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Agostino Di Bartolomei, o capitão triste da Roma

Publicado originalmente na Total Football.

Ser capitão de um time de futebol é das tarefas mais recompensadoras. Você pode ser um herói, um mandão, ou apenas um cara que herda a faixa quando o verdadeiro dono é substituído. Mas nunca, ou quase nunca esse cargo é atribuído a um cabeça de bagre qualquer.

No caso de Agostino Di Bartolomei, certamente foi uma decisão bem pensada por Nils Liedholm passar essa responsabilidade para aquele tímido e dedicado rapaz nascido e criado em Roma. Até que assumisse a função no seu clube de coração, Agostino batalhou com a camisa da Roma em equipes juvenis, categorias de base e em todos os torneios que poderia disputar quando garoto. Seu amor pela giallorossa transcendia o comum visto por outros ídolos. Algo parecido só pode ser visto em nomes como Paolo Maldini, Franco Baresi, Steven Gerrard, Marcos, Rogério Ceni e Francesco Totti, seu legítimo sucessor.

Poucas são as bandeiras dos grandes clubes, e apesar de também ter jogado por Milan, Cesena, Vicenza e Salernitana, Di Bartolomei é inesquecível para os romanistas, depois de 12 anos de serviços prestados, sempre com o máximo empenho. Conduzindo a meia cancha com classe e garra, o camisa 10 tinha seu nome gritado com fervor pela massa da Curva Sud, desde os anos mais difíceis até a consagração nas mãos do Barão Liedholm.

Os anos 80 foram especialmente marcantes para a torcida da Roma e sobretudo para Agostino, que amadureceu passando por maus bocados, péssimas campanhas e elencos fraquíssimos na década anterior. Assim como Bruno Conti, outra joia criada em Trigoria, o volante teve um período fora do Olímpico para ganhar experiência. No Vicenza, ficou quase dois anos entre 1975 e 1977, até retornar e conquistar seu espaço entre o plantel titular.

Falcão e “Diba”: dois dos maiores ídolos do futebol romano (Tag24)

Foi líder em várias batalhas que determinaram o crescimento da agremiação. Três vezes campeão da Coppa Italia, campeão da Serie A em 1982-83, o capitão conciliava a força com a técnica e a inteligência. Dono de um chute fortíssimo, marcou mais de 50 vezes durante seu período em La Maggica, cuja alcunha só foi possível com a sua colaboração e de outros craques que estiveram na campanha vitoriosa do scudetto de 83.

O esporte ensina que se você se concentrar num objetivo e demorar a alcançá-lo, cada vez mais a vontade de vencer aumenta. Era isso que Agostino sentia, que a cada ano seus bons dias viriam. A longa espera foi premiada com a consagração diante de uma batalha duríssima contra a Juventus, rodada a rodada. Um simples empate contra o Genoa em 8 de maio de 1983 coroou pela segunda vez a Roma como campeã nacional, fato que só se repetiria 18 anos depois, com Totti, Batistuta, Montella e companhia.

Ao invés de se acostumar em ser mero coadjuvante, Di Bartolomei deu seu melhor para fazer o time ser protagonista. Um ano depois, novamente brigando pelo scudetto e agora lutando por espaço na Europa, a giallorossa viveu seu primeiro de muitos momentos de drama. Do dia 30 de maio de 1984 em diante, a história da agremiação da capital foi mudada para sempre, escrita numa página dolorosa em dois capítulos. A vida do capitão tem um forte paralelo com as fases romanistas.

Primeira queda: o carrasco inglês

O Liverpool era tricampeão continental. Chegava na final da Copa dos Campeões daquele ano como franco favorito e com um plantel invejável. Grobelaar, Hansen, Lawrenson, Nicol, Souness, Aldridge, Rush, Dalglish, entre outros, formavam um esquadrão quase imbatível na Europa. Responsáveis por destruir o sonho de outra equipe considerada mediana anos antes, em 1977, os Reds tiraram a chance do Borussia Monchengladbach levantar a taça mais desejada do Velho continente.

