Brasileiros no calcio

Dida, o homem que deu um título europeu ao Milan

A natureza foi carinhosa com Dida. Em toda a carreira do baiano de Irará, a envergadura sempre foi considerada como um dos pontos fortes de seu trabalho sob as balizas. Mas, mesmo com 1,95 de altura, o goleiro nunca foi desajeitado e os reflexos sempre foram apurados. Seus ídolos sempre foram Valdir Peres e Rinat Dasayev, goleiros que acompanhou durante a Copa do Mundo de 1982. Além de grandalhão, Dida também sempre foi muito tímido e reservado. Isso, porém, não impedia que tivesse grande personalidade e crescesse ainda mais nas cobranças de pênalti, momento em que era bastante temido.

Dida iniciou a trajetória futebolística no em Alagoas, onde vivia com a família. A primeira experiência no futebol foi no Flamenguinho, time amador criado por ele e amigos, que ganhou o nome em homenagem ao seu clube de coração. Profissionalmente, o pontapé inicial aconteceu no Cruzeiro de Arapiraca, embora a carreira só fosse decolar na Bahia. Vestindo a camisa rubro-negra do Vitória, Dida foi campeão estadual e começou a ser convocado para as seleções de base do Brasil. Em 1993, venceu o Campeonato Mundial Sub-20 como titular absoluto da baliza verde e amarela. No mesmo ano, conquistou pela primeira vez a Bola de Prata da Placar como melhor goleiro do Campeonato Brasileiro.

Consolidado no Vitória, o arqueiro se transferiu para o Cruzeiro, clube pelo qual passou a ganhar ainda mais reconhecimento e através do qual as conquistas se tornaram comuns. Foram nove títulos, incluindo uma Copa Libertadores, na qual, na final, ele fez defesa espetacular na vitória por 1 a 0 sobre o Sporting Cristal, que garantiu o título celeste. Individualmente, Dida conquistou mais duas Bolas de Prata como melhor goleiro do Brasileirão, em 1996 e 1998. Em 1996, apesar de ser criticado por, supostamente, não saber sair do gol (isto rendeu até um comercial da Volkswagen, estrelado pelo goleiro), fez parte da seleção brasileira que jogou a Olimpíada de Atlanta. Com o currículo recheado no Brasil, o baiano optou por seguir a carreira na Europa.

Dida estava em fim de contrato e recebeu uma proposta do gigante Milan para transferir-se à Itália. Embora estivesse em fim de contrato, teve que passar por uma longa batalha judicial para deixar o Cruzeiro e o Milan acabou pagando três bilhões de liras para tirá-lo do clube. Para evitar problemas com a Fifa, o clube rossonero o emprestou para o Lugano da Suíça, onde não jogou um jogo sequer. O período sem atividade prejudicou o baiano, que quando pode entrar em campo pelo Milan, teve outra dificuldade: as preferências de Alberto Zaccheroni. Abbiati e Rossi estavam à frente do brasileiro na briga pela titularidade.

Isto o fez retornar temporariamente para o Brasil, onde ficaria emprestado ao Corinthians. No clube paulistano, brilhou e se firmou como grande pegador de pênaltis. Na semifinal do Brasileirão 1999, pouco depois de sua chegada, foram duas cobranças defendidas ante a Raí e, no Mundial de Clubes, parou Anelka, nas semifinais contra o Real Madrid. Assim, o goleiro colaborou decisivamente com duas das três conquistas que o seu Corinthians teve no ano.

Mas isso não bastou para que Dida voltasse ao Milan com a titularidade garantida. Algumas ausências dos concorrentes permitiram a sua presença entre os 11 titulares em uma pequena série de jogos, mas uma falha grosseira (praticamente um gol contra) frente ao Leeds na Liga dos Campeões fez com que perdesse espaço novamente. Aliado a isso, o baiano teve seu nome envolvido em um escandâlo de falsificação de passaportes: uma série de empresários forjava documentos que atestavam a descendência europeias de jogadores que poderiam ser considerados extracomunitários. Embora Dida estivesse sendo escalado como estrangeiro, foi suspenso por um ano pela Federação Italiana de Futebol.

Com o banimento imposto pela Federação Italiana, voltou ao Brasil. Por empréstimo, outra vez, o Corinthians quis contar com o goleiro. A segunda passagem pelo alvinegro também foi vitoriosa: Dida venceu um Torneio Rio-São Paulo e uma Copa do Brasil – na semifinal, contra o São Paulo, pegou mais um pênalti. As atuações ajudaram o goleiro a garantir uma vaga como reserva no time pentacampeão do mundo na Copa do Mundo de 2002, na Coreia do Sul e no Japão.

Brasileiro teve momentos de ouro, mas fechou passagem por Milão com muitas falhas (Getty)

Após o título mundial, voltou finalmente aos rossoneri. Dida iniciou a temporada 2002-03 no banco. Com uma lesão séria do titular Abbiati, ele se tornou a primeira opção para o gol e começou a escrever sua história no Belpaese. Naquela temporada, venceu a Liga dos Campeões, como grande protagonista e herói. Na final, frente à Juventus, o baiano brilhou na disputa de pênaltis, que se sucedeu ao 0 a 0 durante os 120 minutos de bola rolando. O grandalhão ofuscou as duas defesas de Buffon, com suas três, nas cobranças de Trezeguet, Zalayeta e Montero. Com a grande presença na disputa de penalidades, ele recebeu o apelido de “Ammiraglio”, o Almirante, em tradução livre.

