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As agonias da estrela solitária italiana

À primeira visita, qualquer brincalhão poderia chamar o Casale de “Botafogo italiano”. A semelhança, claríssima, está na estrela solitária no peito da camisa negra dos dois clubes – no caso do time do Rio de Janeiro, alvinegra. O Casale, assim como o Botafogo, é uma equipe tradicional de uma das regiões mais ricas de seu país. Quando o futebol ainda era semiamador na Itália, na temporada 1913-14, foi uma das primeiras campeãs da Serie A. Porém, há tempos passa por dificuldades e pena em divisões inferiores. Para esta temporada, teve a inscrição negada, por falta de garantias financeiras, na Lega Pro Seconda Divisione, equivalente à quarta divisão do futebol italiano.

Ao contrário do Botafogo, que foi fundado em uma das maiores metrópoles brasileiras, a equipe nerostellata é da pequena Casale Monferrato, cidadezinha da província de Alessandria, localizada no Piemonte, do rico norte italiano. A cidade tem cerca de 35 mil habitantes e, desde a época que o clube conquistou o scudetto, nunca teve grandes surtos populacionais – apenas na década de 1960, chegou a incríveis 43 mil habitantes: hoje, tem apenas dois mil habitantes a mais que em 1914. Até hoje, Casale Monferrato é a segunda menor cidade do Belpaese a ter uma equipe campeã da Serie A. A menor é Novi Ligure, de cerca de 28 mil habitantes, casa da Novese, que venceu o título em 1921-22, em um campeonato que foi boicotado pelas maiores equipes à época – estas fizeram um campeonato extraoficial, vencido pela Pro Vercelli.

A glória e o ocaso

Foto histórica: aí estão os 11 jogadores que levaram os nerostellati ao scudetto (Wikipedia)

Fundado em 1909, o Casale participou da Serie A pela primeira vez em 1911-12. Logo entrou no rol do chamado “quadrilátero piemontês”, que reunia as quatro potências do Piemonte Oriental daqueles anos, ao lado de Novara, Alessandria e a forte Pro Vercelli – àquela altura já tricampeã nacional. Em 1913-14, o solitário título da agremiação chegou de forma fortuita. Primeiro, o time se classificou na fase regional, juntamente com o Genoa, em um grupo que tinha equipes do Piemonte e da Ligúria, eliminando Pro Vercelli, Torino e Alessandria. Por um arranjo político, já que era o primeiro ano que piemonteses e lígures jogavam em um grupo só (antes, equipes da Ligúria jogavam no mesmo grupo que as equipes da Lombardia, como Inter e Milan), Juventus e Novara, piemontesas, acabaram sendo inscritas no grupo lombardo.

O segundo grande feito da equipe foi vencer a segunda fase de grupos, que reunia as vencedoras dos grupos das províncias do norte. Com 16 pontos, os nerostellati superaram Genoa, Inter, Juventus, Vicenza e Verona, garantindo o direito de enfrentar a Lazio, que havia sido campeã do torneio “peninsular”, entre equipes do centro-sul do país.

A equipe formada por Gallina (I), Maggiani, Scrivano, Rosa, Barbesino, Parodi, Caire, Mattea, Gallina (II), Varese e Bertinotti já estava na história antes das finais, disputadas nos dias 5 e 12 de julho em ida e volta.  Os jogos aconteceriam em clima de guerra, já que no dia 26 de junho, o nacionalista sérvio Gavrilo Princip assassinara o rei austro-húngaro Francisco Fernando, em Sarajevo, desencadeando um dos estopins da I Guerra Mundial, que iniciaria oficialmente no dia 28 de julho de 1914.

Em Casale Monferrato, que ainda não vivia de perto os efeitos da guerra, no jogo de ida, no campo de Viale Priocco, em Casale Monferrato, o time da casa destruiu os laziali, aplicando um sonoro 7 a 1 – seis dos gols aconteceram no segundo tempo. Os herois foram Varese e Ravetti, que substituia Caire, com dois gols cada. Na partida de volta, em Roma, Ravetti e Varese marcaram de novo, sagrando o improvável título estrelado. As fichas e os resumos dos jogos, em italiano, podem ser acessadas aqui e aqui.

Alguns daqueles jogadores, como Varese, Barbesino e Mattea, chegariam a vestir a camisa da seleção italiana no período. Varese ainda teria um brilhareco pelo Milan, na década de 1920, e Mattea jogaria pela Juventus – e, depois, seria vice-treinador na conquista do outro olímpico pela Itália em 1936, na polêmica Olimpíada de Berlim, disputada sob o signo do nazifascismo e às vésperas da II Guerra Mundial.

A partir de 1922, a equipe teria algum momento de destaque por conta de um destaque individual. Filho da terra, o lateral Umberto Caligaris iniciou sua carreira em 1919, no Casale, onde ficou até 1928, quando saiu para vestir a camisa da Juventus. Porém, desde 1922, era presença constante nas convocações da Nazionale e chegou a ganhar o bronze nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928. Depois, fez parte do elenco que conquistou a Copa do Mundo de 1934, primeiro título mundial da Squadra Azzurra. Com 59 jogos pela seleção, 16 como capitão, Caligaris ainda ostentou o posto de jogador a mais vezes ter entrado em campo pela Nazionale até  1971, quando foi superado por Giacinto Facchetti. Se o filho da terra teve grande carreira, o Casale, porém, nunca teria qualquer grande glória como equipe. Na elite do futebol nacional, o melhor resultado após o título foi uma classificação às semifinais do campeonato de 1919-20.

