Esquadrões

Times históricos: Fiorentina 1953-1962

Grandes feitos: Campeã da Recopa da Uefa (1960-1961), Campeã do Campeonato Italiano (1955-1956), Campeã da Coppa Italia (1960-1961) e Vice-campeã da Copa dos Campeões (1956-1957). Foi o primeiro clube a vencer a Recopa da Uefa e o primeiro da Itália a vencer uma competição da Uefa na história. Detém o recorde de antecedência na conquista do scudetto, com cinco rodadas antes do fim da Serie A.

Time base: Giuliano Sarti (Enrico Albertosi); Ardico Magnini (Enzo Robotti) e Sergio Cervato (Sergio Castelletti); Giuseppe Chiappella (Piero Gonfiantini), Francesco Rosetta (Alberto Orzan) e Armando Segato (Aldo Scaramucci / Claudio Rimbaldo); Julinho Botelho (Kurt Hamrin), Miguel Montuori (Dante Micheli / Antoninho), Giuseppe Virgili (Dino da Costa / Aurelio Milani), Guido Gratton (Luigi Milan) e Maurilio Prini (Gianfranco Petris). Técnicos: Fulvio Bernardini (1953-1958), Lajos Czeizler (1958-1959), Luigi Ferrero (1959), Luis Carniglia (1959-1960), Giuseppe Chiappella (1960), Nándor Hidegkuti (1960-1962) e Ferrucio Valcarreggi (1962-1963).

“Viola eterna”

Se tornar um grande clube é uma tarefa complicada, ainda mais quando falamos de futebol italiano. Juventus, Internazionale e Milan dificilmente deixam algum intruso fazer a festa e levantar o almejado scudetto. Porém, nos anos 50, a equipe de Florença conseguiu não só interromper a hegemonia do trio – e de outros clubes que na época eram gigantes da Bota, como Torino, Bologna e Genoa – como encantar a todos no país com um futebol eficiente, rápido, goleador e com uma dose de juventude e sangue latino-americano.

A Fiorentina, popularmente conhecida como “Viola” por causa de sua cor, o violeta, marcou época entre 1953 e 1962 ao levantar seu primeiro título italiano, celebrar uma Coppa Italia, vencer a primeira Recopa da Uefa e raspar a mão no troféu da Copa dos Campeões, em 1957, quando o time se tornou o primeiro da Itália a disputar uma decisão da principal competição do continente. Se Sarti, Magnini, Cervato, Rosetta, Segato, Julinho Botelho, Montuori, Virgili e Gratton não foram páreos para o Real Madrid de Di Stéfano, a turma de Florença destroçou rivais domésticos e também europeus em partidas marcantes. É hora de relembrar as façanhas da melhor Fiorentina de todos os tempos.

Apostando nos garotos – e nos latinos

Julinho e Montuori: apostas da Viola para conquistar a Itália

Com apenas uma taça conquistada em sua história (a Coppa Italia de 1939-1940), a Fiorentina planejava tempos melhores naquele início de anos 50. Após o predomínio, auge e queda do Grande Torino nos anos 40 (que faturou cinco títulos consecutivos do Campeonato Italiano), a disputa na Itália havia voltado aos tempos de igualdade e várias equipes poderiam brigar novamente pelo scudetto. Mas, para variar, Juventus, Internazionale e Milan monopolizaram as conquistas com duas taças para cada um entre 1949-1950 até 1954-1955.

Sem medo de pensar alto, a equipe de Florença tratou de investir na contratação de jovens talentos acessíveis e de profissionalizar seu quadro diretivo, com uma pontual ajuda de Artemio Franchi, mítico dirigente italiano que mais tarde emprestaria seu nome ao estádio da Viola.

Em 1952, Enrico Befani, homem com muita visão e cheio da grana, assumiu a presidência do clube e começou a trazer nomes promissores para o elenco do time como o defensor Sergio Cervato (das categorias de base), o goleiro Giuliano Sarti, o meia-atacante Guido Gratton, o atacante Giuseppe Virgili, entre outros. Para dar ainda mais força ao elenco e reforçar um setor que andava bastante carente na equipe à época (o ataque), o presidente foi buscar na América do Sul dois jogadores habilidosos e diferenciados. Da Universidad Católica, veio o atacante argentino Miguel Montuori. Do Brasil, a Fiorentina trouxe um exímio ponta-direita que jogava o fino da bola na Portuguesa: Julinho Botelho. Com a dupla latina e os jovens reforços italianos, a Fiorentina poderia, enfim, brigar pelo título nacional.

