Seleção italiana

A vitória tática de Prandelli

De Rossi, atuando como zagueiro, foi perfeito no primeiro tempo, mas pecou no segundo. Mesmo assim, foi um dos trunfos da vitória tática de Prandelli sobre Del Bosque neste domingo (Getty Images)

Depois de um péssimo resultado no amistoso contra a Rússia, o que preocupava a Itália na estreia na Euro 2012 frente a Espanha, atual campeã europeia e mundial, era a defesa que preocupava o técnico Cesare Prandelli. Barzagli, machucado, não poderia jogar e, sem por isso, o técnico preferiu dar espaço a um esquema com três zagueiros, com o qual Bonucci e Chiellini já estavam acostumados, promovendo o recuo de De Rossi à defesa. Na Roma, ele já havia executado a função de líbero algumas vezes. 

A ideia tática de Prandelli também privilegiaria os alas Maggio e Giaccherini, que em Napoli e Juventus, também jogam em um esquema com três zagueiros. No centro do meio-campo, Pirlo e Marchisio eram outros habituados ao sistema. A resposta de Vicente Del Bosque foi simples: escalou Fàbregas como um “falso nove” Fàbregas, em um 4-3-3, com liberdade de movimentação, para obrigar De Rossi a sair mais da área. 

A tática da seleção vermelha não deu certo: a Espanha atacava, mas sem chutes. Penteava a bola na entrada da área e via a zaga italiana impecável em posicionamento, estabelecendo situações de maioridade numérica que facilitavam os cortes. De acordo com tweet da revista inglesa Four Four Two, todas as 13 tentativas de desarme italianas na primeira etapa deram certo. À Fúria fez falta a referência de ataque, que nos últimos anos foi Villa, para ultrapassar a barreira azzurra.

Na Itália, a criação foi dividida por Pirlo e por Cassano, que voltava bastante para buscar jogo – a participação dos dois fez com que em momentos do jogo a posse de bola fosse de 50% para cada seleção. Marchisio, por sua vez, esteve sumido, se apresentando pouco para o jogo e mais preocupado em interceptar. As melhores chances italianas no primeiro tempo surgiram justamente com Fantantonio, em dois chutes perigosos: um para fora e outro defendido por Casillas. Mas a melhor chance azzurra aconteceu no último minuto do primeiro tempo, com uma cabeçada de Thiago Motta.

No segundo tempo, a Espanha voltou um pouco melhor. Tanto é que a primeira ótima chance após o intervalo foi roja: Iniesta avançou pela esquerda e chutou perigosamente, obrigando Buffon a fazer defesa providencial. Logo depois, Balotelli foi esperto ao roubar bola de Sergio Ramos, mas demorou demais para decidir se passava para Cassano ou se chutava para o gol e permitiu a recuperação do lateral madridista. Prandelli não gostou e logo o substituiu por Di Natale. O atacante da Udinese, que não tem tanta história na seleção, acabou fazendo seu gol mais importante pela Nazionale poucos minutos depois. Ele, que havia perdido pênalti contra a Espanha, na Euro 2008, se redimiu: se movimentando na linha dos zagueiros, sem entrar em impedimento, recebeu passe magistral de Pirlo e girou para marcar, tornando-se, aos 34 anos, o quarto mais velho a fazer um gol na Euro, atrás de Ivica Vastic (38), Jan Koller (35) e Christian Panucci (35).

A Espanha respondeu em seguida, com Fàbregas. Chiellini saiu para marcar e De Rossi não ficou na sobra, abrindo espaço para o barcelonista receber ótimo passe de Silva. Giaccherini não conseguiu acompanhá-lo no movimento para o buraco deixado pelo vice-capitão da Roma, que falharia pela primeira vez no jogo, após fazer partida impecável. Depois, a Espanha cresceu no jogo. Silva e Fàbregas saíram para as entradas de Navas e Torres, o que provocou certa confusão no sistema defensivo italiano. Giaccherini, exausto, tinha dificuldades de conter o jogador do Sevilla, enquanto, curiosamente, Torres começou a obrigar De Rossi a se movimentar mais. 

