Esquadrões

Times históricos: Internazionale 2008-2010

Grandes feitos: Campeã do Mundial de Clubes da Fifa (2010), Campeã da Liga dos Campeões (2009-2010), Bicampeã Italiana (2008-2009 e 2009-2010), Campeã da Coppa Italia (2009-2010) e Bicampeã da Supercoppa Italia (2008 e 2010).

Time base: Júlio César; Maicon, Lúcio (Córdoba), Samuel (Materazzi), Chivu; Zanetti, Cambiasso (Thiago Motta; Stankovic); Eto’o (Ibrahimovic), Sneijder (Figo), Pandev (Balotelli); Milito. Técnicos: José Mourinho (2008-2010) e Rafa Benítez (2010).

A mais Internazionale de todas

Nunca uma equipe fez tanto jus ao nome ou a sua história como a Inter de 2008-2010. Nenhum dos 11 jogadores do time titular que entrou em campo para a final da Liga dos Campeões de 2009-2010 do esquadrão nerazurro era italiano. Os titulares escalados por José Mourinho compunham um “escrete de babel” com jogadores do Brasil, Argentina, Camarões, Macedônia, Romênia e Holanda vestidos de negro e azul prontos para liquidar o Bayern Munique o que realmente aconteceu com um show do argentino Milito.

Aliás, argentino foi o que não faltou à Inter no período (dando respaldo ao histórico do clube), pois cinco estiveram presentes nas mais diversas partidas da equipe num período de ouro que veio justamente na época do centenário do clube, em 2008. Depois de mais de 30 anos sem ver a “velhinha orelhuda” da Europa, os italianos conseguiram reconquistar o continente graças à Mourinho, que montou um time extremamente competitivo, forte na defesa e letal no ataque.

Com mais de um bom jogador para cada posição, o técnico português armava seu time conforme o adversário e conseguia quase sempre o resultado que queria, como a inesquecível vitória por 3 a 1 sobre o super Barcelona de Guardiola em 2010, na semifinal da Liga, quando todos apostavam num passeio dos melhores do mundo. Mourinho deu um nó nos catalães, foi com a vantagem para o Camp Nou e segurou um 1 a 0 que colocou a Inter na final, em que o time era amplamente favorito frente ao Bayern de Louis van Gaal. É hora de relembrar os feitos de uma equipe histórica, uma implacável adversária para qualquer um.

Mudanças para melhor

José Mourinho em sua chegada a Milão

Em junho de 2008, a Inter vinha de três títulos do Campeonato Italiano (um deles ganho por conta da manipulação de resultados no futebol do país), de duas Supercoppas Italia e de um vice-campeonato da Coppa Italia, após derrota para a Roma na final daquele ano. Relativamente bem jogando em casa e com uma conquista no ano do centenário, a equipe só pecava mesmo quando disputava partidas internacionais, sempre colecionando fracassos e eliminações.

A diretoria do clube estava disposta a trazer o badalado técnico português José Mourinho, que fazia mais um brilhante trabalho no Chelsea, mas, assim como a Inter, vinha sucumbindo em competições internacionais. Roberto Mancini, então treinador da equipe italiana, já havia comunicado sua saída após eliminação frente ao Liverpool, nas oitavas de final da LC 2007-08, e Mourinho assumiu o time já no início da temporada seguinte. Ao chegar à Itália, o treinador fez questão de aprender italiano e em sua primeira coletiva falou na língua local de maneira plena, para surpresa de todos. Ali, ele já ganhava a torcida, que via no Special One a pessoa ideal para colocar a Inter nos trilhos europeus novamente.

A chegada de Mourinho provocou várias mudanças no padrão de jogo da Inter e na escalação. Os titulares que entraram em campo e perderam para a Roma a final da Coppa Italia de 2008 (com Mancini no comando, em maio) foram quase todos modificados para a formação do time que venceu a mesma Roma na final da Supercoppa Italia em agosto, após a chegada do português. O treinador começou uma limpa no elenco e jogadores como Cruz, Crespo, Adriano, Pelé, Figo, Maxwell e Burdisso foram perdendo espaço.