Disputando a decisão europeia em casa, no Olímpico, a Roma foi ao gramado com a missão de interromper o reinado dos britânicos, que encantavam o mundo com o seu estilo cativante de passes e toda a ofensividade comandada por Dalglish. No tempo normal, Neal abriu o placar num lance de pura infelicidade do arqueiro Tancredi e do zagueiro Righetti. A bola escapou das mãos do guarda metas e caiu nos pés de Righetti, que afastou mal e atingiu o próprio goleiro na cabeça. Neal só aproveitou e mandou para a rede, para desespero da torcida local.

Aos 42 do primeiro tempo, Conti desceu pela esquerda e fintou Nicol. O nanico ainda cortou para a direita e cruzou na cabeça de Pruzzo, Il Bomber, para empatar o confronto. A igualdade persistiu até as penalidades, onde Falcão se recusaria a cobrar e em seguida Grobelaar se consagraria utilizando de uma dança irreverente com as pernas bambas, intimidando os italianos.

Conti e Graziani desperdiçaram suas chances e no final, o Liverpool venceu por 4-2, calando a massa no Olímpico e sacramentando que não seria daquela vez que a Roma alcançaria a glória máxima. Agostino converteu seu chute e sentiu a impotência de não poder evitar o pior. Na temporada seguinte, foi negociado com o Milan e não mais retornou para onde se fez homem, jogador, capitão e ídolo.

Troca de flâmulas entre os capitães Di Bartolomei e Souness antes da decepção no Olímpico (Wikipedia)

Segunda queda: a depressão e um tiro fatal

Somando passagens apagadas por Milan, Cesena e Salernitana, Di Bartolomei encerrou sua trajetória como profissional em 1990. Pai de família e residente de uma bela casa em Castellabate, na província de Salerno, o ex-capitão passou seus anos finais cuidando do seu jardim, já sem nenhuma ligação com o futebol, que lhe trouxera um grande trauma e um peso incalculável em sua vivência.

Agostino não suportava imaginar que poderia ter feito melhor, que poderia ter virado dois ou até marcado um gol que mudasse o curso do destino romanista. Os primeiros anos da nova década foram melancólicos para o clube, apesar de Giuseppe Giannini, craque de uma geração e que para muitos errou a época em que desfilou seu talento. Vivendo de pequenas conquistas, isso quando elas aconteciam, a Roma passava por um processo de decadência e acomodação.

Dez anos depois, marcado por ter ficado do lado derrotado daquela fatídica decisão europeia em 1984, Agostino tomou uma decisão. Todo o aprendizado adquirido como jogador não lhe serviria mais. Devastado por quadros de depressão por carregar uma culpa excessiva, com sérias dívidas financeiras e acima de tudo sem perspectivas para o futuro, resolveu deixar uma triste nota aos seus entes. Dizia que se sentia em um buraco. Foi encontrado morto com um tiro no peito, exatamente dez anos após aquele 30 de maio de 1984.

Um dos últimos clubes do romano foi o Cesena (LaPresse)

A história em torno do suicídio de Di Bartolomei é contada no livro “A última partida: vitória e derrota de Agostino Di Bartolomei“, escrito por Giovanni Bianconi e Andrea Salerno. Inegavelmente uma cicatriz na história recente romanista, que busca deixar os anos inglórios para trás e quem sabe sentir aquele gosto de estar no topo mais uma vez. Nada como um bom tempo ausente de grandes conquistas para valorizar ainda mais a vitória. Uma lição que só os grandes que hibernam podem ensinar.

Ficou o legado de Agostino, que deu sua primeira prova de amor à Roma ainda aos doze anos de idade, se recusando a integrar os plantéis infantis da Lazio. Se alguém ainda tem dúvidas que essa escolha foi determinante no seu sucesso…

Agostino Di Bartolomei
Nascimento: 8 de abril de 1955, em Roma
Morte: 30 de maio de 1994, em Roma
Posição: Meia/volante
Clubes: Roma (1972-75, 1977-84), Vicenza (1975-76), Milan (1984-87), Cesena (1987-88), Salernitana (1988-90)
Títulos: 1 Serie A (1983) e 3 Coppa Italia (1980, 81 e 1984)

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