Extracampo

Nas caixas de som de Trigoria

Uma das maiores preocupações dos americanos que compraram a Roma foi renovar o marketing do clube. O site oficial, por exemplo, clamava por atualizações desde quando o ICQ saiu de moda – e não é exagero. Desenvolvido por Rômulo quando assassinou Remo, não tinha nada para fazer e decidiu aprender diagramação, a página foi restaurada e busca manter uma interação maior com torcedores e curiosos. Daí surgiu o As Roma Music Playlist, seção em que comissão técnica e atletas romanistas compartilham suas músicas preferidas, compráveis via iTunes. Basicamente, é isso que os jogadores colocam no fone auricular quando Zdenek Zeman acende um cigarro e começa a discorrer sobre suas ideias de jogo e futebol utópico.

Pablo Daniel Osvaldo, o Johnny Depp, deu pontapé inicial na brincadeira: com esse visual de já fui fotografado no Sartorialist, o mais provável seria uma lista de bandas que ainda nem existem, conjuntos lembrados pelo “esforço conceitual”, mixtapes da Warp Records e uma b-side que o David Byrne nem lembra de ter gravado com um grupo de percussionistas malaios. Mas que decepção!, O ítalo-argentino é somente aquele tio simpático que quando perguntam “de que tipo de música você gosta?”, responde rock; e quando perguntam “que tipo de rock?”, responde roll.

Osvaldo: “Joguei no Espanyol porque o Barcelona era muito mainstream” (TheOffside.com)

Interessantes as inclusões de Joaquín Sabina, o Bob Dylan espanhol, e Leonard Cohen, o Leonard Cohen canadense. A escolha criativa certamente ficou nesse cover de Los Chunguitos executado ao vivo por Manu Chao. De resto, só músicas mais iconizadas que o Totti. Se a Roma organizasse uma festa com os jogadores discotecando, Nico López seria o cara com camisa dobrada quase no ombro e óculos escuros, xingando Osvaldo gratuitamente e dizendo “isso não é música de festa!”, logo após aumentar o volume com ‘Danza kuduro’ e uma música do Gusttavo Lima, quem eu não conhecia e sinto ter batido minha alma na quina da mesa.

Enquanto Osvaldo ainda simularia o solo de ‘Nothing else matters’ com olhos semicerrados, López já estaria sobre a mesa, dançando, claro, ‘Ai se eu te pego’. Por incrível que pareça, até que as outras músicas não são ruins – ou são, mas não desenvolvo esse tragicômico preconceito por proximidade. ‘Celeste‘ é um tributo à Seleção Uruguaia, e ‘Cielo de un solo color‘, do No Te Va a Gustar, é particularmente bonita. Por sua vez, Alessandro Florenzi, sensação da Roma nesta temporada, lidera a comissão “vamo valorizzare”, soltando o melhor do pop italiano contemporâneo. Luciano Ligabue, Jovanotti, Negramaro e Renato Zero estão lá, acompanhados por Robbie Williams, Michael Bublé e um deslocado porém valorizável Public Enemy.

Mattia Destro desembarcou em Roma no verão e, com ele, um summer hits mundial. Em sua lista figuram um single do último disco do Coldplay, Rihanna com Calvis Harris, Jennifer Lopez e Modà, que liderou as paradas na Itália com seu álbum mais recente. Curiosamente, ‘Endless summer‘, tema da Euro 2012, também está lá. E Destro foi cortado da lista final da Euro. Por isso dizem que a melhor maneira de encarar traumas é falar abertamente sobre eles!

Não queria ser o cara que relaciona Amsterdã com drogas e ainda acha isso engraçado, mas a playlist de Maarten Stekelenburg poderia tranquilamente ser classificada como eletro-metanfetamina. Enquanto redijo este texto, balanço a cabeça desenfreadamente, rasgo minha camiseta, grito com minha mãe e não tiro os olhos do teto do meu quarto, sem piscar. Quando me dou conta, estou dando em cima da televisão e já liguei para minha ex-namorada 74 vezes. Se acha que estou exagerando, dê o play aqui e aumente o volume até alguém te mandar trabalhar. ‘Free fallin‘, cover do Tom Petty, é tão somente aquilo que o goleiro holandês ouve em ressaca.

Para tranquilizar tudo, chega Nicolás Burdisso, o pop consciente, o argentino indie y me voy, com Foo Fighters, o primeiro disco do Radiohead, o último do Verve, Red Hot Chili Peppers e Audioslave: nada puxado demais, nada tão óbvio assim. ‘Jeremy‘ para lembrar a adolescência grunge em Córdoba; My Morning Jacket e Pink Floyd surgem em momentos de introspecção, ao passo que The Kooks lhe serve para puxar assunto com garotas mais novas. Não há nada hispânico, embora ‘Shadow of the day‘ provavelmente tenha chegado a seus ouvidos por intermédio de algum primo adolescente que passou férias em sua casa. Aquela atitude ríspida em campo, aquela seriedade truculenta, nada disso reflete no iPod (preto, sem capinha, “sóbrio”, com tela de proteção) do zagueiro romanista.

Boa parte do staff já divulgou suas listas, incluindo Walter Sabatini, Franco Baldini e o novo presidente James Pallotta, mas a brincadeira segue outro dia, porque Zeman já parou de falar.

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