Ibrahimovic e Balotelli no ataque da Inter

Aos poucos, a Inter começava a mudar seu estilo de jogo e a apostar mais num 4-3-3 que priorizava o contra-ataque e deixava a defesa protegida, com Ibrahimovic como o homem gol do time e o surgimento de uma jovem promessa, o atacante Balotelli. Depois do título da Supercoppa, a Inter caminhou a passos largos no Campeonato Italiano e conquistou mais um scudetto, o quarto consecutivo, com 10 pontos de vantagem sobre a Juventus e 25 vitórias, nove empates e quatro derrotas em 38 jogos, com o melhor ataque (70 gols) e a melhor defesa (32), além de não perder uma partida sequer em casa. Ibrahimovic foi o artilheiro da equipe e do campeonato com 25 gols. Na Coppa Italia, eliminação nas semifinais para a Sampdoria.

Na Liga dos Campeões, a Inter se classificou para a fase de mata-mata em segundo no Grupo B, atrás do surpreendente Panathinaikos – embora tenha feito uma campanha pífia.

Nas oitavas de final, os italianos não foram páreo para os então campeões europeus e mundiais do Manchester United, empatando em casa o primeiro jogo (0 a 0) e perdendo a volta por 2 a 0. Na primeira chance, Mourinho não conseguia levar a Inter a uma final de Liga. Mas o técnico não se abalou e tratou de reforçar o time para a próxima temporada.

As peças que faltavam

Sneijder: reforço de peso na temporada 2009-2010

Na temporada 2009-2010, a Internazionale trouxe novos nomes e, ao contrário do que muitos pensavam, ficou ainda mais forte. O time perdeu Ibrahimovic, mas ganhou Samuel Eto’o em uma troca com o Barcelona. Vieram também o meio campista Thiago Motta, o ótimo meia holandês Sneijder e o atacante Milito, este último depois de ter dado show no Campeonato Italiano de 2008-2009 ao marcar 24 gols pelo Genoa, onde foi companheiro de Motta. Em janeiro, a Inter ainda fechou com Pandev, que voltou ao clube em que foi revelado por um baixo custo e para ser importante ao esquema.

Mourinho ganhava peças essenciais para manter sua equipe forte e continuar a derrotar os rivais, que começavam a ficar cabreiros com o técnico por conta de seu temperamento e suas falas polêmicas, como no começo daquele ano de 2009, quando disse “não gostar de prostituição intelectual, mas honestidade intelectual”, se referindo ao técnico da Roma à época, Claudio Ranieri, depois de uma partida polêmica que terminou 3 a 3 com um pênalti contestado em cima de Balotelli, e sobre a imprensa, que “manipulava a opinião pública”.

Mourinho também não poupava os outros rivais, como Milan e Juventus: “Não temos falado sobre o Milan, que vai terminar esta temporada (2008-2009) com ‘zero títulos’ e nem sobre a Juventus, que ganhou vários pontos graças a erros dos árbitros”, disse Mourinho, em março de 2009. Por seu temperamento forte, Mourinho arranjou várias inimizades no meio futebolístico italiano, seja com profissionais de outros clubes seja com jornalistas.

Polêmicas à parte, a Inter iniciou a nova temporada com muito mais esperança e chances de fazer história como há muito tempo não se via em Milão. Era a grande hora de fazer o esquadrão nerazurro voltar a brilhar.

Cinco vezes Inter

Júlio César, Maicon e Lúcio: fundamentais na Inter

Na Serie A, a Inter foi mais uma vez absoluta. Com Milito inspirado e artilheiro do time com 22 gols, a equipe conquistou pela quinta vez seguida o campeonato, igualando os feitos históricos da Juventus (1930-1931 a 1934-1935) e do Torino (1942-1943 e 1945-1946 a 1948-1949).

Foram 24 vitórias, 10 empates e quatro derrotas em 38 partidas, com 82 pontos ganhos, dois a mais que a vice Roma. Os destaques da campanha foram as duas vitórias sobre o rival Milan: 2 a 0 e 4 a 0, com shows de Milito, Eto’o, Stankovic, Pandev, Maicon e companhia. A equipe teve mais uma vez o melhor ataque (75 gols) e a melhor defesa (34 gols sofridos). O campeonato, desta vez, foi mais equilibrado que nos anos anteriores, e a Inter, viva em três campeonatos, e priorizando a Liga dos Campeões, chegou a perder a liderança para a Roma na 33ª rodada, após liderar em quase todo o campeonato, mas um tropeço romanista em casa, frente à Sampdoria, ajudou a Inter a recuperar a liderança e arrancar para o 18º scudetto.