Futebol inteligente

Desde 1953 que a Fiorentina era comandada pelo técnico Fulvio Bernardini, que armou sua equipe num WM aberto e ofensivo em que os jogadores anteviam as passagens dos companheiros pelo campo e ganhavam na velocidade a disputa pela bola contra o rival. Mesmo com um esquema bastante ofensivo, a zaga tinha os reforços dos médios Rosetta e Chiappella, que ficavam não apenas no meio de campo, mas também recuavam para a zaga oferecendo o suporte para Cervato e Magnini não se sobrecarregarem.

Além disso, Bernardini queria que seu time tocasse muito bem a bola, sem chutões ou jogadas mais ríspidas, e confiava plenamente na inteligência e “nos pés” de seus comandados. A mentalidade tática e prática do treinador surtiu efeito, primeiramente, no setor defensivo da Viola, que teve a melhor defesa do Campeonato Italiano de 1953-1954 com 27 gols sofridos em 34 jogos, desempenho que deu à equipe a quarta posição do torneio. Depois de cair de produção na temporada seguinte (quinto lugar), o esquadrão de Florença daria a volta por cima em 1955-1956 da melhor maneira possível.

Deu liga!

Julinho, Gratton, Virgili, Montuori e Prini:  ataque campeão

Mesmo com tantos reforços caros (principalmente o brasileiro Julinho) e nomes promissores, a Fiorentina não era favorita ao título do Campeonato Italiano e não despertava entusiasmo nem mesmo em sua torcida. No entanto, após algumas rodadas, a turma de Florença percebeu que o sonho antes inatingível poderia, sim, se tornar realidade. Depois de empatar em 2 a 2 contra o Pro Patria, fora de casa, e vencer o Padova por 1 a 0, em casa, a equipe goleou a Juventus em plena cidade de Turim por 4 a 0, com gols de Montuori, Virgili (2) e Magnini. Curiosamente, o nome do goleiro da rival Juventus naquela partida foi Giovanni Viola…

Na sequência, a equipe empatou sem gols contra a Internazionale, derrotou o Bologna por 2 a 0, fora de casa, goleou a Atalanta por 4 a 1, empatou com o Vicenza em 1 a 1, venceu o Torino por 2 a 0, empatou com o Novara em 1 a 1 e bateu o Milan de Liedholm e Schiaffino por 2 a 0 em pleno San Siro, com gols de Montuori e Virgili. Embalada, a Fiorentina seguiu invicta até o final do primeiro turno depois de vencer a Roma por 2 a 0, a Triestina por 1 a 0, o Napoli por 4 a 2, empatar sem gols com a SPAL e a Sampdoria, empatar em 2 a 2 com a Lazio e vencer o Genoa por 3 a 1.

Levando poucos gols e mostrando um futebol muito eficiente e competitivo, a Viola parecia não ter rivais na Itália depois do término do primeiro turno do campeonato. Muitos, claro, duvidavam que o time conseguisse manter o embalo até o final da temporada, mas a equipe provou que não estava nem um pouco a fim de morrer na praia e emendou quatro vitórias seguidas no returno: 4 a 1 no Pro Patria, 1 a 0 no Padova, 2 a 0 na Juventus e 3 a 1 na Internazionale em pleno estádio Giuseppe Meazza. A sequência de triunfos foi interrompida após dois empates sem gols contra Bologna e Atalanta, mas os comandados de Bernardini voltaram ao ciclo de vitórias com um 2 a 0 sobre o Vicenza, 1 a 0 no Torino, 4 a 2 no Novara e 3 a 0 no Milan, rival direto na disputa pelo título. Imbatível e quebrando recordes, a equipe estava muito perto de celebrar o scudetto por antecipação e, após empatar em 1 a 1 com a Roma, o caneco poderia vir já na 29ª rodada, com cinco rodadas de antecipação.