Em duas jogadas do atacante do Chelsea, De Rossi deixou sua posição e a Esoanha quase virou. Na primeira, Buffon precisou dar uma de zagueirou: Itália errou linha de impedimento, com De Rossi, e Torres ia saindo na cara do gol, obrigando o capitão a deixar o gol e, com os pés, mandar para lateral. Aos 40, De Rossi saiu mal no combate, deixando Torres livre. Porém ele tentou encobrir Buffon e colocou para fora. Antes, a Itália quase marcou, outra vez com Di Natale.Giovinco – que havia substituído Cassano – descolou lindo lançamento para Di Natale, que pegou mal no voleio e mandou para fora. Aos 43, Marchisio tabelou bem com Thiago Motta, mas chutou fraco.

No fim das contas, a Itália sai fortalecida do confronto, apesar do empate, com a vitória tática de Prandelli sobre Del Bosque. O resultado mostra ainda que o técnico da Nazionale pode apostar mais vezes neste esquema, com três zagueiros, ao invés de tentar um esquema com três atacantes, que se mostrou exposto demais, na derrota contra a Rússia, ou o improdutivo 4-3-1-2, que não deu certo quando Montolivo foi o trequartista, pela dificuldade de criação de jogadas e de marcar gols. As dúvidas agora são no ataque, setor no qual Balotelli parece ameaçado, pela displicência, sobretudo em comparação à eficiência de Di Natale. Já Cassano jogou bem, mas Giovinco parece mais inteiro.

Notas

Buffon, 7 – Seguro no gol, fez uma defesa importante e ainda evitou gol de Torres agindo como zagueiro

Bonucci, 6,5 – Mais seguro que de costume, concedeu pouco e só começou a ter trabalho quando Torres entrou em campo

De Rossi, 6,5 – Impecável no primeiro tempo, cometeu três erros no segundo; um deles originou o gol espanhol

Chiellini, 6,5 – A entrada de Navas e a exaustão de Giaccherini o obrigaram a se expor demais, mas foi bem

Maggio, 6 – Ficou muito preso à marcação de Iniesta, perdeu o duelo para o meia do Barcelona e compunha setor mais vulnerável da equipe

Thiago Motta, 6 – Chegou bem ao ataque, mas teve dificuldade em coibir a centralização de jogadas espanhola

Pirlo, 7 – Termômetro da Itália, fez um jogo apenas regular, mas deu passe magistral para o gol

Marchisio, 5,5 – Apagado desde o fim da temporada, precisa acordar para que a Itália sonhe mais alto; marcou bem, mas contribuiu pouco ofensivamente

Giaccherini, 6 – Estreia regular do meia juventino pela seleção, com sacrifício pela equipe

Balotelli, 5 – Começou jogando bem, mas foi muito displicente ao perder ótima chance no segundo tempo

Cassano, 6 – Mesmo aparentemente fora de forma, se doou pela equipe no primeiro tempo, criando boas jogadas

Nocerino, sem nota – Entrou faltando apenas três minutos

Giovinco, 6 – Quando entrou, Itália levava sufoco, mas mesmo assim arranjou primoroso passe que poderia ter terminado em gol de Di Natale

Di Natale, 7 – Dois toques na bola, um gol e um voleio perigoso, mas para fora: eficiente

Ficha técnica: Espanha 1-1 Itália
Local: PGE Arena Gdansk, Polônia
Arbitragem:Vikot Kassai (Hungria)
Espanha: Casillas; Arbeloa, Piqué, Sergio Ramos, Jordi Alba; Xavi, Busquets, Xabi Alonso; Silva (20′ 2T Navas), Fàbregas (28′ 2T Torres), Iniesta. Técnico: Vicente Del Bosque.
Itália: Buffon; Bonucci, De Rossi, Chiellini; Maggio, Motta (44′ 2T Nocerino), Pirlo, Marchisio, Giaccherini; Cassano (20′ 2T Giovinco), Balotelli (11′ 2T Di Natale). Técnico: Cesare Prandelli.

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