Serie A

Moratti, o generoso

Este 16 de outubro de 2013 é um dia histórico para a Internazionale. Após muitas especulações e meses de negociação, o clube emitiu um comunicado oficial e confirmou o esperado: após 18 anos no comando, Massimo Moratti vendeu 70% das ações da Inter para o magnata indonésio Erich Thohir, que também é o acionista majoritário do DC United, dos Estados Unidos, e do time de basquete Philadelphia 76ers. A transação encerra a era dos “presidentes-torcedores” nos grandes clubes da Itália e é um ato de generosidade e autoconsciência do dirigente, cuja história da família se confunde com a da Inter – durante 31 dos 105 anos da Beneamata, um Moratti dirigiu o clube.

Óbvio, todos sabemos que Andrea Agnelli é juventino e que Aurelio De Laurentiis é napolitano. Mas, como Silvio Berlusconi, do Milan, são investidores, com pensamento empresarial. Moratti, antes de tudo, empregava a paixão para dirigir a Inter – e por isso cometeu muitos erros e acertos, que seguramente endividaram a Saras, empresa petrolífera de propriedade da família. Interista desde que nasceu, um jovem Massimo viu a Grande Inter, que tinha seu pai, Angelo Moratti, como presidente, dominar o cenário europeu e mundial, nos anos 60. Quase 30 anos depois, foi a paixão, e não uma grande oportunidade de negócios, que fez a família Moratti comprar o clube. Investir em petróleo, naquela época, era mais lucrativo – hoje, ainda é mais importante, no geral.

Investir em petróleo está em baixa, ultimamente, e Moratti não tem mais a mesma capacidade de tirar dinheiro da empresa para colocar na Inter. Mesmo os Agnelli, donos da Fiat, investem menos na Juventus, assim como Berlusconi, presidente do grupo Fininvest e da Mediaset, tem diminuído os gastos com o Milan, após também ter perdido poder político. Hoje, somente De Laurentiis, cuja família é dona da maior produtora de cinema da Itália, aumentou os gastos com a sua equipe – sempre levando em conta que investir no Napoli demanda menos que fazer o mesmo nas três maiores equipes da Itália.

A Roma, que hoje é controlada por investidores ítalo-americanos, viveu processo similar ao da Inter, em 2011 – hoje, são as duas únicas equipes na Serie A com sócios majoritários estrangeiros. Naquela ocasião, a família Sensi, que ficou à frente do clube a partir de 1993, capitulou e cedeu às dívidas, vendendo o clube para Thomas DiBenedetto, presidente de um consórcio que tem cotas minoritárias no Liverpool, mas majoritárias em um clube de outro esporte, o beisebol: ele chefia o Boston Red Sox, da MLB norte americana.

Franco Sensi, um dos maiores presidentes-torcedores da história do futebol italiano, investiu bastante, deu um scudetto à Roma, segurou Francesco Totti, mas viu o alto investimento para a conquista do título, em 2001, se transformar em uma bola de neve de dívidas. Morto em 2008, ele não viu sua filha, Rosella Sensi, ter de aceitar que a Unicredit, principal credora da família, tivesse de administrar o time e colocá-lo à venda. Com DiBenedetto, representado pelo presidente do clube, James Pallotta, a Roma teve duas temporadas ruins, mas começa a engatilhar um ótimo projeto. Há uma margem de crescimento grande, e além de ir bem em campo, o clube conquista o mercado norte-americano, e também pensa em construir seu próprio estádio, deixando o Olímpico, que ainda está em bom estado, mas é de propriedade do Comitê Olímpico Italiano.

Menos paixão, mais pensamento empresarial

A Inter não precisou passar por perrengues. Antes que o clube chegasse perto de quebrar, Moratti foi humilde, reconheceu que não poderia continuar fazendo os mesmos investimentos de outrora para competir com as maiores potências europeias. Sobretudo no período de baixa do futebol italiano, que ficou para trás, em termos de aporte financeiro (e, consequentemente, qualidade técnica), em relação aos campeonatos de Inglaterra, Espanha e Alemanha – seguindo a atual tendência, pode até ser ultrapassado pela França.

