Serie A

No sufoco, de novo

Pirlo é cercado por três ingleses: de nada adiantou, o regista azzurro deitou e rolou em Kiev (Getty Images)
Se a classificação para as quartas de finais da Euro 2012 veio com muito suor e emoção, o embate contra os ingleses não foi diferente. Mas ao contrário do que foi apresentado frente aos irlandeses comandados pelo velho Giovanni Trapattoni, o time de Cesare Prandelli se comportou muito bem em campo nesse domingo na capital ucraniana, Kiev. O estilo de jogo, de muita posse de bola através de passes curtos, deu gosto de ver, apesar da falta de gols. A Itália teve 64% de posse de bola e trocou 815 passes. Andrea Pirlo, dono do jogo, deu 117 desses passes, além de correr mais de 15 quilômetros e não ter cometido uma falta sequer. De quebra, ainda foi decisivo nas penalidades.
Após 15 minutos de pressão sofrida e muitas deficiências apresentadas nas laterais e no trabalho do meio-campo, a equipe fez alguns ajustes e entrou de vez no jogo. Com um surpreendente Montolivo – com o mesmo posicionamento do período pré-Euro, sendo o “1” do 4-3-1-2, mas sem se caracterizar como trequartista, e muito mais como interno -, um motivado De Rossi novamente no meio-campo e um inspirado Pirlo, a Squadra Azzurra teve amplo domínio no setor, superando a estratégia de Roy Hodgson.
E com o domínio do meio-campo, logicamente as oportunidades de gol aumentaram. Por encontrar certa dificuldade em chegar tocando na área inglesa, Pirlo e seus companheiros logo perceberam a deficiência do English Team: o mau posicionamento da primeira linha do 4-4-1-1 de Hodgson. Com lançamentos seguidos de lançamentos, várias chances foram criadas pelos pés do camisa 21 italiano, e também por Montolivo e De Rossi. E essas chances foram desperdiçadas na mesma intensidade – sem contar com um ligado Hart na meta adversária.
Somente no primeiro tempo foram 10 finalizações, quase todas vindas dos pés de Balotelli e Cassano, que participaram muito bem do jogo, brigando com os zagueiros ingleses e se movimentando bastante, mas pecaram muito no momento crucial, o de marcar o gol – especialmente o atacante do Manchester City, mostrando certo preciosismo, como contra a Espanha. Mas a melhor chance surgiu logo no início, em um fabuloso chute com muito efeito, saído dos pés de De Rossi, que explodiu na trave de Hart. A Inglaterra respondeu logo depois, com sua melhor chance, mas a finalização de Johnson encontrou o corpo de Buffon, que se esticou como um gato para defender em dois tempos.
A segunda etapa começou no mesmo ritmo da primeira, com o time de Prandelli dominando o meio-campo e criando muitas oportunidades de gol, e desperdiçando todas. Passada a pressão italiana, a partida caiu de rendimento, mesmo com as mexidas de Hodgson (Walcott e Carroll entraram nos lugares de Milner e Welbeck), que por sua vez se preocupava mais em anular o meio-campo adversário que propriamente atacar, e quando o fazia, encontrava em Buffon, Barzagli e Bonucci – esse muito seguro -, um grande paredão bianconero.
Prandelli demorou a notar que seu time já não mais funcionava e somente nos minutos finais do tempo regulamentar tirou os exaustos De Rossi e Cassano, promovendo as entradas de Nocerino e Diamanti. No 4-3-2-1, ainda teve tempo para levar perigo à Hart, e claro, perder uma infinidade de gols. O 0 a 0 se manteve, e na prorrogação a Itália seguiu pressionando, pelo menos nos primeiros 15 minutos, explorando o cansaço inglês com Diamanti e Maggio (que entrou no lugar de Abate no finalzinho do tempo normal). Os dois jogavam pela direita, e o trequartista do Bologna novamente foi muito participativo – e mostrou-se digno até de titularidade.
Já nos 15 minutos restantes, poucas chances foram criadas, especialmente pelo cansaço de ambos os times, entretanto a Nazionale ainda tratou de perder três ótimas chances com Diamanti (2) e Montolivo, sem contar uma incrível sequência, na qual Hart defendeu um chute à queima-roupa de Balotelli e, no rebote, Montolivo, outra vez, colocou por cima do gol. A Itália também teve gol de Nocerino bem anulado pela arbitragem. Com isso, zero no placar, penalidades em Kiev.
Mario Balotelli abriu a contagem, batendo muito bem, diferentemente do que fez nos 120 minutos com a bola rolando, quando finalizou 10 vezes, sendo 4 com ótimas condições de marcar. Entre os ingleses, o líder e motor do time Steven Gerrard não fez diferente, vencendo Buffon. Na vez de Montolivo, claramente cansado, o novo regista do Milan bateu para fora. Wayne Rooney, na sequência, tratou de colocar seu time na frente.
Então foi a vez do grande personagem do jogo entrar em ação e mudar completamente o andar da disputa. De cavadinha, Andrea Pirlo teve calma e um “pouco” de loucura para esperar Hart cair e empatar. O feito de Pirlo – com tons de genialidade – pareceu ter mexido com os ingleses, que na sequência viram Ashley Young acertar o travessão e Antonio Nocerino converter sua penalidade, colocando a Azzurra em vantagem novamente. Na vez de outro Ashley, agora o Cole, Buffon, gigante, agarrou a cobrança do lateral blue. E para sacramentar e justificar a ótima atuação italiana, Alessandro Diamanti definiu.
Agora é contra a Alemanha, a invicta e fortíssima Nationalelf, em um dos maiores clássicos do futebol mundial. A tarefa não será fácil para o time de Prandelli, como nunca foi – mas também não será fácil para os germânicos, que nunca venceram a Nazionale em uma competição oficial. Acostumada a superar momentos de crises e calar a crítica, esse é o momento de a Itália reaparecer no cenário europeu. Para isso, o comandante italiano e seus comandados terão de fazer o que deixaram de fazer contra a Inglaterra: aproveitar as oportunidades e marcar gols. Ao menos, a sorte parece estar ao lado: foi apenas a terceira vez na história que a Itália venceu uma disputa de pênaltis – as outras duas foram na semifinal da Euro 2000, contra a Holanda, e na final da Copa do Mundo de 2006, contra a França.