Na Coppa Italia, depois de passar por Livorno, Juventus e Fiorentina, a equipe voltou a encarar a Roma na final e venceu por 1 a 0, gol do matador Milito, em um chutaço de fora da área. Com os dois canecos nacionais na bagagem, a equipe tinha a chance de fazer história se conquistasse, também, a Liga dos Campeões, podendo faturar uma tríplice coroa inédita no futebol italiano. Era esse o grande objetivo de Mourinho. E o técnico foi atrás.

Árduo caminho europeu

Eto’o (dir.): atacante teve trabalho contra seu ex-clube, o Barcelona, na primeira fase da LC 2009-10

Na Liga dos Campeões de 2009-2010 a Inter teve o azar de cair no mesmo grupo do bicho-papão Barcelona, então campeão europeu e mundial. A estreia foi contra os catalães, no Giuseppe Meazza, com empate em 0 a 0. Na sequência, mais dois empates: fora de casa, contra o Rubin Kazan em 1 a 1 (gol de Stankovic), e em casa, contra o Dynamo Kyiv em 2 a 2, gols de Stankovic e Samuel.

No returno, a Inter, com grandes chances de eliminação, foi para o tudo ou nada e conseguiu a primeira vitória em cima do Dynamo, do carrasco Shevchenko, fora de casa por 2 a 1 (gols de Milito e Sneijder). O adversário seguinte foi o Barcelona, no Camp Nou, com derrota por 2 a 0. No último e decisivo jogo, vitória por 2 a 0 sobre o Rubin Kazan, em Milão, com gols decisivos de Eto’o e Balotelli. A classificação, com o segundo lugar no grupo, estava garantida.

Eto’o, antes de marcar gol da classificação sobre o Chelsea

Mourinho reencontrou o Chelsea nas oitavas de final da LC. O técnico tinha como missão acabar com o carma de a Inter sempre ser eliminada nesse estágio da competição, algo que tinha acontecido nas últimas três edições. Na ida, em Milão, o jogo foi duro, mas os gols de Milito e Cambiasso deram a vitória por 2 a 1 à Inter: o atacante fez o primeiro aos 3 minutos, mas depois o Chelsea cresceu e empatou com Kalou, aos 6 do segundo tempo. Quatro minutos depois, Cambiasso fez um gol com raiva, decretando a primeira vitória da Inter em um mata-mata de Champions desde 2006. Parecia que o vento estava mudando.

Na volta, em Londres, mais um jogo recheado de faltas, cartões (foram oito amarelos e um vermelho) e marcação acirrada. Mas a Inter não se intimidou com o forte time inglês e com a torcida e liquidou a fatura no segundo tempo, com um gol de Eto’o, garantindo a vitória por 1 a 0 e a classificação para as quartas de final. O triunfo foi essencial para provar a todos que aquela Inter era, sim, fortíssima e candidata ao título. Mesmo com um certo Barcelona avançando na disputa. O sorteio das fases seguintes previa um potencial duelo com o Barcelona nas semifinais, caso ambos avançassem.

Antes, porém, nas quartas de final, a Inter duelou contra o CSKA Moscou, que tinha como destaques o goleiro Akinfeev e os meias Krasic e Honda. A Inter dominou a partida, apanhou muito (foram 22 faltas do CSKA contra 9 da equipe italiana), mas Milito, sempre ele, marcou o gol da vitória aos 65. Na volta, em Moscou, Sneijder acertou cobrança de falta logo aos seis minutos de jogo e classificou a equipe para as semifinais, dando mais uma vitória por 1 a 0 aos comandados de Mourinho. Mas, se o time queria ser campeão europeu pela terceira vez depois de 45 anos, teria que enfrentar o melhor time do planeta: o Barcelona.

Uma aula tática

Milito fuzila: show contra o clube mais temido do mundo

Praticamente ninguém apostava num tropeço do Barcelona no primeiro jogo das semifinais da Liga dos Campeões de 2009-2010, mesmo este jogo sendo no abarrotado Giuseppe Meazza, em Milão, com mais de 79 mil torcedores. Mas os secadores dos nerazurri tiveram uma grande surpresa naquele dia 20 de abril de 2010.

