sua história. A partida do suplício cruzmaltino, ironicamente foi a última da carreira profissional de um dos maiores ídolos de toda a história do clube. Até ontem, quando Edmundo, três anos após parar, voltou a campo para sua partida de despedida. Ele marcou dois gols no 9 a 1 contra o Barcelona de Guayaquil, adversário da final da Libertadores de 1998, vencida pelo Vasco, mas pela qual não atuaria porque se transferiu para a Fiorentina.

A partida de despedida de Edmundo também foi notícia na Itália, país pródigo em formar jogadores com temperamento explosivo e de atitudes controversas, tal qual o Animal. Jogadores que logo conquistam sua própria torcida e se fazem odiar por outras, gente da estirpe de Marco Materazzi, Antonio Cassano e Mario Balotelli. Gente que, um jeito ou de outro, foge do óbvio e acaba deixando o futebol mais imprevisível e mais divertido de se ver.

Edmundo Alves de Souza Neto
Nascimento: 2 de abril de 1972, em Niterói
Posição: Atacante
Clubes: Vasco (1992; 1996-97; 1999-2000; 2003-04; 2008), Palmeiras (1993-95; 2006-07); Flamengo (1995), Corinthians (1996), Fiorentina (1998-99), Santos (2000), Napoli (2001), Cruzeiro (2001), Tokyo Verdy (2001-02), Urawa Red Diamonds (2003), Fluminense (2004), Nova Iguaçu (2005) e Figueirense (2005).
Títulos: Campeonato Carioca (1992), Torneiro Rio-São Paulo (1993), 2 Campeonatos Paulistas (1993 e 1994), 3 Campeonatos Brasileiros (1993, 1994 e 1997) e Copa América (1997).
Seleção brasileira: 39 jogos e 10 gols.

2 comentários

  • Grande resumo da carreira de Edmundo, Nelson. Só faço, se me permite, uma pequena correção:
    A vinda de Edmundo ao Brasil para curtir o Carnaval não só aconteceu com a permissão da Fiorentina como estava previsto em contrato(!) Inclusive, o preparador físico do time veio com ele para cá. A grande polêmica é que a Viola estava muito bem no campeonato (liderava, acho), mas tinha desfalques (Batistuta entre eles) justamente no fim de semana da folia de Momo. Ignorando esse fato, Edmundo viajou mesmo assim e, de longe, viu seu time perder a liderança.
    Tal episódio nunca foi perdoado pela torcida.

    Abraço.

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