Serie A

Força jovem

Não há febre faraônica. Mas El Shaarawy é apenas um dos muitos jovens que começam a fazer sucesso na Itália mergulhada em crise financeira (foto: AFP)

Lucas, Neymar e Bernard são colírios para os olhos dos brasileiros. Pelo futebol jogado, certamente. No Brasil existe uma certa facilidade para os jovens atletas atuarem nas equipes profissionais. Na Itália não é bem assim. Ou melhor: nem sempre foi assim. Em 2006, por exemplo, um baixinho de nome Sebastian Giovinco foi campeão da Copa Viareggio com a Juventus. Rápido, arisco e muito técnico, chegou com pompa ao time de cima. Não é necessário lembrar que o Formiga Atômica rodou por quatro anos até se firmar no Parma e aí, sim, retornar a Turim, já aos 25 anos.

Na atual edição da Serie A, 120 jogadores com menos de 23 anos já ganharam chances em suas equipes. O artilheiro do campeonato, aliás, é Stephan El Shaarawy, de 20. A mentalidade dos chefões na Bota teve de mudar muito por conta da crise financeira na Europa. E os clubes têm colhido frutos desta, digamos, “audácia”.

Por favor, me explique

Audácia porque os times italianos custavam a confiar em suas jovens promessas. Contra o Groningen, dias antes do Natal, o Feyenoord conseguiu uma vitória por 2 a 1, com gol de Graziano Pellè. Ele somara seu 14º tento em 13 partidas. O atacante italiano surgiu no Lecce que venceu dois campeonatos Primavera e uma Coppa Italia Primavera, no início dos anos 2000. Estreou na Serie A em 2004, com 18 anos, mas não marcou gols nem na primeira divisão nem na Serie B, quando foi emprestado ao Catania. Nunca vingou na Itália, mas teve poucas chances antes de emplacar na Holanda.

Giuseppe Rossi foi vendido ainda como juvenil ao Manchester United, mas retornou ao Parma por empréstimo e com a missão de salvar seu clube do rebaixamento. A reação parmense foi sensacional graças ao atacante, porém, nenhum dirigente italiano fez proposta por Rossi, que se mandou para o Villareal por 10 milhões de euros.

A Copa Viareggio sempre apresenta futuros valores ao futebol. Pegaremos a de 2008 como exemplo. A Juventus tinha Ariaudo, Castiglia, Esposito, Marrone, Pasquato, Pinsoglio e Rossi. Destes, apenas Marrone continua na equipe e somente na temporada passada começou a ter chances como profissional. Darmian, Romagnoli, Ruggeri e Paloschi estavam na equipe do Milan. Paloschi está fazendo seus gols pelo Chievo, enquanto o clube rossonero tenta achar uma solução para o ataque. A Inter foi campeã daquela edição. Balotelli foi o destaque da equipe, que tinha outros jogadores bem interessantes, como Belec e Caldirola. 

Todos os anos, as equipes formam pelo menos dois ou três jogadores com condições de integrar seus elencos principais, mas o caminho desses jovens normalmente é serem emprestados para, teoricamente, ganhar rodagem em equipes menores e em divisões inferiores. Porém, mesmo as equipes de menor poder aquisitivo preferem apostar em medalhões que nem sempre correspondem em campo a dar chance à garotada.

Sempre foi mais fácil contratar do que formar e experimentar. Enzo Maresca que o diga: proveniente do West Bromwich Albion, chegou a Juventus em 2000 e, apesar de ser figurinha carimbada em todas as categorias de base da Squadra Azzurra, rodou a Itália e nunca se firmou. Ia e voltava a Turim, contudo, era sempre relegado à reserva (e posteriormente emprestado) de um jogador trazido do exterior. Imediatistas e conservadores, os dirigentes italianos preferem apostar em jogadores que já consideram “prontos”.

Sempre foi mais fácil contratar. Até ontem.

Olá, crise; tchau, craques
No início da época 2012-13, as transferências de Thiago Silva e Zlatan Ibrahimovic ao PSG pegaram muita gente desprevinida. O Milan, então, perdia seus dois principais jogadores uma temporada após a saída de Pirlo à Juventus. Marco Verratti, jovem cobiçadíssimo do Pescara, também preferiu se juntar ao rico clube da França ao invés de lutar por posição em Turim, local de maior especulação durante a pré-temporada. A Inter também passou por seu processo de renovação, despachando Júlio César, Lúcio… As equipes, sobretudo no norte do país, queriam, também, enxugar a folha de pagamentos.

Ibrahimovic foi negociado com o PSG por 24 milhões de euros (Foto: reprodução)

Grécia e Espanha foram os primeiros países a entrar no noticiário mundial. A crise na Europa não parou de crescer e atingiu a Itália, terceira maior economia da zona do euro. Em junho último, Maria Fekter, ministra de Finanças da Áustria, disse que o sistema bancário italiano poderia pedir resgate similar ao espanhol, o que levou à fúria o primeiro-ministro Mario Monti. A ideia, no entanto, era plausível: a taxa de títulos com validade de 10 anos chegou a 6,2% na Bota. A trajetória foi bem parecida ao valor cobrado da Espanha, em abril.