O scudetto eterno

Formação da equipe campeã em 1955-56

Jogando fora de casa contra a Triestina, a Fiorentina fez o básico para empatar em 1 a 1 (o gol da Viola foi marcado por Julinho) e conseguiu, com cinco rodadas de antecipação, o inédito título do Campeonato Italiano. A festa em Florença foi enorme e a torcida parecia viver um sonho com a conquista do maior troféu da Itália. Mesmo campeã, a Viola seguiu invicta até a última rodada depois de empatar com o Napoli (0 a 0) e a Sampdoria (0 a 0) e vencer o SPAL (1 a 0) e a Lazio (4 a 1).

Há 33 jogos sem conhecer a derrota, quis o destino que a campanha da equipe tivesse uma ligeira mancha justo na última rodada, contra o Genoa, fora de casa, com uma vitória por 3 a 1 dos mandantes. Mesmo assim, a campanha da Fiorentina foi uma das melhores e mais nobres da era de 18 clubes no Campeonato Italiano em todos os tempos: 34 jogos, 20 vitórias, 13 empates e apenas uma derrota, com 59 gols marcados e 20 sofridos – melhor defesa. Foram 12 pontos de vantagem sobre o vice-campeão, Milan, e nenhuma derrota jogando em casa (12 vitórias e cinco empates), além de ter sido líder absoluta do torneio da 8ª rodada até o fim. A equipe era tão boa que conquistou o campeonato com cinco rodadas de antecedência, igualando o Grande Torino de 1947-48 – o feito foi igualado pela Inter, em 2006-07.

O atacante Virgili foi o grande artilheiro da equipe na competição com 21 gols marcados, seguido de Montuori (13), Julinho e Prini (seis cada), Cervato (5) e Gratton (3). De todos os jogadores, apenas Gratton e Segato disputaram todas as 34 partidas. Cervato, com 33, Chiappella, Magnini, Montuori e Virgili, com 32, e Julinho, com 31, foram os outros recordistas de jogos com a camisa da Viola no torneio. A taça deu à Fiorentina uma vaga na Copa dos Campeões de 1956-1957.

Um Real no meio do caminho…

Di Stéfano fuzila a Fiorentina na Copa dos Campeões de 1956-1957

Ainda novata, a Copa dos Campeões começava a ganhar a simpatia do público europeu na temporada 1956-1957. A primeira edição do torneio, realizada em 1955-1956, vinha para se tornar a principal copa interclubes do continente e para tomar o lugar de torneios como a Copa Mitropa e outros tantos que foram realizados antes e depois da II Guerra Mundial. A Fiorentina estreou nas oitavas de final contra o Norrköping, da Suécia, e empatou a primeira partida, na Itália, em 1 a 1, vencendo a volta na Suécia por 1 a 0 (gol de Virgili). Nas quartas de final, os italianos venceram o Grasshopper por 3 a 1 na ida (dois gols de Taccola e um de Segato) e empataram em 2 a 2 na volta, na Suíça (gols de Julinho e Montuori). Na semifinal, a Viola não se intimidou com os 40 mil torcedores contra no estádio nacional, em Belgrado, para a partida de ida diante do Estrela Vermelha. Prini marcou o único gol do jogo e deu a vitória por 1 a 0 aos italianos. Na volta, o empate sem gols colocou a Fiorentina na decisão da Copa dos Campeões.

Julinho, um dos maiores ídolos da história viola

Na grande final, a Fiorentina teve que encarar um adversário triplo: o Real Madrid, o general Franco e as mais de 120 mil pessoas no estádio Santiago Bernabéu, em Madrid, palco da partida. Mesmo jogando com Sarti, Magnini, Cervato, Segato, Julinho, Virgili e Montuori, os italianos não resistiriam ao ambiente hostil e totalmente favorável aos espanhóis, que foram beneficiados pelo árbitro Leo Horn, que marcou um pênalti inexistente em Mateos mesmo após o bandeirinha marcar impedimento do próprio Mateos bem antes da falta, que foi fora da área.