Some-se a isso o ultrapassado modelo de negócio do futebol local, com estádios de propriedade estatal, pouca diversificação de renda e ações de marketing pouco efetivas. O abismo cresce, e Moratti sabe disso. A conquista da Tríplice Coroa e do Mundial Interclubes, apesar de ter sido o maior feito da história do clube e ter feito a Inter ganhar, novamente, respeito internacional, não veio acompanhada de mais dinheiro – o que frustrou Moratti. Ao contrário, logo após a conquista, o time começou a reduzir salários e a vender seus jogadores mais valorizados, ano após ano. No fim das contas, após duas temporadas sem participação na Liga dos Campeões, a redução dos custos foi menor do que o esperado, e a qualidade técnica da equipe diminuiu – só agora, as apostas vão se firmando.

As frustrações mudaram os planos de Massimo Moratti. Em prol de um investidor que poderia ajudar a equipe a se firmar no cenário internacional, através de um projeto que leve uma visão mais moderna e empresarial do futebol em consideração, Moratti estava disposto, inicialmente, a ceder apenas uma cota minoritária. Ele negociou com um grupo chinês, e após o fracasso das negociações, teve conversas preliminares com um grupo russo e outro kosovar, mas nada decolou. O principal, para ele, era atrair verba para a construção do novo e moderno estádio do clube, e desafogar algumas dívidas, para contratar reforços, e ampliar o mercado de torcedores. Com Thohir, inicialmente, era esta a negociação. Mas o indonésio foi ambicioso, e depois de três meses de negociação, conseguiu convencer Moratti de que o melhor para a Inter seria uma entrada de capital maior.

Até mesmo Ernesto Pellegrini, de quem Moratti comprou a Inter em 1995, se ofereceu para ajudar a sanar as dívidas, com a ajuda de outros empresários que torcem para o clube, temendo que o clube acabasse nas mãos de estrangeiros aventureiros, sem amor pelo clube. Mas Moratti já havia feito a cabeça e respondeu, explicativo, em entrevista à Gazzetta dello Sport: “Obrigado, Pellegrini, mas o problema não são os débitos, mas aumentar os lucros e desfrutar mais ganhos no mercado externo. Se fossem as dívidas, eu poderia continuar à frente da equipe. Para dirigir um time de futebol, é necessário amor. E, acredite, estou fazendo isso pelo bem da Inter. A nostalgia é algo que está sempre no passado. Prefiro olhar para o futuro”.

Moratti citou, ainda, como o futebol italiano perdia terreno por olhar apenas para dentro do seu país, preocupando-se apenas com ganhos com direitos televisivos e transferências, sem olhar para o mercado externo e em renovar o seu modelo de negócio. “Hoje, ter um sócio asiático pode internacionalizar uma equipe mais do que ganhar uma Tríplice Coroa”, disse. Atualmente, a Inter é o 14º time mais valioso do mundo, de acordo com levantamento feito pela revista Forbes – vale 401 milhões de dólares; o mais valioso, o Real Madrid, vale 3,3 bilhões, e, na Itália, Milan (945 mi, 7º geral) e Juventus (694 mi, 8º geral), estão à frente. Os planos de Moratti e Thohir claramente vão no sentido de fazer com que a equipe ganhe terreno também nesta competição.

O presidente abriu mão da cota majoritária, e o que poderia ser visto como humilhação – seguir no clube, mesmo sem ter poder decisivo –, é um ato de grandeza. Os Moratti continuam com 26,44% do clube, Thohir tem 35%, Rosan Roselani e Handy Soetedjo, seus sócios, dividem os 35% restantes, enquanto os grupos CMC e Pirelli tem, juntos, 3,5%. O valor de compra girou em torno de 350 milhões de euros, mas de acordo com o jornal Tuttosport, Moratti não ganhou um centavo. Tudo foi utilizado para pagar dívidas do clube e planificar o orçamento da próxima temporada.

