Serie A

Utopia não altera gravidade

Zeman na década de 90 x Zeman hoje: o que realmente avançou? (PagineRomaniste.com e Goal.com)

Suponha que você acabou de esbarrar sua mão numa caixa de leite recém-aberta, que agora tombou e vai despejando seu conteúdo no chão limpo da cozinha. Com pressa, suas opções se limitam a levantá-la e consertar os danos da sujeira interrompida, ou apenas observá-la causar estrago e lidar com um piso empoçado em centenas de mililitros de leite. E tudo estará grudento amanhã, mesmo após a limpeza.

Quando a Roma abriu mão de apostar em Vincenzo Montella para trazer Zdeněk Zeman, praticamente tudo que aconteceu com a equipe até agora era previsto, previsível, anunciado, declamado, proclamado, etc. O ataque fulminante, a defesa patética, os lampejos de empolgação, os desânimos homéricos: tudo isso faz parte do universo do treinador tcheco. O que não se esperava era a relação tão mal administrada com atletas de diferentes níveis. Não só Pjanic, Marquinho e Stekelenburg, como Osvaldo e o ídolo De Rossi já arrumaram suas encrencas com o boêmio.

Ontem, Walter Sabatini e Franco Baldini, responsáveis pelo funcionamento do clube, reuniram-se com Zeman para esclarecer alguns pontos. Especulava-se que a reunião resultaria na demissão do técnico, afinal sua Roma é muitíssimo similar em desempenho àquela de Luis Enrique, muito embora tenha passado por outra reforma radical em curto período de tempo. Entretanto, o experiente comandante foi reassegurado no cargo – e a caixa de leite continua virada.

Ficou decidido que Zeman vai mudar. O que significa que ele provavelmente sairá com o rabo entre as pernas nas quedas de braço com Stekelenburg (frase do holandês: “Zeman nunca me explicou por que não jogo“) e De Rossi, possível reserva de um Tachtsidis nada regular. Todavia, não há razão em manter Zeman. Não deu certo. Não vai dar certo.

Em defesa do boêmio, surgem os argumentos de que “ninguém se adapta ao jogo dele de verdade”, ou que “Zeman não dispõe dos jogadores ideais para seu estilo”. Estamos em 2013, se até agora seu método futebolístico não foi devidamente aplicado em nenhuma grande equipe, pode-se concluir que este é apenas uma utopia teimosa, ou então que sua comunicação é bastante falha.

Quanto ao mercado, o elenco foi construído com base em sua aprovação – inclusive o amadorismo inaceitável de a Roma ter apenas três zagueiros no elenco, um lateral-esquerdo e meio (além de Balzaretti, há o sempre lesionado Dodô), e que Piris, – Piris! -, era o único lateral-direito até semana passada, quando o grego Torosidis desembarcou na capital.

Não que seu trabalho apresente apenas falhas: Totti vem jogando muito, muito mais que nas últimas duas temporadas, enquanto Marquinhos e Florenzi passaram de revelações incertas para grandes esperanças do plantel. Plantel este, aliás, bem mais encorpado que aquele nas mãos de Luis Enrique.

Na prática, pouca coisa mudou. Enquanto a Roma da temporada passada subia horrores com uma linha de impedimento mal arranjada, essa também se esforça para levar gols de qualquer maneira. Se Luis Enrique lançava Borini, Zeman tem Florenzi. Se Bojan e Kjaer não convenciam, tampouco o fazem Tachtsidis e Destro. Há partidas vislumbrantes – Roma 4-0 Inter com o primeiro, e Roma 4-2 Milan com o sucessor -, e também desastres ridículos – Atalanta 4-1 Roma e Juventus 4-1 Roma, este último que podia muito bem ter sido um seis a zero sem dó.

Acreditar em terceira posição é besteira. Até o fim da temporada, a Roma aplicará surras expressivas contra adversários inesperados (“agora vai!”), bem como perderá para si em partidas tranquilas. Terminará com enorme quantidade de gols marcados, e outra enormidade de gols contra. Dentro de alguns meses, irá à sua terceira temporada seguida sem qualquer definição de futuro, com todo o elenco especulado em vendas desvalorizadas e à procura de outro salvador para consertar tudo.

Zdeněk Zeman tem grande importância na cultura popular do futebol italiano, questionou a ética da Juventus numa época em que isso exigia colhões, levou o Foggia da terceira à primeira divisão num passe de mágica e faz cigarros parecerem um enfeite de glamour. É uma figura interessante, um personagem válido e diverte o futebol. Hoje, porém, não é técnico para a Roma. Não para essa Roma. Não em 2013.

O chão vai ficar grudento em Trigoria.

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