Di Stéfano, astro de um time que contava com nomes como Miguel Muñoz, Zárraga, Kopa e Gento, marcou o gol e embalou os espanhóis rumo à vitória por 2 a 0. Aplaudida após o fim do jogo, a Fiorentina deixou o gramado de cabeça erguida, mas bastante ferida pelo favorecimento descarado da arbitragem, que foi extremamente benéfico ao time da casa e, principalmente, ao general Franco, que acompanhava o jogo bem, mas bem de perto…

A única boa notícia para a torcida da Viola naquela temporada foi o título da Copa Grasshoppers, torneio internacional que era disputado desde 1952 pela equipe italiana e que foi um dos que ajudaram ao desenvolvimento de competições internacionais a nível continental. O torneio foi realizado nos moldes “todos contra todos” e tinha como participantes equipes da Europa Ocidental: Nice (França), Dinamo Zagreb (antiga Iugoslávia), Austria Wien (Áustria), Schalke 04 (Alemanha), Grasshopper (Suíça), além da própria Fiorentina. A Viola foi campeã com sete vitórias, um empate e duas derrotas em 10 jogos, com 24 gols marcados e 15 sofridos.

Profusão de gols e seca de títulos

Hamrin: goleador e maior artilheiro nos anos 60

Depois do vice na Copa dos Campeões, a Fiorentina entrou em uma fase curiosa. A equipe tinha um elenco formidável, havia conseguido aumentar consideravelmente sua média de gols marcados sem cair de produção na defesa, mas não transformou tudo isso em títulos. Nos Campeonatos Italianos de 1956-1957 até 1959-1960, a Viola foi quatro vezes vice-campeã, ficando atrás de Milan, Juventus, Milan e Juventus, respectivamente.

Nesse período, a torcida celebrou vitórias inesquecíveis (como um alucinante 4 a 3 no Milan, em maio de 1958, e um 4 a 0 na Internazionale, em outubro de 1958), viu sua equipe alcançar o recorde de 95 gols marcados em apenas 34 jogos na temporada 1958-1959, mas nada de o scudetto voltar para Florença.

Em 1958, a Viola sofreu uma grande baixa no elenco com a saída de Julinho Botelho, que não aguentou de saudades do Brasil e voltou para São Paulo, onde jogaria no Palmeiras como parte da Primeira Academia de Futebol do clube alviverde.

Para o seu lugar, a equipe italiana contratou o sueco Kurt Hamrin, habilidoso atacante que supriu a ausência do brasileiro com muitos gols e grandes jogadas já no Campeonato Italiano de 1958-1959, no qual ele foi artilheiro do time com 26 gols em 32 jogos. Além de Hamrin, outros jogadores que começariam a brilhar com a camisa da Fiorentina em 1958 seriam o goleiro Albertosi, conhecido mundialmente por sua participação na Eurocopa de 1968 (campeão pela Itália) e na Copa do Mundo de 1970 (vice-campeão), o atacante Gianfranco Petris e o defensor Sergio Castelletti, alguns dos nomes que simbolizariam uma nova era de ouro em Florença naquele começo de anos 60.

Nova safra e pioneirismo europeu

Modificada, Fiorentina viveu fase de incertezas

Mesmo com as várias mudanças de técnicos desde a saída de Fulvio Bernardini, em 1958, a Fiorentina conseguiu se reorganizar em campo e começou a década de 1960 com boas perspectivas. Já sem vários nomes do título nacional de 1956 e com um plantel reduzido, a equipe apostava nos torneios de tiro curto para voltar a celebrar títulos e no poder de fogo de seu novo ataque, formado por Hamrin, Petris, Dino Da Costa, Luigi Milan e Dante Micheli, além do agora capitão Miguel Montuori. Sem brilhar na Serie A 1960-1961 (a equipe ficou apenas na sétima posição), a Viola celebrou o título da Coppa Italia daquela temporada após eliminar Messina (2 a 0), Roma (6 a 4), Juventus (3 a 1) e bater a Lazio na final por 2 a 0, com gols de Petris e Milan.

Além do título da Copa nacional, a Fiorentina teve a honra de participar de uma nova competição continental na temporada de 1960-1961: a Recopa Europeia. O torneio foi organizado por vários jornalistas esportivos do continente e pelos organizadores da Copa Mitropa, antiga competição criada em 1927 e disputada apenas por clubes da Europa Central. O objetivo do torneio era reunir os clubes vencedores das copas nacionais dos principais países da Europa, a fim de conseguir um prestígio equivalente a da já badalada Copa dos Campeões, restrita apenas aos campeões dos campeonatos nacionais.