Mourinho armou um time pronto e impecável para derrotar o maior esquadrão do mundo naquela noite. No seu já usual 4-2-3-1, que se defendia com duas linhas de quatro, e apenas Milito como centroavante de ofício, o técnico português fez a armadilha perfeita para Guardiola, treinador do Barça. Mourinho, que começou sua carreira de técnico exatamente no clube catalão, como aprendiz de Louis van Gaal, sabia o modo de jogo do time e a dificuldade para os espanhois quando enfrentavam uma equipe que se defendia assim. O técnico português se baseou principalmente nos jogos do Barça na Liga de 2008-2009, contra o Chelsea, quando o clube só avançou graças ao critério dos gols marcados fora de casa, além dos jogos disputados contra os catalães na primeira fase.

Duas assistências e um gol: Milito fundamental

Com o jogo rolando, a Inter tinha pouca posse de bola, mas era extremamente perigosa quando atacava. Porém, quem abriu o placar foi o Barcelona, aos 19, com Pedro. Onze minutos depois, Sneijder empatou, após bom trabalho de pivô de Milito, que já havia desperdiçado duas boas chances.

No segundo tempo, a Inter começou a marcar muito melhor, e um trabalho em dupla de Pandev e Thiago Motta terminou por anular Messi. Com apenas três minutos de jogo, em roubada de Motta sobre Messi e contra-ataque puxado por Pandev, Maicon virou. Aos 61, Milito deixou sua marca e decretou a vitória maiúscula da Internazionale: 3 a 1, com atuação magistral do meio de campo composto por Thiago Motta, Cambiasso e Sneijder. Eles anularam as ações de Iniesta, Xavi, Pedro e Daniel Alves, principalmente pelo lado direito, impossibilitando o time catalão de armar suas jogadas por esse lado e de ficar trocando passes no campo de ataque.

No gol, Julio César foi mais uma vez impecável, confirmando a fase esplendorosa que viva em Milão, como numa defesa sensacional após cabeçada de Sergio Busquets em outras duas defesas monumentais. Lúcio ainda cortou um chute de Piqué em cima da linha, mas a Inter esteve, depois do terceiro gol, mais próxima de aplicar uma goleada no Barça do que o time catalão diminuir o placar – cara a cara com Valdés, Sneijder desperdiçou a chance de fazer 4 a 1. Com o término do jogo, muita festa em Milão e a esperança de uma final depois de 38 anos: a última havia sido contra o Ajax de Cruyff, em 1972, que venceu por 2 a 0.

Uma derrota emblemática

No dia 28 de abril de 2010, o Camp Nou estava lotado, maravilhoso e pintado de azul e grená para uma partida decisiva. Mais de 96 mil pessoas esperavam ver o Barça reverter a vantagem da Inter, conseguir chegar a mais uma final de Liga dos Campeões e repetir o feito do Milan de van Basten, o último a vencer duas taças seguidas em 1989 e 1990. Pep Guardiola foi para o tudo ou nada contra uma Inter que jogava para chegar a uma improvável e surpreendente final.

O jogo foi uma luta entre ataque e defesa, com a Inter totalmente recuada e apostando apenas nos contra-ataques e erros do adversário. Mas as poucas investidas da equipe italiana viraram praticamente nulas logo aos 28 do primeiro tempo, quando Thiago Motta, tão preciso no primeiro jogo, foi expulso, depois de simulação de Busquets.

Com 10 homens, não restava outra opção a Mourinho: voltar ao passado glorioso da Inter e aplicar um verdadeiro catenaccio com a equipe toda recuada. A Inter deu apenas um chute a gol contra oito do Barcelona, que teve nove escanteios a seu favor. O jogo começou a ficar nervoso e violento, com 35 faltas no total, uma enormidade se tratando de futebol europeu. As chances criadas eram muito poucas, considerando o volume de jogo catalão, já que a Inter atuava completamente fechada – Eto’o se sacrificava, atuando praticamente como lateral esquerdo, e só Milito estava à frente. Na melhor chance do Barça durante o jogo, Júlio César fez uma das maiores defesas de sua carreira, em chute colocado de Messi.

