Serie A

Conheça o clube: Pro Patria

O clube Ginnastica Pro Patria et Libertate foi fundado em 1881, em Busto Arsizio, pequena cidade nos arredores de Milão. O esporte primário era a ginástica; o futebol na Itália, no fim do século XIX, era jogado apenas por estudantes, em seus colégios, e peladas entre clientes de restaurantes e bares no subúrbio. Em outro lugar da cidadezinha, Guido Albinola foi o fundador do Aurora, enquanto Roberto Della Torre, um jovem de 18 anos, foi colocado como presidente, técnico e capitão da equipe. A primeira partida oficial disputada em Busto Arsizio aconteceu em 1º de maio de 1907. Durante duas temporadas no início da década de 1910, o Aurora deixou escapar a promoção à primeira divisão para equipes de Milão.

Após o término da Primeira Guerra Mundial, Piero Giudali, antigo capitão do Aurora, reuniu todos os jogadores e membros de comissões técnicas de Busto Arsizio que sobrevieram à guerra, no Caffè Brugioli, para criar um único clube chamado Pro Patria et Libertate. Na temporada 1919-20, o Pro Patria estreou seu novo estádio, Via Valle Olona, usado até julho de 1927. Nesta época, os bianco-blu terminaram a fase inicial da Terceira Divisão na liderança; depois, com o quinto lugar, o Pro Patria foi promovido à Prima Categoria, que seria a atual Serie B.

Para alcançar o sonho de atuar na elite do futebol italiano, a diretoria do Pro Patria trouxe Kutik, do 33 FC Budapest. O húngaro foi o primeiro jogador estrangeiro a jogar pelo Pro Patria. Naquele ano, a equipe terminou na segunda colocação no campeonato e, em 1924, Carletto Reguzzoni, criado pelo vivaio em Busto Arsizio, debutou pelo Pro Patria. Ele, segundo a crítica da época, foi um dos melhores canhotos a jogar na Europa.

A temporada de 1926-27 foi a mais importante da história do clube. O Pro Patria passou por Triestina, Treviso e, sobretudo, pela Atalanta (com um sonoro 7 a 0) e alcançou a Divisione Nazionale A – a primeira divisão. O presidente Marcora deu três dias de férias aos jogadores em Veneza. Em 27 de setembro, o Pro Patria debutou na primeira divisão. Faltava, no entanto, um técnico competente. Sob comando do húngaro Imre Janos Bekey, o Pro Patria fez um bom returno, quando venceu a Juventus e a Roma, no Olímpico.

Bruno Roghi, jornalista da Gazzetta dello Sport, definiu o Pro Patria ao fim da temporada como “um time que nasceu para lutar, com excelente espírito, garra e sem medo do poder do inimigo”; o profissional da imprensa também deu a alcunha de Tigrotti à agremiação. Com 29 gols de Reguzzoni na temporada de 1928-29, o Pro Patria ficou na quinta colocação ao fim da temporada. Na época seguinte, ainda sob comando de Bekey, o clube conseguiu bater a Roma por 6 a 1, em casa.

Grana? Sumiu
As saídas de Reguzzoni para o Bologna e Bocchi ao Milan não ajudaram nem dentro nem fora de campo. O Pro Patria fazia péssima temporada e os problemas financeiros eram visíveis ao fim da época. Os tigrotti conseguiram permanecer até 1933 na primeira divisão. Afundando ainda mais em dívidas, em dois anos o Pro Patria chegou à Serie C.

O retorno à elite veio após a Segunda Guerra Mundial, em 1947, novamente com Reguzzoni. O ala venceu tudo pelo Bologna e retornou ao time para breve passagem em 1944 – depois retornou ao time felsineo e, a partir de 1946, voltou para encerrar a carreira em Busto Arsizio.

Com Reguzzoni, o técnico Rigotti contava com uma equipe potente ofensivamente: havia também Caviglioli, Turconi, Molina e Antoniotti – que tinha um estilo de jogo bem parecido com o de Roberto Baggio. A Serie B foi vencida facilmente, com 84 gols marcados. Antoniotti foi autor de 24 deles, seguido por Turconi (22). É possível destacar a vitória contra o Vogherese, em casa, por 10 a 0, e a invencibilidade doméstica do Pro Patria na temporada.