A primeira Recopa teve apenas 10 clubes na disputa e a Fiorentina ganhou a vaga por ser a vice-campeã da Coppa Italia de 1959-1960, já que a Juventus venceu tanto a copa quanto o Campeonato Italiano, se classificando automaticamente para a Copa dos Campeões e dando a vaga na Recopa de bandeja para a Viola.

A estreia da Fiorentina foi contra o suíço Lucerne, derrotado nos dois jogos: 3 a 0 na ida, com dois gols de Hamrin e um de Petris, e 6 a 2 na volta (três gols do brasileiro Antoninho, dois de Hamrin e um de Milan). Na semifinal, os italianos garantiram uma boa vantagem na partida de ida contra os croatas do Dinamo Zagreb ao vencer por 3 a 0 (gols de Antoninho, Dino Da Costa e Petris). Na volta, a derrota por 2 a 1 não tirou a Viola da final. Era hora de fazer história e conquistar a primeira Recopa Europeia.

Europa violeta

Cartaz da final contra o Rangers

A primeira decisão da história da Recopa foi também a única a ser disputada com um jogo na casa de cada clube finalista. A Fiorentina teve pela frente o Rangers, que havia despachado os húngaros do Ferencvaros, os alemães do Borussia Mönchengladbach e o inglês Wolverhampton  antes da final. No primeiro jogo, em 17 de maio de 1961, os escoceses contaram com o apoio maciço de 80 mil pessoas no estádio Ibrox Park, em Glasgow, mas viram Luigi Milan marcar duas vezes e dar a vitória à Fiorentina, que mostrou muita organização e frieza graças ao estilo do técnico húngaro Nándor Hidegkuti, simplesmente um mito do futebol nos tempos de jogador da seleção da Hungria dos anos 50.

Na volta, em Florença, 50 mil pessoas empurraram uma Viola jogando de branco rumo ao título inédito e histórico da Recopa Europeia, conquistado após o triunfo por 2 a 1 sobre o Rangers, com gols de Hamrin e Milan. A taça fez justiça à dolorosa derrota na Copa dos Campeões de 1957 e encerrava de maneira brilhante um ciclo fantástico iniciado lá nos anos 50, que começou sem grandes pretensões, mas que atingia um patamar jamais sonhado pelos torcedores da Viola: o topo da Europa, para inveja dos rivais italianos, que jamais haviam vencido um torneio da Uefa (vale lembrar que a entidade passou a organizar a Recopa a partir da temporada 1961-1962 e reconheceu o titulo da Fiorentina em 1963, após corretas e justas reivindicações da Federação Italiana de Futebol).

Últimos lampejos e o fim

A última festa daquela geração viola foi na Recopa

Na temporada 1961-1962, a Fiorentina fez um bom Campeonato Italiano, mas não conseguiu conquistar o título e ficou na terceira posição. Mesmo assim, o time sapecou os rivais de Milão jogando em casa e enfiou 4 a 1 na Internazionale e 5 a 2 no campeão Milan, em atuações de gala do ataque comandado por Hamrin, Aurelio Milani e Petris. Na Recopa Europeia, a Viola correu em busca do bicampeonato e eliminou Rapid Wien (9 a 3 no agregado), Dynamo Zilina (4 a 3 no agregado) e Újpest (3 a 0 no agregado) até alcançar a final da competição. Nela, os italianos tiveram pela frente o Atlético de Madrid de Joaquín Peiró, Enrique Collar e do brasileiro Ramiro. Depois de empatarem em 1 a 1 no jogo decisivo, em Glasgow, os times tiveram que disputar uma nova partida também em campo neutro, dessa vez em Stuttgart, na Alemanha, em setembro de 1962 – três meses depois do primeiro jogo. Sem o embalo de antes, a Fiorentina perdeu por 3 a 0 para os espanhóis e amargou o vice-campeonato continental, o segundo perdido para um rival de Madrid.