Um show defensivo e classificação garantida à final

O tempo passava e a Inter ficava mais perto da final, até que Piqué, aos 84, marcou, enfim, o primeiro gol do jogo. Com 1 a 0 no placar, o Barcelona precisava de mais um golzinho para avançar para a final. Mas a Inter não deixou o time catalão chegar ao seu gol novamente e conseguiu a vaga na sonhada decisão.

Ao apito do árbitro, Mourinho protagonizou uma das cenas mais emblemáticas da história do futebol europeu ao correr loucamente pelo gramado do Camp Nou e provocando a torcida catalã, despertando o ódio que até hoje perdura por lá. Jogadores do Barça tentavam conter a euforia do treinador, em vão. Até mesmo o sistema de irrigação do gramado foi ligado para esfriar a comemoração dos italianos e de Mourinho, que comentou depois do jogo: “Essa foi a mais bela derrota da minha carreira”. E foi mesmo. Aquele era um momento especial e mágico para todos da Inter: depois de 38 anos, a equipe voltava a uma final de Liga dos Campeões. Para Mourinho, era a chance do bicampeonato pessoal (o primeiro foi com o Porto, em 2004) e a prova maior de seu trabalho à frente do time.

Triplete milanês

No dia 22 de maio de 2010, o Santiago Bernabéu, em Madrid, recebeu duas escolas clássicas do futebol mundial na decisão da Liga dos Campeões. De um lado, a Internazionale de Mourinho, que havia superado potências como Chelsea e Barcelona e buscava seu terceiro título na história, o primeiro desde a Grande Inter de Helenio Herrera da década de 60. Do outro, o Bayern Munique, que superou outras grandes forças como Lyon e Manchester United para brigar pela sua quinta taça.

Ambas as equipes lutavam para coroar a temporada com a tríplice coroa, façanha tão almejada pelos times do velho continente que consiste nos títulos da liga e copa nacionais e da Liga dos Campeões. Italianos e alemães já haviam faturado suas taças nacionais e buscavam naquela tarde o caneco que faltava. Para a decisão, Mourinho colocou em campo 11 estrangeiros que compuseram a mais internacional das Internazionales: Julio César (Brasil); Maicon (BRA), Lúcio (BRA), Samuel (Argentina) e Chivu (Romênia); Zanetti (ARG), Cambiasso (ARG) e Sneijder (Holanda); Eto’o (Camarões), Milito (ARG) e Pandev (Macedônia). Do lado do Bayern, Louis van Gaal, o mesmo que foi o professor de Mourinho em seu começo de carreira, mandou a campo uma forte equipe com Lahm, van Bommel, Schweinteiger, Robben, Altintop, Thomas Müller e Olic.

Festa: em dia histórico para Zanetti, Inter chegou ao topo

O jogo teve o Bayern como dono da bola na maior parte do tempo, mas a Internazionale não teve sustos graças a sua zaga muito bem postada e armada por Mourinho, com Júlio César mais uma vez operando milagres, e um meio de campo impecável que neutralizava as investidas alemãs, principalmente de Robben, que nada podia fazer com sua perna esquerda. A Inter liquidou o Bayern com a maior e mais letal arma de todos os times e seleções da Itália: o contra-ataque.

Milito abriu o placar aos 35 do primeiro tempo, depois de bola lançada pela zaga e um toque na saída do goleiro Butt. Na segunda etapa, o atacante chamou o zagueiro van Buyten para dançar com dois cortes secos antes de fuzilar para o gol: 2 a 0. O Bayern ficou tentando, em vão, chegar ao seu gol de honra pelo menos, mas não conseguiu: Inter campeã da Europa. Milito, o herói da conquista, também havia marcado no jogo decisivo contra o Siena, que valeu o título da Serie A, e na final da Coppa Italia, além de ter feito gols em jogos importantes, contra Milan e Barcelona. Ele acabou fechando aquela temporada com 30 gols realizados.