Se a temporada de 1927 foi a mais importante da história do clube, um jogo que permanece na memória dos torcedores mais antigos é a vitória por 2 a 1 contra o Milan, em 1948. Debaixo de uma chuva torrencial, o Pro Patria empatou a partida aos 42 minutos do segundo tempo e virou aos 44.

Kubala: passagem pelo Pro Patria durou incríveis zero partidas (Foto: Bustocco)

No ano seguinte, o talentoso Ladislav Kubala chegou a Busto Arsizio. Inter, Juventus e Torino queriam o atacante, mas ele foi proibido de assinar com os clubes por conta de suspensão na Fifa; Kubala escapou da Hungria durante o regime comunista, quebrando seu contrato com o Vasas Budapest, seu clube formador. O húngaro de origem eslovaca treinou no Pro Patria até novembro de 1949, esperando pela regularização de seus documentos. Porém, ele nunca atuou pela equipe de Busto Arsizio. O secretário do Barcelona, com forte influência na federação, conseguiu o revogar o banimento do jogador e o levou para a Catalunha, onde se tornaria o quinto maior artilheiro da história do clube – o terceiro, se contabilizarmos apenas partidas oficiais.

Os tigrotti jogaram a Serie A por seis temporadas. A última vez que o Pro Patria atuou na primeira divisão foi em 1956. Durante a década de 1960, a agremiação jogou na Serie B e fez de seu estádio um caldeirão. Torcedores motivavam e empurravam o time em busca da vitória – mesmo que, dentro de campo, a equipe nem fosse a melhor do campeonato.

Afundado em crise financeira, o clube de Busto Arsizio chamou o ex-atacante da equipe Carlo Regalia para comando o time em 1966. Foi exatamente nesta época que o time foi formado novamente por jogadores das redondezas da cidade e formados pelo Pro Patria, como o goleiro Romano Cazzaniga, os meio-campistas Vittorino Calloni e Luciano Re Cecconi (campeão nacional pela Lazio na década de 1970 e membro da seleção italiana na copa de 1974) e o atacante Alessandro Turini.

Perda atrás de perda
Na virada da década, Regalia entrou em conflito com a recém-criada torcida organizada do Pro Patria e se tornou dirigente – nos anos 90, foi ele o responsável pela descoberta de jovens talentos, entre eles Gianluca Zambrotta, Antonio Cassano e Nicola Ventola.

Sem Regalia, a crise piorou e, em 1971, e os tigrotti perderam o craque Giancarlo Antognoni para a Fiorentina. Em Florença, o jovem meio-campista virou o melhor jogador do time e ainda representou a Itália na Copa do Mundo de 1982.

O retorno não tão triunfal do Pro Patria na mídia veio em amistoso contra o Milan (Foto: EFE)

O Pro Patria não chegou perto de retornar à Serie B desde então. Após perambular – e amargar – o semi-amadorismo durante anos, os tigrotti, nesta temporada, disputam a Lega Pro Prima Divisione, terceira divisão, depois de terem vencido seu grupo na quarta divisão.

Se o estádio Carlo Speroni não abriga a capacidade máxima de seus 4.627 espectadores nas partidas do campeonato, o clube voltou ao noticiário internacional quando torcedores insultaram Boateng, do Milan, em partida amistosa, em janeiro último. O clube não tem histórico de fãs racistas. Nem mesmo dos ultrà Commandos Tigri, fundado em setembro de 1973.

Um dos denunciados pelo canto racista contra Boateng naquela ocasião é Riccardo Grittini, político de 21 anos da cidade vizinha Corbetta. A ministra do Interior, Annamaria Cancellieri, reprovou veementemente as atitudes no estádio. Contudo, Antonio Balzarotti, prefeito de Corbetta, disse que, segundo Grittini, “era apenas uma brincadeira similar àquelas que acontecem todos os domingos nos estádios”.

Só que a “brincadeira” parece ter contaminado Busto Arsizio. Durante uma partida do Campionato Nazionale Dante Berretti (o sub-19 dos clubes da Serie C), Luca Paganini, do Pro Patria, insultou Fabiano Ribeiro, atacante brasileiro do Casale. O agredido bateu no adversário, o que ocasionou a expulsão pelo árbitro. O Casale, assim como o Milan, três semanas antes, deixou o gramado, em forma de protesto.

Histórias lamentáveis para um clube que tem história e que, dentro de campo, tem lutado para permanecer vivo.

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