A derrota em 1962 simbolizou o fim de uma era de ouro da Fiorentina, que só voltaria a brilhar em território italiano em 1968-1969 com a conquista de seu segundo scudetto graças a uma nova safra de talentos como Franco Superchi, Claudio Merlo, Luciano Chiarughi e o brasileiro Amarildo, além de vários jovens que deram àquela Fiorentina o apelido de “Fiorentina Ye-Ye”. Mesmo com o título, aquele esquadrão não conseguiu se equiparar aos feitos extraordinários e históricos da Viola dos anos 50 e início dos anos 60, tida até hoje como a melhor já formada pelas bandas de Florença. Uma equipe vencedora, pioneira e inesquecível para qualquer amante do futebol e, claro, para todos os torcedores da Fiorentina. Um time histórico.

Os personagens:

Giuliano Sarti: mesmo baixo para a posição (tinha 1,78m), foi um dos grandes goleiros do futebol italiano nos anos 50 e 60 e integrante de dois times históricos do país. Primeiro, defendeu com maestria, agilidade e muito reflexo a Fiorentina entre 1954 e 1963. Depois, foi brilhar com a camisa da Internazionale, pela qual venceu uma baciada de títulos, incluindo dois Mundiais Interclubes e duas Copas dos Campeões. Disputou 256 jogos com a camisa da Viola.

Enrico Albertosi: goleiro extremamente ágil e capaz de fazer defesas acrobáticas, Albertosi foi um grande nome da Fiorentina, clube onde começou a carreira profissional, entre 1958 até 1968. Assumiu a titularidade aos poucos e conseguiu se sobressair ao antes titular Sarti com eficiência e dedicação. Brilhou com a camisa da Itália e venceu a Eurocopa de 1968, além de disputar a Copa do Mundo de 1970 e ficar com o vice-campeonato. No mesmo ano, Albertosi fez história ao conquistar seu primeiro e único scudetto pelo pequenino Cagliari.

Ardico Magnini: defensor de muita segurança e com ótimo senso de posicionamento e antecipação, Magnini foi um dos poucos craques que tiveram destaque vestindo a camisa da seleção italiana na difícil década de 50 para a Nazionale. Pela Fiorentina, o jogador foi essencial para o setor defensivo ao realizar grandes partidas, neutralizar atacantes com notável precisão e ser exemplo de regularidade entre 1950 até 1958, período em que disputou 241 partidas pela Viola.

Enzo Robotti: depois de uma curta passagem pela Juventus, o defensor encontrou na Fiorentina o lugar ideal para se desenvolver como jogador e mostrar seu talento na marcação, nos passes e na organização da defesa. Robotti jogou de 1957 até 1965 pelo clube de Florença e foi crucial para os títulos do começo dos anos 60, incluindo a Recopa Europeia. Com grande senso de liderança, Robotti foi, inclusive, capitão da Viola em dezenas das 273 partidas que disputou com a camisa do clube.

Sergio Cervato: rápido, incansável, líder e soberano da zaga violeta, Cervato foi um ícone da Fiorentina entre 1948 e 1959 e comandou a equipe na conquista histórica do scudetto de 1955-1956. Com um legítimo canhão nos pés, era comum para o capitão cobrar faltas e pênaltis indefensáveis que foram responsáveis por muitos dos 31 gols que marcou em 340 partidas pela equipe de Florença. Foi um ídolo incontestável na história da Fiorentina.

Sergio Castelletti: formou, ao lado de Robotti, uma temida dupla de zaga que garantiu a eficiência defensiva da Fiorentina entre 1959 e 1966. Forte na marcação e incapaz de brincar em serviço, Castelletti disputou 262 partidas pela Viola e conseguiu destaque no futebol italiano da época, ganhando sete convocações para a seleção.

Giuseppe Chiappella: era um volante combativo, daqueles que chegavam junto mesmo, sem trégua ou corpo mole. Por isso, ganhou a simpatia da torcida por seu futebol vibrante, raçudo e extremamente competitivo. Jogou de 1949 até 1960 pela Fiorentina e foi parte integrante do time campeão italiano de 1955-1956. Disputou 357 jogos pelo clube (quinto na lista dos que mais vestiram a camisa violeta) e fez parte do comando técnico da equipe em boa parte dos anos 60 após pendurar as chuteiras.