O estádio madrilenho explodiu em alegria pelo lado italiano e a equipe nerazurra voltava a ser a melhor do continente depois de 45 longos anos. Mourinho, assim como todos, chorou de alegria. O capitão Zanetti, em seu 700º jogo pela equipe, tinha a honra de levantar a maior das taças continentais. Nada podia ser maior. O inédito Triplete era da Inter! Para a inveja de Juventus, Milan, Roma, Lazio…

O adeus de Mourinho

Mourinho se despediu logo após a final de Madri

Depois do título europeu, as especulações se confirmaram e Mourinho deixou a Inter para comandar o Real Madrid, sonho pessoal do treinador, que afirmava que não dirigir a equipe espanhola seria uma lacuna vazia na carreira. A saída do treinador foi suprida com a chegada do espanhol Rafa Benítez, que comandou a equipe já na final da Supercoppa Italia contra a Roma, vencida por 3 a 1, com dois gols de Eto’o e um de Pandev.

Em seguida, a Inter perdeu a Supercopa da Uefa para o Atlético de Madrid por 2 a 0, em uma péssima atuação. Mesmo com a manutenção dos jogadores, a Inter perdeu claramente a sua força habitual, pois Mourinho havia construído um grupo focado e unido pelo resultado, pelo jogo coletivo. Com a nova filosofia de Benítez, desafeto de Mourinho e pouco querido pelos jogadores, avesso a esse estilo “coletivo”, a equipe não conseguiu manter a hegemonia no Campeonato Italiano e viu o Milan ir crescendo até conquistar o título no ano seguinte. Mas Benítez teve um desafio a ser cumprido ainda em 2010: disputar e ganhar o Mundial de Clubes da Fifa, em Abu Dhabi.

Campeões na mais surpreendente final

Mesmo em má fase, Inter levantou o Mundial

No Mundial de 2010 a Inter esperava fazer um “derby” contra o seu xará sul-americano, o Internacional, campeão da Copa Libertadores de 2010. Porém, as areias e o paraíso árabe parecem ter mexido com a cabeça dos jogadores brasileiros, que foram surpreendidos pelo Mazembe, do Congo, que venceu por 2 a 0 a semifinal.

A Inter não deu sopa para o azar e venceu o Seongnam Ilhwa Chunma, da Coreia do Sul, por 3 a 0, gols de Stankovic, Zanetti e Milito. Na decisão contra os africanos, a zebra não aprontou e a Inter foi soberana, vencendo por 3 a 0, gols de Pandev, Eto’o e Biabiany. A Inter repetia a Grande Inter dos anos 60, do presidente Angelo Moratti, pai de Massimo Moratti, e faturava um título mundial, mantendo os 100% de aproveitamento em decisões de título mundial, com três taças em três finais. Era o caneco para encerrar um ano mágico e especial na história do clube. Logo após a conquista, Rafa Benítez, com muitos conflitos com a direção, deixou o clube, demitido pelo presidente Moratti.

O fim

Depois do título mundial a Inter não conseguiu repetir os feitos de 2008 a 2010 e foi caindo de produção tanto em casa quanto em competições continentais, vendo Milan e Juventus faturarem os torneios nacionais dos anos seguintes e o crescimento de Barcelona e Bayern em nível europeu. O time perdeu peças importantes, viu jogadores envelhecerem e ficou na esperança de uma nova safra que possa repetir os feitos de um time competitivo, aguerrido e histórico, que trouxe de volta a mística da camisa azul e negra para os gramados do futebol mundial. Uma Inter Imortal.

Os personagens:

Júlio César: o goleiro brasileiro chegou com a difícil missão de ganhar o lugar de Francesco Toldo,  titular absoluto da Inter. E o brasileiro não só conseguiu a titularidade como foi decisivo para as conquistas da Era Mourinho, principalmente na Liga dos Campeões, quando conseguiu fazer defesas mágicas nas fases de mata-mata. Viveu sua melhor fase da carreira com a equipe italiana até aceitar o desafio de jogar no Queens Park Rangers, da Inglaterra, anos depois.

Maicon: ótimo no apoio ao ataque, Maicon teve a sorte de contar com uma zaga e um meio de campo tão eficientes para cobrir os buracos que ele costumava deixar em seu forte, os avanços com velocidade. Com isso, deu passes e cruzamentos açucarados para os atacantes brilharem no período. Marcou um gol importantíssimo na semifinal da Liga contra o Barcelona.

Lúcio: com a chegada de Mourinho, o brasileiro ganhou a vaga de titular e foi soberano na retaguarda da Inter, ganhando todas tanto no chão quanto nas bolas aéreas. Jogou muito em 2010.