Notas
Buffon, 8 – Gigante novamente, foi decisivo ao fazer uma defesa espetacular logo no começo do jogo e, claro, a defesa na última cobrança inglesa na disputa por pênaltis.
Abate, 5 – Mais do mesmo. Seguro na defesa, nulo no ataque, participando muito pouco das ações ofensivas.
Barzagli, 6 – Frente a uma Inglaterra pouco criativa, não teve problemas e manteve sua média de atuações seguras.
Bonucci, 7 – Surpreendendo a muitos, o beque bianconero foi muito bem quando exigido.
Balzaretti, 6,5 – Apesar da fraca temporada no Palermo, o terzino sinistro mais uma vez se sobressaiu no ataque. Mesmo cansado, ainda levou perigo no final. Entretanto, deu muito espaço nos minutos iniciais para Milner e Johnson.
Marchisio, 5 – Apático. Destoando das grandes exibições de seus parceiros de meio-campo, pouco fez, mesmo tendo espaço para atacar.
Pirlo, 9 – O grande craque da Itália na Euro mostrou grande exibição. Soube aproveitar muito bem o espaço que teve para executar seus sempre precisos passes e lançamentos. E ainda desequilibrou com uma cobrança magistral nas penalidades.
De Rossi, 8 – Outro que faz grande Euro até aqui. Foi essencial no combate pelo meio, com precisos desarmes e também auxiliou o ataque, chegando até mesmo acertar a trave logo no início.
Montolivo, 6,5 – Uma boa exibição com a bola rolando, surpreendendo, até, já que vinha mal com a camisa azzurra. Mas quase custou a classificação ao perder o pênalti.
Cassano, 6,5 – Mais um bom primeiro tempo, participando das jogadas com sua técnica, mas desperdiçou boas chances, e cansado, caiu no segundo tempo.
Balotelli, 6,5 – Poderia ter levado nota maior se não fossem seus lances de preciosismo, desperdiçando muitas chances. Muito participativo e abriu a contagem na disputa por pênaltis.
Maggio, 6 – Entrou já no final do jogo e conseguiu fazer mais que Abate, mas pouco ainda. Levou amarelo e está fora da semifinal.
Nocerino, 7 – Deu um novo gás ao meio-campo e ainda levou perigo numa de suas infiltrações, que por pouco não resultou em gol, sendo travado. Merecia uma vaga nos 11 com as fracas exibições de Marchisio.
Diamanti, 7,5 – Outro que faz por merecer uma vaga no time titular, colocando fogo no jogo ao entrar na segunda etapa. Definiu a classificação italiana às semifinais. 

Ficha técnica – Inglaterra 0-0 Itália; 2-4 nos pênaltis
Local: Estádio Olímpico de Kiev, Ucrânia
Árbitro: Pedro Proença, de Portugal
Gols/Penalidades: Balotelli (0-1), Gerrard (1-1), Rooney (2-1), Pirlo (2-2), Nocerino (2-3) e Diamanti (2-4)
Cartões amarelos: Barzagli e Maggio (Itália) 

Inglaterra: Hart; G. Johnson, Terry, Lescott, A. Cole; Milner (Walcott, 61’), Gerrard, Parker (Henderson, 94’), A. Young; Rooney; Welbeck (Carroll, 60’). Técnico: Roy Hodgson
Itália: Buffon; Abate (Maggio, 90’+1), Barzagli, Bonucci, Balzaretti; Marchisio, Pirlo, De Rossi (Nocerino, 80’); Montolivo; Cassano (Diamanti, 78’), Balotelli. Técnico: Cesare Prandelli

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