Além de manter uma cota no clube, a família Moratti também mantém três cadeiras no conselho deliberativo (os indonésios terão cinco), e a mídia italiana afirma que também tem poder de veto para algumas questões, embora não se saiba quais. Não há dúvidas de que o presidente ainda será uma figura importante no clube, e ajudará os novos investidores. Provavelmente, continuará no cargo executivo máximo por pelo menos alguns meses. Não há uma definição quanto a isso, ele assegurou.

A frase do jornalista Paolo Bandini, do inglês Guardian e do canadense The Score, é emblemática: “Até rivais tem que amar Moratti um pouquinho. Ele é apenas um torcedor que teve a sorte de ser rico o suficiente para fazer o que nós todos gostaríamos de fazer (comandar o nosso próprio time de futebol). Tarcisio Burgnich, zagueiro que foi símbolo da Grande Inter, e hoje comenta, de vez em quando, acontecimentos ligados ao clube, acertou na mosca: “É uma virada histórica para os nerazzurri. Antigamente, o futebol era gerido por presidentes apaixonados. Hoje, o dinheiro é mais importante”.

Moratti não se despede, mas provavelmente ficará mais afastado das decisões nos anos seguintes. Por enquanto, deverá seguir como presidente, e também como acionista, fazendo a ponte entre a nova e a velha gestão. Sob seu comando, o clube viveu sua fase mais vitoriosa na história, tirando a Inter de um papel de coadjuvante na Itália, que durou mais de 20 anos – entre 1968, quando Angelo Moratti vendeu a Inter, e 1995, foram conquistados apenas três scudetti, duas Copas da Itália, duas Copas Uefa e uma Supercopa Italiana.

Moratti honrou a Grande Inter, que faturou sete troféus – três scudetti, duas Copas dos Campeões e dois Mundiais – e até a superou, pois em sua administração, a equipe conquistou 16 troféus. Levou ao clube alguns jogadores daquela época, que trabalharam como diretores, como Sandro Mazzola e Giacinto Facchetti, que chegou a ser presidente.

Assim como o time comandado por seu pai, sua gestão demorou a engrenar. Massimo colecionou fracassos, à parte a Copa Uefa de 1997-98, e levou a equipe a um ciclo vitorioso, entre 2004 e 2011, com mais 15 troféus, incluindo cinco scudetti, e a Tríplice Coroa, única em solo italiano. Também faturou um Mundial de Clubes. Não dá para dizer que não valeu a pena.

Além de tudo, sempre esteve muito presente no dia a dia e nos jogos do clube, mostrando-se muito próximo de jogadores, comissão técnica e demais funcionários. Mesmo os jogadores que deixaram a Inter com mágoas quanto à sociedade, sempre levantaram-se para dizer que Moratti sempre lhes havia tratado bem. Muitos já foram além e associaram a figura de Moratti a de um pai. À Inter uma figura de referência quase sempre foi necessária nos maiores sucessos – nos anos 60, Angelo Moratti, Helenio Herrera e um séquito de craques liderados por Sandro Mazzola; no scudetto dos recordes, em 1989, Giovanni Trapattoni e Giuseppe Bergomi; depois Moratti e Javier Zanetti, além de José Mourinho, entre 2008 e 2010.

Haverá Thohir o mesmo amor e dedicação pela Beneamata?

IndoInter

No escritório de Thohir, caneca do Barça deixa claro que o indonésio não chega como torcedor. Empresário, ele chega para injetar dinheiro, mas não transformará a Inter em Chelsea, Manchester City ou PSG

No anúncio que confirmava passagem de bastão de Moratti a Thohir e seus sócios, o redator lembrou do lema de fundação do clube. Giorgio Muggiani, um dos fundadores, em seu discurso, disse: “a equipe se chamará Internazionale porque somos irmãos do mundo”. A Inter foi fundada por dissidentes do Milan que defendiam que estrangeiros pudessem vestir as cores do clube. Como naquela época, o momento atual é, também uma abertura ao estrangeiro.