Ivan Córdoba: teve mais presença antes da chegada de Mourinho, mas foi bem no Campeonato Italiano de 2008-2009, na Coppa Italia de 2010 e no Mundial. Sofreu com algumas contusões e se aposentou em 2012, depois de 13 anos jogando na equipe de Milão.

Walter Samuel: depois de brilhar no Boca Juniors e na Roma, Samuel reencontrou na Inter seu grande futebol, após uma passagem ruim pelo Real Madrid. Com Mourinho, ganhou a titularidade e regularidade na equipe, fazendo uma grande dupla de zaga com Lúcio. Raçudo e muito forte, Samuel foi peça chave no sucesso da Inter no período.

Marco Materazzi: era o zagueiro titular da equipe até a chegada de Mourinho. Todos achavam que o bad boy italiano logo deixaria o clube, mas pelo contrário: seguiu na equipe, foi essencial nos bastidores e no dia-a-dia e continuou para vencer tudo nas temporadas seguintes. Segundo o próprio zagueiro, Mourinho o fazia se sentir parte da equipe.

Nicolás Burdisso: jogou em grande parte da temporada 2008-2009 na equipe, podendo atuar no setor esquerdo ou direito da zaga, mas as seguidas expulsões em campo fizeram o jogador perder espaço até ser emprestado para a Roma, perdendo a chance de vencer a Liga dos Campeões de 2010.

Cristian Chivu: o romeno foi outro jogador fundamental para o esquema de Mourinho entre 2008 e 2010, podendo atuar como lateral, volante e até zagueiro. Muito forte na marcação e no passe, Chivu foi figurinha constante em vários dos decisivos jogos da Inter.

Javier Zanetti: capitão, líder, soberano na defesa, craque. Javier Zanetti é o grande símbolo da geração atual da Internazionale. Extremamente identificado com o clube e ídolo da torcida, o argentino é o jogador com mais jogos pela equipe com 845 jogos disputados e 21 gols marcados. Está na equipe desde 1995 e se destaca por ser polivalente, podendo atuar nas duas laterais e como volante. Foi a voz da equipe no período mais glorioso da Inter desde a década de 60. Deve se aposentar em breve e assumir algum cargo executivo no clube.

Esteban Cambiasso: outro craque argentino, Cambiasso era o “cão de guarda” do meio de campo da Inter naqueles anos mágicos. Ótimo na marcação e no apoio, Cambiasso sabia como ninguém como neutralizar investidas de atacantes habilidosos. Ia para o ataque como elemento surpresa e marcava vários gols.

Thiago Motta: jogou muito na Liga dos Campeões de 2009-2010, sendo um dos destaques na vitória por 3 a 1 sobre o Barcelona, na semifinal, quando ajudou a anular Messi e companhia. Ficou de fora da final, mas conseguiu o título.

Dejan Stankovic: depois de brilhar na Lazio, o sérvio chegou à Inter em 2004 para não sair mais. Foi um dos titulares do meio de campo da equipe por anos, até passar a frequentar a reserva com a chegada de Mourinho e dos anos. Mesmo na reserva, cumpria seu papel quando entrava na marcação do meio de campo e no apoio ao ataque com seus chutaços de longe. Deixou a equipe em julho de 2013, após quase 10 anos no clube.

Sulley Muntari: chegou em 2008 e estreou logo na Supercoppa Italia, vencida pela Inter sobre a Roma. Foi titular em algumas partidas, mas sofreu com a concorrência no meio de campo, por conta de tantos bons jogadores e de seu gosto pelas faltas.

Wesley Sneijder: craque e com ampla visão de jogo, o meia foi a peça que faltava para a Inter conquistar, enfim, um título europeu. Deu criatividade ao meio de campo do time e foi peça-chave nas competições vencidas pela equipe em 2010, com destaque para seus gols no mata-mata da Liga dos Campeões, contra CSKA e Barcelona. Ainda em 2010, levou a Holanda à final da Copa do Mundo com novas atuações de gala. Ficou entre os melhores jogadores do mundo naquele ano.

