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Pioneirismo de Rodolfo Volk na Roma não lhe poupou do ostracismo

Em giallorosso, Volk foi o primeiro em tudo: a marcar no Campo Testaccio, a marcar em dérbis contra a Lazio e a chegar aos 100 gols com a camisa da Roma. Mesmo assim, morreu sem reconhecimento

Chuta!, chuta!, eles gritavam. A torcida visitante era maioria no estádio do rival. Era impressionante como aquele atacante, que chegou no ano anterior, caíra nas graças dos torcedores. Muito por conta, é claro, do gol marcado no mês anterior, na abertura do Campo Testaccio. Chuta!, chuta! E ele chutou. Rodolfo Volf marcou o tento solitário da primeira vitória romanista ante a Lazio, no Rondinella. Os pedidos da torcida combinavam com a máxima do goleador, que dizia “Eu não penso, eu chuto”. E como chutava.

O jogador de Fiume (Rijeka, atualmente cidade da Croácia, mas antes de posse italiana) começou a jogar em clubes pequenos, na região de sua cidade natal. Ele passou por Juventus-Enea, Savoia Fiume e Gloria Fiume antes de chegar na Fiorentina. Uma vez na Itália fascista, teve de italianizar seu sobrenome, uma prática obrigatória instituída do governo ultranacionalista de Benito Mussolini. Tornou-se “Folchi”.

Em Florença, em 1926, ele teve de usar um pseudônimo (Bolteni) para jogar pela viola na Prima Divisione (segunda divisão), em uma partida contra a Sampierdarenese, agremiação que se tornaria a Sampdoria, anos depois. De forma contrária a seus colegas, Volk não havia entrado no serviço militar obrigatório na Itália e queria evitar problemas com o Exército – à época, qualquer atividade extramilitar era proibida e mesmo os jogadores tinham a dupla função esportiva e bélica. Marcou 11 gols em 14 jogos pela equipe florentina e retornou à sua cidade para defender a Fiumana, que também jogava a segunda divisão. Fez 16 gols em 16 jogos, ajudando a equipe a atingir a máxima série do futebol italiano.

Volk chegou ao grande desafio de sua carreira no ano seguinte, 1928. Contratado pela Roma, recém-formada (a equipe nasceu em 1927, após a fusão entre Alba Audace, Fortitudo Pro Roma e Roman), mal poderia esperar que viraria ídolo. Aquela temporada, a de 1928-29, não poderia começar de forma melhor tanto para o jogador como para a equipe: vitória na estreia contra o Legnano por 4 a 1, com gol de Volk. A sua primeira tripletta veio contra o Prato, em partida finalizada em 4 a 0. No fim da temporada, após 24 gols de Volk, a Roma terminou o campeonato na 3ª posição, sua melhor colocação em um campeonato nacional até o momento. Já nas graças da torcida, acabou apelidado de Sigghefrido, variação romanesca para fazer a alusão a Siegrifed, herói lendário da mitologia nórdica.

A Serie A foi inaugurada na época seguinte. Sob comando de Herbert Burgess, sucessor de Guido Baccani, a Roma marcou 73 gols na temporada, e Volk foi o autor de 21 deles. Dois jogos marcaram aquele ano. O primeiro foi em novembro: a vitória por 2 a 1, também com Volk entre os marcadores, foi na partida que abriu o Campo Testaccio, estádio utilizado pelo time da capital até junho de 1940. No mês seguinte, Lazio e Roma se enfrentaram pela primeira vez na história. No Rondinella, casa laziale, Volk deu a vitória aos giallorossi, muito comemorada pela resistência socialista ante às camadas mais ricas (representada pela Lazio, na Itália fascista). Na época, Volk recebeu cinco convocações para a seleção B da Itália e marcou cinco gols. Porém, nunca atuou pela Nazionale principal.

Em 1930-31, a Roma conseguiu ser vice-campeã da Serie A. Volk, exímio goleador mesmo com pífia técnica com a bola nos pés, foi o artilheiro do campeonato, com 29 gols, tornando-se o primeiro romanista a obter a glória em toda a história. A equipe viu à sua frente apenas a Juventus de Combi, Caligaris, Orsi e Cesarini. Um de seus gols na competição, contra o Bologna, em casa, foi gravado em vídeo, algo incomum para a época. Enquanto o staff técnico mudava durante as temporadas – Janos Barr entrou no lugar de Burgess, na época seguinte -, a Roma permanecia em posições intermediárias na tabela. Isso, no entanto, não deixava Volk menos motivado nem menos artilheiro: foram 17 gols marcados entre 1931 e 1932.

Sua pior participação individual pela Roma aconteceu em 1932-33. Volk marcou somente 12 tentos em 30 partidas. Janos Barr se tornou o primeiro treinador a cair após o Derby della Capitale. A vitória laziale, com gols dos brasileiros De Maria e Castelli, ambos ex-Corinthians, derrubou o comandante da Roma. Para seu lugar veio o compatriota húngaro Lajos Nems Kovács, que conseguiu a promoção à primeira divisão do Padova, no ano anterior, e venceu uma Coppa Mitropa com o Bologna. Ao fim da temporada, a Roma se viu na 5ª colocação geral da Serie A.

Volk deu adeus a Roma em 1933, com 103 gols marcados em 157 partidas, e até hoje é o terceiro maior artilheiro da história da equipe e o quinto romanista com mais gols na Serie A (75). Sua nova casa seria o Pisa, que jogava a terceira divisão. Volk levou o time da cidade à segundona, após ótima participação na Prima Divisione. Sigghefrido, no entanto, se manteve nas categorias de futebol mais baixas da Itália. Ele trocou o Pisa pela Triestina e retornou à Serie A para fazer apenas cinco jogos.

Na sequência, voltou a sua cidade natal para defender a Fiumana por sete anos. Continuou marcando gols e viu nascer no vivaio da equipe o futebol de Ezio Loik, habilidoso meio-campista que brilharia pelo Grande Torino da década de 1940. Antes de encerrar a carreira, Volk ainda jogou por ROMSA, Proleter Fiume e Montevarchi.

O terceiro maior artilheiro da história da Roma ainda trabalhou como porteiro em uma casa lotérica e morreu em 1983, vítima de problemas no coração, em uma casa de repouso em Nemi, terra de castelos medievais próximo à capital. Ele faleceu como um qualquer, na miséria. Pouquíssimas pessoas foram ao seu funeral. Em sua pequena casa, Volk guardava com carinho – e mostrava com brilho nos olhos – a quem lhe perguntasse sobre as histórias daqueles recortes de jornal em preto-e-branco grudados na parede. Imagens de tantos de seus gols, pois foram quase 200 na carreira.

Rodolfo Volk
Nascimento: 14 de janeiro de 1906, em Fiume (atualmente Rijeka, na Croácia)
Morte: 2 de outubro de 1983, em Nemi
Posição: atacante
Clubes: Juventus-Enea (1924), Savoia Fiume (1925), Gloria Fiume (1925-26), Fiorentina (1926-27), Fiumana (1927-28 e 1935-42), Roma (1928-33), Pisa (1933-34), Triestina (1934-35), ROMSA (1945-46), Proleter Fiume (1946-48) e Montevarchi (1948-49)
Seleção: Cinco partidas e cinco gols pela Itália B

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