Erick Thohir, novo acionista majoritário da Inter, é dono do grupo Mahaka, o maior conglomerado de comunicações da Indonésia – seu irmão mais velho, Garibaldi Thohir, que atua no ramo de energia (carvão e refinaria de petróleo), é o 1250º homem mais rico do mundo, o 19º da Indonésia. Thohir já tem experiência administrativa com esporte desde 2011, quando comprou 15% do Philadelphia 76ers, franquia da NBA, e a maior parte das ações do DC United, da MLS. Além disso, tem dois clubes de basquete na Indonésia, onde também é o presidente da federação local da modalidade. Também dirige a Confederação de Basquete do Sudeste Asiático.

Thohir, em declarações à mídia italiana, declarou que é muito difícil ter um negócio 100% próprio, e sempre foi aberto a ter sócios – o que mantém a família Moratti ligada à Inter, o que também ficou claro no comunicado oficial emitido nesta tarde. Thohir já tem sócios, também indonésios, que participam de suas outras empreitadas no ramo esportivo. Rosan Roeslani é empresário dos ramos bancário e financeiro, e também atua em outros setores, como infraestrutura, imobiliário e turismo, além do esportivo – é um dos donos do DC United, junto com Thohir. Handy Soetedjo é sócio de Thohir no grupo Mahaka, e empresário que atua em setores estratégicos de energia, como carvão, petróleo e gás natural, além do setor imobiliário. É sócio de Thohir no Philadelphia 76ers.

A entrada do magnata abre definitivamente as portas do importante mercado asiático para a Inter, embora a chegada dos novos investidores não irá fazer da Inter uma potência gastadora, como Chelsea, Manchester City, Paris Saint-Germain ou Monaco. Thohir é rico, mas não como os donos dos clubes citados, e investe com parcimônia, muito mais a médio/longo prazo do que de uma vez só.

Hoje, a Indonésia cresce bastante e, nos últimos seis ano, registraram taxas de crescimento do Produto Interno Bruto entre 4% e 6,9%. Pensando nisso, a Inter já lançou um site em bahasa indonésio, língua oficial do país, e até pode contratar o meio-campista Radja Nainggolan, destaque do Cagliari, e belga de origens indonésias. As outras negociações, porém, devem ser as mesmas especuladas na última janela de transferências, embora o diretor esportivo Marco Branca esteja cotado para deixar o time – Leonardo, segundo rumores, seria favorito para assumir o posto. O efeito Thohir, em termos de contratações, pode ser visto realmente na próxima temporada, como explicam os amigos da Trivela, e há a intenção do magnata em continuar o processo de renovação da equipe.

É bom lembrar que pode mudar também o patrocinador master da equipe. Afinal, nada garante que a Pirelli, que estampa a camisa da Inter desde o início da Era Moratti, em 1995, continua ocupando aquele espaço, e que Thohir e seus sócios não negociem com outra empresa global, que ofereça um contrato melhor. Marco Tronchetti Provera, presidente da Pirelli sempre foi um dos nomes fortes do conselho deliberativo do clube, e deve perder espaço.

Dentro dessa perspectiva, as mudanças internas no clube de Milão devem ser poucas, ao menos nos primeiros anos da parceria entre Thohir, seus sócios e Moratti. Num primeiro momento, a Inter se vale mais de um desafogo nas finanças e mais destaque na Ásia, preparando o terreno para investimentos para a construção do novo estádio, que pode ficar pronto até 2017, na zona leste de Milão – longe do San Siro, que fica na parte oeste. Para tanto, emplacar a volta à Liga dos Campeões já na próxima temporada seria fundamental e poderia, ainda, animar Thohir a abrir o bolso em seu primeiro mercado, contratando nomes de peso e jovens de grande perspectiva. É tempo de unir a paixão às lógicas de mercado, mas, principalmente, de ter paciência.

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