Luís Figo: foi um dos maiores meias da história do futebol mundial e conquistou oito títulos com a Internazionale. Em 2008 e 2009, Figo já não tinha mais o vigor de antes e começou a sofrer com a concorrência, além das preferências de Mourinho. Com isso, o experiente jogador disputou apenas 26 jogos na temporada 2008-2009 marcando um gol. Encerrou a carreira no time nerazurro em 2009 com chave de ouro ao conquistar seu quarto scudetto na carreira. Hoje, ocupa a função de embaixador da Inter.

Samuel Eto’o: chegou à Inter em 2009 numa troca com o Barcelona envolvendo Ibrahimovic e não se arrependeu. Seguiu jogando em alto nível, com a habilidade e o faro para gol característicos, além de ser essencial para a força ofensiva proposta por Mourinho. Conquistou, em 2010, a terceira Liga dos Campeões da carreira e a segunda consecutiva, depois de levantar duas taças com o Barça em 2006 e 2009. Pela Inter, se tornou o primeiro jogador na Europa a conquistar dois tripletes por duas equipes diferentes em dois anos seguidos (2009, pelo Barcelona e 2010, pela Internazionale). Brilhou, também, no Mundial de Clubes, no qual foi eleito o melhor jogador.

Zlatan Ibrahimovic: na Inter, “Ibracadabra” provou ser mesmo um craque marcando muitos gols e sendo fundamental para os títulos da equipe na era de ouro que começou em 2006. Cumpria o papel de matador como ninguém e anotou vários golaços, além de ter sido o artilheiro da equipe no período até se transferir para o Barcelona em 2009, um erro que custou o título da Liga dos Campeões.

Diego Milito: chegou, arrasou e se eternizou. Milito viveu uma temporada de ouro em 2009-2010. Supriu a saída de Ibrahimovic com perfeição ao se tornar o principal nome do ataque da equipe de Mourinho, marcando vários gols sempre protegendo bem a bola dos zagueiros com muita técnica, inteligência e aplicando dribles secos, além de chutar muito bem e mostrar sangue frio em partidas decisivas. Foi o talismã do time na Liga dos Campeões e o nome da final contra o Bayern, quando marcou dos dois gols da vitória italiana. Virou ídolo da torcida.

Mario Balotelli: temperamental e polêmico, Mario Balotelli já mostrava sua faceta nos tempos de Inter. Era genial em determinadas partidas e desastroso em outras, provocando ódios e alegrias na torcida. Mourinho lidou com o atacante com rédea curta, lhe deu chances, mas o italiano não soube aproveitar, perdendo espaço com as chegadas de Milito e Eto’o. Seu melhor momento foi na temporada 2008-2009, quando se entendeu muito bem com Ibrahimovic. Disputou 86 jogos e marcou 28 gols pela Inter.

Goran Pandev: chegou à Inter para ser campeão e fazer uma grande parceria com Milito e Eto’o no ataque. Deu várias assistências para o argentino, inclusive na final da Liga dos Campeões contra o Bayern. Marcou poucos gols pela Inter no período em que esteve no clube: apenas oito em 69 jogos.

José Mourinho e Rafa Benítez (Técnicos): depois de fracassar na luta pela taça europeia com o Chelsea, Mourinho foi para a Inter e conseguiu dar a volta por cima ao seu estilo: taças em abundância, polêmicas e um desempenho incontestável. Derrotou todos que passaram pelo seu caminho, soube como ninguém neutralizar e derrotar o Barcelona de Guardiola dando aula tática e faturou um inédito triplete para a Internazionale, além de dar à equipe um título europeu depois de 45 anos. Mourinho foi colocado no mais alto patamar em 2010 como o melhor técnico do mundo, até perder o posto para Guardiola em 2011. Com sua saída, a Inter se enfraqueceu, mas conquistou a Supercoppa Italia e o Mundial de Clubes da Fifa com Rafa Benítez, que se não teve a estrela e o controle dos jogadores, conseguiu faturar o maior dos títulos com inteligência e sem deixar zebras aprontarem para cima da Inter. Ambos foram importantes, mas Mourinho foi imortal. E nem precisa explicar por que: comandou a Inter em 108 jogos, venceu 68, empatou 25 e perdeu apenas 15. Faturou cinco dos oito torneios que disputou e não permitiu que a Inter perdesse um jogo sequer no Campeonato Italiano em casa. Um show.

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