A ausência de crescimento de Casale Monferrato, aliada a falta de uma forte indústria (a cidade é conhecida como grande produtora de cimento e amianto, apenas, e as grandes empresas estão em cidades próximas), de investidores e, principalmente, do remodelamento feito pela Federação Italiana de Futebol, que implementou o profissionalismo no país, a partir de 1925, fez com que o clube estagnasse e acabasse relegado ao semiamadorismo. Em uma época em que ser campeão italiano significava pouquíssimo, o clube não seguiu no embalo do profissionalismo e, desde que caiu para a Serie B em 1933-34, nunca mais retornou à elite. Desde 1946-47, quando jogou a Serie B pela última vez, perambulou apenas pelas terceira, quarta e quinta divisões do futebol italiano.

O fundo do poço?

Os anos passaram e o Casale continuava mal das pernas. Além de não conseguir sair das divisões inferiores e retornar aos principais palcos do futebol italiano, o time pouco ganhava com a negociação de jogadores. Com uma divisão de base pobre, a revelação de algum atleta de calibre ou, ao menos, de algum valor técnico suficiente para uma negociação vantajosa não aconteceu ao longo dos anos. Sendo apenas mediano em campo, na antiga Serie C2, mas afundado em dívidas, em 1993 a equipe optou por declarar falência e começar de novo a partir do amadorismo. Três anos depois, retornou ao profissionalismo, depois de vencer a Eccelenza piemontesa (equivalente à sexta divisão) para retornar à Serie D.

Nos anos seguintes, a equipe continuou um verdadeiro ioiô, mas já conseguia trazer alguns jogadores de… renome. Renome ao menos para um clube que militava nas filas do semiamadorismo. Pelo clube nerostellato passaram jogadores do calibre do ganês Abdullah Fusseini, do beninês Damien Chrysostome e do estoniano Sergei Pareiko – todos eles com passagens pelas seleções de seus países enquanto jogavam pelo Casale. Chrysostome chegou com a bagagem de já ter jogado uma Copa Africana de Nações pela seleção do Benim e, em 2008, disputou outra enquanto era jogador alvinegro. Pareiko, por sua vez, é conhecido dos brasileiros. Ele, que jogou no clube entre 1998 e 1999, foi titular da seleção da Estônia em amistoso vencido pelo Brasil, em Talinn, por um magérrimo 1 a 0. A equipe treinada por Dunga, naquele agosto de 2009, se preparava para dar vexame na Copa do Mundo seguinte.

Em 2006-07, a equipe parecia dar a volta por cima depois de ter vivido uma enorme provação: conduzida pelo atacante ítalo-nigeriano Osarimen Ebagua (que passaria por Varese, Torino e, na última temporada, pelo Catania, na Serie A), se classificou aos play-offs de acesso à Serie C2 e bateu seis equipes – entre elas, a sugestiva Sibilla El Brazil Cuma, que, de acordo com a Wikipedia, fez história na Promozione da província de Nápoles, equivalente à sétima divisão – mas nem assim conquistou o acesso. A FIGC decidiu não subir equipe alguma à C2 e pagou uma indenização ao clube. A indenização, no mínimo, serviu para que o clube segurasse as pontas por algum tempo.

Você pode não acreditar, mas esta foto é de um jogo oficial entre duas equipes campeãs italianas. Em 2009, o Casale enfrentou o Novese, campeão em 1921-22, pela Serie D (Casale Calcio)

Em 2007-08 e 2008-09 aconteceriam os jogos mais insólitos entre equipes campeãs italianas. Após muito tempo sem se enfrentarem, Casale e Novese colocavam, em um campo de bairro, para públicos inferiores a mil pagantes, dois títulos da Serie A. No primeiro ano, o Novese venceu as duas partidas (1 a 0 e 3 a 0), enquanto no segundo, o Casale respondeu (2 a 0 e 4 a 0). A imagem acima, retirada da mais sonora goleada nerostellata sobre a “rival”, representa bem o nível amadorístico de toda a coisa. No final de tudo, o Casale fez duas boas temporadas, mas só conseguiu o acesso à Lega Pro Seconda Divisione (equivalente à antiga C2) em 2010-11.

Os tempos de vacas mais gordas pareciam estar retornando a Casale Monferrato. Entre os destaques do time, estavam o meia cubano Samon Reider Rodríguez, formado pela Juventus e emprestado pela Bassano Virtus. Rodríguez, de 23 anos e nascido em Guantánamo, só não faz parte da frágil seleção de Cuba por não viver mais na ilha. Para a última temporada, o Casale fechou com o atacante Riccardo Taddei, ex-Fiorentina e Brescia, uma das maiores contratações do clube em sua história. Com ele, o time lutou pelo acesso à Prima Divisione até o fim. Com a quarta colocação, a equipe teve de jogar o play-off com a Virtus Entella, mas acabou derrotada.

Para este ano, Taddei não continuará (foi para o Rimini) e a inscrição na Seconda Divisione foi negada pelo comitê financeiro da divisão, já que as dívidas continuam rondando a equipe piemontesa. A diretoria do clube apresentou recurso no dia 16 de julho, mas o processo ainda não foi a julgamento. Algum investidor tentará reanimar o Casale e solucionará mais um problema ou, afinal, a estrela solitária voltará, novamente, a ser uma estrela cadente?

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