Piero Gonfiantini: jogava como zagueiro ou líbero e teve destaque nas conquistas da Coppa Italia de 1960-1961 e da Recopa da mesma temporada.

Francesco Rosetta: foi o grande “senhor” do meio de campo da Fiorentina entre 1948 até 1957, sendo fundamental para o brilho da equipe no período. Duro na marcação e com grande visão de jogo, Rosetta ajudava a defesa com muita segurança e vigor físico. Teve o privilégio de jogar no Grande Torino campeão da Itália de 1946-1947, até partir para a Alessandria na temporada seguinte. Disputou 255 jogos pela Viola.

Alberto Orzan: era o 12º jogador da Fiorentina campeã italiana de 1955-1956 e um dos principais meio-campistas do time entre 1954 e 1963. Foi um jogador de muito talento na marcação e na proteção à zaga, além de saber sair jogando. Disputou 246 partidas pela Fiorentina na história.

Armando Segato: era um virtuose pela esquerda do meio de campo da Fiorentina e um dos principais craques do time naquela era de ouro. Com uma precisão extrema na perna esquerda, Segato dava passes preciosos para os atacantes do time destroçarem as defesas rivais. Jogou de 1952 até 1960 pela Viola e disputou 255 jogos pelo clube, além de ser um dos dois jogadores a disputar todas as partidas do scudetto de 1955-1956, ao lado de Gratton.

Aldo Scaramucci: volante, não teve muitas oportunidades com a camisa da Fiorentina naqueles anos 50, mas teve seu grande momento na carreira ao disputar a final da Copa dos Campeões de 1957.

Claudio Rimbaldo: meio campista, Rimbaldo começou a ganhar espaço na Fiorentina no começo dos anos 60, principalmente na temporada 1960-1961, quando ajudou a equipe a conquistar os títulos da Coppa Italia e da Recopa Europeia. Jogou de 1959 até 1963 pela Viola.

Julinho Botelho: foi um dos maiores pontas da história do futebol brasileiro e só não foi o maior pelo simples fato de por aqui ter nascido um tal de Garrincha. Veloz, driblador nato, extremamente técnico e dono de um chute potente e preciso, Julinho encantava plateias por onde passava com um futebol à frente de seu tempo e digno da magia futebolística que aflorava no Brasil naquela década de 50, quando jogava pela Portuguesa. O craque jogou tanto que despertou a atenção da Fiorentina, que o levou para a Itália em 1955. Julinho conduziu a equipe de Florença ao título italiano de 1956 e disputou a Copa de 1954. Não foi para o mundial da Suécia por não achar justo ir no lugar de algum jogador que atuasse no Brasil. Pela Viola, Julinho disputou pouco mais de 85 jogos e marcou 23 gols, além de dar inúmeras assistências para os companheiros. Foi um ídolo gigantesco para a torcida de Florença e só deixou a equipe italiana, em 1959, por causa da saudade do Brasil. Mas saudade mesmo ele deixou nos italianos, que jamais se esqueceram de suas exibições dignas da mais pura arte futebolística.

Kurt Hamrin: extremamente veloz, oportunista, goleador, baixinho, driblador e craque. O sueco Hamrin conseguiu suprir a ausência de Julinho na Fiorentina com atuações de gala e que o eternizaram como um dos maiores craques da história da Viola. Hamrin foi o principal artilheiro da Fiorentina entre 1959 e 1967 e responsável pela manutenção vencedora da equipe nos anos 60. O sueco detém o recorde de cinco gols marcados em uma mesma partida fora de casa, nos 7 a 1 sobre a Atalanta em 1964, além de ser o maior artilheiro da história da Viola com 208 gols em 362 jogos. Em partidas pela Serie A, porém, o craque perde para o argentino Gabriel Batistuta, que tem 152 gols, contra 150 de Hamrin.

Miguel Montuori: ao lado de Julinho, o argentino Montuori foi um dos principais responsáveis pelo brilho da Viola campeã da Itália em 1956, além de ser leal à equipe de Florença de 1955 até 1961. Com faro de gol apurado, grande visão de jogo e excelente técnica, o atacante marcou 83 gols em 188 partidas pela Fiorentina, fazendo parte dos melhores anos do clube. O atacante jogou, também, 12 partidas pela seleção italiana após se naturalizar em 1956.

