Serie A

A morte do mártir veronês

Como vimos na primeira parte deste especial, o Hellas Verona vive um momento de bonança como há anos (décadas?) não se via. Estabilidade econômica, projeções animadoras, bons resultados dentro de campo, ainda que momentâneos – o melhor início de campeonato desde que o clube foi campeão, em 1985. O retorno à Serie A depois de 11 anos e a boa campanha são motivos de constante festa para a curva sul de Verona. Mas a curva sofreu um duríssimo golpe na semana que se passou.

Na última terça-feira (15), às 14h do horário local, foi anunciado o falecimento do vice-presidente em cargo e presidente do clube por três temporadas, Giovanni Martinelli, aos 62 anos. Pouca repercussão para um fato considerado de importância local. Porém, a instituição Hellas Verona chora a perda de “um dos presidentes mais importantes da história gialloblù”, como afirma o jornalista Raffaele Tomerelli, do jornal L’Arena, de Verona, o qual nós entrevistamos para este especial.

“Com o presidente Martinelli, o Verona perdeu o homem que no momento mais difícil de sua história assumiu a responsabilidade de salvá-lo da falência e de recomeçar seu processo de ascensão. Então, olhando os resultados em suas mãos, ele se torna um dos presidentes mais importantes da história gialloblù. Se não fosse por Martinelli, provavelmente o Verona estaria falido pela segunda vez em sua história e, naquele momento, esse acontecimento poderia significar a extinção dessa instituição”, explicou o jornalista.

Na temporada 2006-2007 o Verona foi rebaixado à Serie C (renomeada Lega Pro dois anos depois) pela primeira vez em 64 anos. À beira da falência, o clube esperaria duras quatro temporadas para sair do inferno em que se encontrava. E foi exatamente aí que o fator Martinelli entrou em ação. Em janeiro de 2009, Martinelli, empreendedor veronês de nascença, torna-se o proprietário da totalidade do Hellas, após a morte do então presidente Pietro Arvedi, que sofreu um acidente automobilístico semanas antes.

Foram anos de reestruturação financeira e de montagem de elenco. Dois fracassos consecutivos nos play-offs da Lega Pro e um início ruim na temporada 2010-2011. Mas o torcedor abraçou o projeto, angariando recordes de público da divisão. Na dita temporada, houve a troca de treinadores que, no fim, resultaria no acesso: Andrea Mandorlini, assumiu o cargo e de lá não mais saiu, até os dias atuais. Uma marca da gestão Martinelli: a confiança.

“Martinelli assumiu as rédeas do Verona e conseguiu conquistar o acesso à Serie B, antes de cedê-lo ao atual presidente Maurizio Setti, garantindo a ele continuidade, seriedade e segurança econômica. A sua importância, todavia, vai além dos números e dos resultados. Ele conseguiu trazer de volta ao Hellas aquele patrimônio de paixão e de entusiasmo depois de anos de ilusões”, disse Tomerelli.

Episódio marcante da caminhada rossoblù foi quando Martinelli se fez presente, mesmo extremamente enfraquecido por sua doença, na comemoração em campo do acesso à Serie B, quando o Hellas caiu por 1 a 0 para a Salernitana, em Salerno, mas classificou-se. Após o apito final, houve confrontos campais entre alguns jogadores e até Mandorlini, mas o presidente não perdeu a festa sob a curva de seus torcedores, naquele hostil ambiente.

Sua grave doença, porém, começou a consumi-lo. Após a temporada 2011-2012 em que o Hellas ficou a apenas cinco pontos do acesso direto à Serie A e caiu no play-off para o Varese, Martinelli se viu obrigado a vender 80% de suas ações do clube e abrir mão da presidência, passando-a a Maurizio Setti, ex-vice-presidente do Bologna. No decorrer da temporada, ele vendeu o restante das ações a Setti. Mesmo afastado do dia a dia do clube, quando o Verona confirmou o retorno à Serie A na temporada passada, a torcida reconheceu a figura de Martinelli com a faixa à direita: “Obrigado, Presidente Martinelli”.

“A perda de Martinelli é um golpe duro, mas ele será sentido somente a nível moral. Do ponto de vista econômico, Martinelli havia cedido inteiramente suas ações a Setti e, portanto, elas não poderão ser contestadas por ninguém nesse aspecto. Com certeza fica a dor pela perda de um homem apaixonado, grande dirigente e um grande torcedor. Mas talvez este será um motivo a mais para continuar a honrar sua memória com um grande campeonato”, completou Tomerelli.

Setti demonstrou sua gratidão a seu mentor. “Foi ele quem me trouxe para cá. Depois, infelizmente, a doença acabou interrompendo tudo, pois o afastou pouco a pouco. É uma pessoa positiva, uma coisa belíssima para Verona, não existem muitos presidentes assim. Quando ele veio ao estádio em precárias condições de saúde, na partida contra o Livorno, na Serie A, foi belíssimo, eu o disse que a Serie A era mérito dele. Ele buscou seu sucessor com cuidado, procurando pessoas com a mesma paixão que ele, sem olhar o lado econômico. Quando conseguimos o acesso, nos abraçamos. É minha lembrança mais bonita ligada a ele. No domingo, jogaremos por ele. Era uma imagem positiva, sempre o mantive como membro do conselho administrativo e ele sempre respeitou nossas operações. Fará falta a todos”.

1 comentário

  • É bom ver O Hellas Verona na Serie A, de onde não deveria ter saído desde os anos 1980. Tem uma torcida apaixonada e presente, até numerosa, além de já ter conquistado o scudetto. Merece figurar na Serie A por muitos anos.

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