Na temporada seguinte, ele conquistou a Supercopa europeia, seu único scudetto em toda a carreira e ainda foi eleito o melhor goleiro da Serie A. Pudera, foram apenas 20 gols sofridos em 32 partidas realizadas. Em 2004-05, Dida foi o dono da baliza rossonera durante a campanha vice-campeã da LC. Nas quartas de final, contra a Inter, foi atingido por um dos petardos que acabaram interrompendo a partida – o Milan, que vencia por 1 a 0, foi declarado vitorioso. Felizmente, o goleiro não foi ferido gravemente.

Na final daquela Champions, participou do jogo em que o Milan vencia por 3 a 0 e deixou o Liverpool empatar. Nos pênaltis, ele não teve a sorte de outras disputas e parou apenas a cobrança de Riise. Com os bons desempenhos na Itália, Dida garantiu a vaga entre os 11 titulares na Copa do Mundo de 2006 e foi um dos poucos a fazer ótimas exibições e se salvar perante à opinião pública, no naufrágio da badalada seleção brasileira, eliminada e humilhada pela França de Zidane nas quartas de final.

Depois do Mundial, Dida retornou ao Milan e completou sua partida de número 200 em rossonero, contra o Ascoli, em jogo válido pela Serie A. Na mesma temporada, o baiano assinou seu último contrato profissional: jogaria por mais três anos no Diavolo. Neste mesmo ano, Dida teve altos e baixos na trajetória milanista campeã da Liga dos Campeões. Falhou no jogo de ida contra o Bayern e, apesar das críticas, brilhou na segunda partida. Frente ao Manchester United de Cristiano Ronaldo e Rooney foi a mesma coisa. A decisão, contra o Liverpool, teve o óbvio sabor de vingança e o titular do gol italiano também fez boa exibição, na vitória por 2 a 1.

Com o passar do tempo, as lesões, que eram raras, passaram a ser mais comuns e as falhas também aumentaram – essas em número ainda maior. Em um dérbi de Milão, na temporada 2007-08, o brasileiro falhou feio em arremate de Cambiasso, que garantiu o triunfo interista. Depois, virou reserva do fraco Kalac. Em 2008-09, Dida já era reserva novamente – desta vez de Abbiati – e jogava, principalmente, partidas da Coppa Italia e da Copa Uefa. Acompanhava o redimensionamento da envelhecida equipe, fragilizada após o envolvimento no Calciopoli e pelo passar dos anos.

A última temporada na Itália continuou a reservar ao goleiro o mesmo roteiro dos últimos anos da carreira: foi recheada de altos e baixos. Na primeira parte da temporada, era terceira opção para o gol, atrás de Abbiati e Storari. Porém, com a lesão do primeiro e a saída do segundo para a Sampdoria, reassumiu o posto de primeiro goleiro. Falhou feio em jogo da Liga dos Campeões, contra o Real Madrid, mas fez alguns grandes jogos ns Serie A.

Ultrapassou os 300 jogos oficiais com a camisa rossonera, ultrapassando Lorenzo Buffon como segundo colocado no ranking de goleiros que mais vestiram a camisa do clube – perde apenas para Sebastiano Rossi. Para terminar a trajetória vitoriosa, Dida recebeu muitas homenagens e viu seu time fazer 3 a 0 sobre a rival Juventus. Na hora em que deixou o gramado para a entrada de Abbiati, despedindo-se da equipe que defendeu por quase dez temporadas, a torcida explodiu.

Em sua saída de Milão, disse que gostaria de jogar mais dois anos profissionalmente. Porém, até hoje, Dida – que já tem 38 anos – não voltou aos gramados. No final do ano passado afirmou ao repórter Eric Luis Carvalho, do Globoesporte.com, que estava morando em Belo Horizonte e havia recebido algumas propostar para atuar, mas não revelou os nomes dos clubes interessados. Mais recente é a matéria do diário Lance!, que afirmou no começo deste ano que Dida foi um dos goleiros oferecidos ao São Paulo, após a lesão de Rogério Ceni.

Neste ano, Dida foi eleito o melhor goleiro brasileiro do século XXI, pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol. Com 90 pontos, ele foi o sexto na eleição, Buffon ficou no primeiro posto.

Nelson de Jesus Silva, o Dida
Nascimento: 7 de outubro de 1973, em Irará, Brasil
Posição: goleiro
Clubes como jogador: Cruzeiro de Arapiraca (1990-1991), Vitória (1991-93), Cruzeiro (1994-98), Lugano (1998-99), Corinthians (1999-00 e 2001-02) e Milan (2000-01; 2002-10)
Títulos: Campeonato Baiano (1992), 4 Campeonatos Mineiros (1994, 1996, 1997 e 1998), Copa Master da Supercopa (1995), Copa Ouro (1995), 2 Copas do Brasil (1996 e 2002), Copa Libertadores da América (1997), Recopa Sul-americana (1998), Campeonato Paulista (1999), Campeonato Brasileiro (1999), 2 Mundiais Interclubes (2000 e 2007), Torneio Rio-São Paulo (2002), Serie A (2003-04), Coppa Italia (2002-03), Supercoppa (2003-04), 2 Ligas dos Campeões (2002-03 e 2006-07) e 2 Supercopas da Uefa (2002-03 e 2006-07), 2 Copas das Confederações (1997 e 2005), Copa América (1999) e Copa do Mundo (2002)
Seleção brasileira: 91 partidas

1 comentário

  • Ele teve a virtude de jogar esses anos todos sem causar nenhum escândalo. Talvez seja o goleiro brasileiro com mais títulos e prêmios. Esteve nas seleções de base de quase todas as categorias e chegou à equipe principal com méritos de sobra.

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