Dante Micheli: jogou apenas entre 1960 e 1961 pela Fiorentina, mas o suficiente para ajudar a equipe nas conquistas da Coppa Italia e da Recopa, atuando como meia ou mesmo como atacante. Teve mais destaque jogando pelo SPAL entre 1959-1960 e 1961-1964.

Antoninho: o atacante brasileiro teve algum destaque na Fiorentina entre 1960 e 1961, marcando vários gols importantes durante a campanha do título da Recopa Europeia. Começou no Palmeiras, passou pelo Botafogo-SP e ainda por equipes do interior de São Paulo.

Giuseppe Virgili: era um centroavante nato e foi fundamental para o título italiano da Fiorentina em 1955-1956. Com enorme faro de gol, muita técnica e beneficiado pela presença de craques como Julinho e Montuori, o italiano foi o homem-gol da Viola naquela temporada com 21 gols marcados. Disputou mais de 100 partidas pela Fiorentina e marcou 62 gols com a camisa violeta entre 1954 e 1958.

Dino da Costa: muito oportunista, com enorme presença de área e goleador, o atacante brasileiro jogou bem pouco no Brasil (no Botafogo, no comecinho dos anos 50) até viajar para a Itália e construir sua carreira no país europeu. Pela Fiorentina, Dino da Costa jogou emprestado pela Roma de 1960 até 1961 e teve tempo de conquistar a Coppa Italia e a Recopa Europeia, marcando gols decisivos para o time de Florença.

Aurelio Milani: atacante com boa técnica e presença de área, foi o segundo na história da Fiorentina a se tornar artilheiro da Serie A, na temporada 1961-1962, com 22 gols. Antes dele, apenas o uruguaio Pedro Petrone havia conseguido tal façanha com a camisa violeta, lá na temporada 1931-1932 (25 gols). Milani disputou 51 jogos do Campeonato Italiano com a camisa violeta e marcou 23 gols entre 1961 até 1963.

Guido Gratton: meia de excelente técnica, muito vigor físico e enorme visão de jogo, Gratton foi outro jogador símbolo da Fiorentina campeã italiana de 1955-1956 ao disputar todos os jogos da campanha do título. Jogou de 1953 até 1960 em Florença e disputou 215 jogos com a camisa violeta, marcando 31 gols.

Luigi Milan: o atacante jogou apenas de 1960 até 1962 pela Fiorentina, mas o bastante para se tornar o grande herói da conquista do título da Recopa Europeia ao marcar gols nos dois jogos das finais contra o Rangers.

Maurilio Prini: podia jogar tanto como meio-campista ou atacante e dava conta do recado em ambas as posições com muita técnica e boa qualidade nos passes. Teve destaque nas campanhas do scudetto de 1955-1956 e no vice-campeonato da Copa dos Campeões de 1956-1957.

Gianfranco Petris: foi outro atacante que brilhou pela Fiorentina a partir dos anos 60, principalmente na temporada 1960-1961, quando ajudou a Viola a conquistar a Coppa Italia e a Recopa. Disputou 200 partidas pelo clube e marcou 64 gols. Petris foi, também, artilheiro da Coppa Italia por duas temporadas seguidas: 1959-1960 (4 gols) e 1960-1961 (4 gols).

Fulvio Bernardini, Lajos Czeizler, Luigi Ferrero, Luis Carniglia, Giuseppe Chiappella, Nándor Hidegkuti e Ferrucio Valcarreggi (Técnicos): Bernardini foi, sem dúvida, o principal técnico daquela Fiorentina imortal por construir uma equipe competitiva, consistente e muito sóbria em todos os setores do campo. Com o scudetto de 1955-1956, o treinador abriu caminho para vários outros treinadores tentarem repetir o feito, mas apenas Nándor Hidegkuti e Giuseppe Chiappella obtiveram sucesso com os títulos vencidos pela Viola nas temporadas de 1960-1961 (Coppa Italia e Recopa Europeia) e 1965-1966 (Coppa Italia).

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