A região de Milão é conhecida como o Vale do Silício italiano, em menção à região superindustrializada californiana. As maiores empresas do país localizam-se por ali, entre a maior cidade da Lombardia e Turim, centro econômico do Piemonte, região vizinha. As coisas, porém, tem ficado apertadas na parte mais rica da Itália.

A multinacional do ramo eletrônico Jabil parou com suas atividades em dezembro de 2011, levando ao desemprego de muitos italianos. Há três anos a Nokia Siemens utilizava o espaço para montar seus celulares, mas a empresa finlandesa já estava de saída de Milão. A fuga de investimentos se deu, em grande parte, pela falta de mão-de-obra qualificada e os elevados custos de transporte. Ainda na Lombardia, a Mectex, do ramo têxtil, esteve próxima à bancarrôta. Em Údine, no Friuli, a ABS, uma das três maiores multinacionais de aço do mundo, cogitava migrar para a vizinha Croácia.

E a crise na economia influenciou no esporte. O vôlei foi um deles. O Conegliano, do Vêneto, perdeu o patrocínio em 2011 e teve de se reformular. O Crema, por sua vez, abandonou o campeonato feminino. No futebol, os clubes tiveram de se adaptar ao novo momento italiano. Quem se deu bem foram os jovens. O já citado El Shaarawy é uma das novas promessas italianas. Escolhido como o 53º melhor jogador do mundo pelo jornal inglês The Guardian, o Faraó, usando suas próprias palavras, “não teria tamanha evolução se Ibrahimovic não tivesse saído”. Permanecendo na Lombardia, Mattia De Sciglio mostrou estar em melhor fase que Ignazio Abate e segurou a lateral-direita do Milan em grande parte deste primeiro semestre de Campeonato Italiano. Dizem, na Itália, que ele é o melhor defensor rossonero que surgiu após Paolo Maldini.

El Shaarawy é só o início
El Shaarawy isso, El Shaarawy aquilo. O moleque de futebol ofensivo e com cabelo espetado tem chamado muita atenção, porque faz gol e decide os jogos a favor de sua equipe. Mas ele, e De Sciglio, como já citamos, são apenas dois nomes entre 120 jogadores sub-23 que atuaram entre agosto e dezembro de 2012. E o atacante nem é aquele que mais jogou…

Jonathan Rossini é um dos pilares da defesa da Sampdoria. O zagueiro de 23 anos atuou por 1715 minutos na Serie A 2012-13, segundo dados oficiais da Lega Serie A. O segundo jogador sub-23 que mais atuou também é defensor: Matteo Darmian (revelado em Viareggio pelo Milan, lembram?), do Torino, que jogou 1626 minutos. O goleiro do Pescara, Mattia Perin, é um dos melhores da posição na temporada. Ele só não jogou na 5ª rodada, contra o Palermo, pois foi expulso ante o Bologna – Pelizzoli começou como titular.

As (agora não mais) promessas têm vagas garantidas em outros clubes: são os casos de Múñoz e Morganella, no Palermo; Taïder, no Bologna; Immobile, no Genoa; Pereyra e Allan, na Udinese; Belfodil, no Parma; Paloschi, no Chievo; Florenzi e Destro, na Roma… Se de um lado temos os atletas que já tinham alguma história na Serie A, como Jovetic, na Fiorentina; Coutinho, na Inter; e Pato, no Milan, outros começaram a ganhar mais chances e se destacar – como Juan Jesus, que jogou apenas uma partida em 2011-12 e evoluiu demais com Andrea Stramaccioni ao ser deslocado para zagueiro-esquerdo, ao lado de Samuel e Ranocchia. 

Os estreantes na primeira divisão também tem se destacado. 50 jogadores tiveram a oportunidade de entrar em campo em 2012-13, entre eles Marquinhos, contratado pela Roma junto ao Corinthians. O zagueiro, que tem apenas 18 anos, não tem sua posição ameaçada de forma alguma e é um dos destaques da temporada. Lorenzo Insigne, do Napoli, já encanta a Itália desde 2010, quando começou no Foggia uma trajetória de sucesso. Cresceu no Pescara e, hoje, é uma das grandes apostas para o futuro não só do Napoli mas do Belpaese.

As equipes da Itália tem sido mais pacientes com seus jovens já encaixados no time profissional – e não emprestando todos para ganhar tempo de jogo na Serie B ou Lega Pro. 48 atletas sub-23 têm mais de 600 minutos neste semestre; 20 deles têm tempo superior a 1000 minutos em campo. A lista completa dos 219 jogadores sub-23 que estão inscritos na liga 2012-13 pode ser vista aqui, de acordo com a Federação Italiana. E olha que tem gente boa que ainda não jogou nessa época: Camporese, Daniel Bessa, Milanovic, Crescenzi…

Esse será o futuro do futebol na Bota, uma vez que os clubes não podem ostentar dinheiro. As contratações de baixo custo e a base terão fundamental importância na Serie A, principalmente nos próximos anos. Boa parte desses jovens se mostra mais que pronta para atuar em alto nível e os resultados estão sendo colhidos. A mudança de mentalidade começou.

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