Dérbis

Dérbis: Verona x Chievo

Apenas pela segunda vez na história a cidade de Verona terá o seu dérbi local, o Derby della Scala ou Derby dell’Arena, disputado na Serie A do futebol italiano. Onze temporadas depois, o Verona e o Chievo voltam a se enfrentar na elite e o Marcantonio Bentegodi promete ferver com seus cerca de 30 mil pagantes que possivelmente estarão presenciando o momento histórico.

Nesta temporada, assim como na de 2001-2002, o italiano é, dos grandes campeonatos, o único com cinco dérbis citadinos – ou seja, com clubes da mesma cidade. Com o acesso do Hellas à Serie A, a máxima divisão do país passou a possuir cinco dérbis municipais no total: o de Verona; o de Turim, com Juventus e Torino; o de Milão, com Milan e Internazionale; o de Roma, com Lazio e Roma;  e o de Gênova, com Sampdoria e Genoa. Mas, dentre eles, o clássico veronês é o de história mais curta.

Assim como o Dérbi da Sicília, entre Palermo e Catania, o confronto entre os dois clubes scaligeri sequer chegou ao número de 20 partidas disputadas. Hellas e Chievo duelaram apenas dez vezes nos mais de 80 anos de existência mútua dos dois times (o Hellas foi fundado 26 anos antes do Chievo). E a primeira delas foi disputada apenas em 1994, na Serie B, que também seria palco dos sete dérbis seguintes, com os dois últimos sendo os disputados na Serie A.

Curiosamente, até pelo baixo número de partidas disputadas entre os clubes, a rivalidade entre os dois times nem é a mais intensa, ao menos para o Verona, que tem mais rivalidade contra o Vicenza – exatamente o time contra o qual atuou mais vezes na história, com 93 duelos. Como o Chievo era um time de bairro, que apenas em 1975 começou a disputar campeonatos nacionais, a rivalidade demorou a existir, até por razões da quase ausência de torcida clivense.

Em 2007, quando o Chievo vivia boa fase e o Verona estava na terceira divisão, comerciantes e políticos locais tiveram a ideia de fundir os times, hipótese prontamente recusada pelas torcidas e pelos presidentes à época – Luca Campedelli, atual presidente do Chievo, e Giovanni Martinelli, falecido ex-presidente dos butei, eram até amigos. Porém, a melhor fase dos clivensi nos últimos anos, a utilização das mesmas cores sociais (antes, o Chievo vestia azul e branco), a inclusão de símbolos da cidade e do próprio nome Verona à denominação oficial do Chievo acendeu uma centelha de rivalidade.

Significado do atual dérbi

O eterno chavão amplamente utilizado Brasil afora, que diz que “clássico não tem favorito” pode até ser uma verdade para a maioria dos clássicos do planeta, inclusive este. Mas ninguém há de culpar quem coloque o Hellas como claro favorito para este primeiro encontro da temporada. Não apenas pela boa e surpreendente temporada que Toni e os brasileiros vêm arquitetando para o clube, mas, principalmente, pelo péssimo momento que vive o Chievo, lanterna da competição, dono de apenas uma vitória em 12 partidas disputadas. Torna-se difícil não apostar no Hellas, ainda que, com o perdão da repetição do conceito, tudo pode acontecer em um dérbi.

Toni é a esperança do Verona no dérbi

Quando da temporada 2001-2002, que foi a primeira da história do Chievo na Serie A, o time comandado por Luigi Delneri fez uma campanha brilhante em sua estreia, alcançando a quinta colocação na tabela e a estonteante classificação para disputar a Copa Uefa da temporada seguinte. Nos onze anos seguintes, foram dez participações na primeira divisão, enquanto o Verona esteve sempre ausente, tramitando entre Serie B e Serie C. Exatamente por isso, a surpresa se torna ainda maior na atual temporada: poucos apostariam, há três meses, que o Hellas fosse o time de Verona lutando por vaga em competições continentais e o Chievo o time lutando para manter-se na primeira divisão.

Então, mesmo que ainda no primeiro turno, o dérbi de hoje pode ser um ponto-chave nas ambições antagônicas de ambas as equipes e, acima de tudo, uma chance do Hellas de arquitetar uma “vingança”: a vitória do Chievo no dérbi do segundo turno da temporada 2001-2002 foi preponderante para a afirmação do vitorioso no pelotão de frente e ainda mais para o perdedor, rebaixado seis rodadas mais tarde, com apenas uma vitória nesse período.

O Verona hoje pode beliscar uma vaga em uma competição europeia, caso tenha sorte e competência extremas. O Chievo, com apenas seis pontos, acabou de trocar de técnico, e se mostra a cada rodada o principal candidato a rebaixamento antecipado quando chegarmos às rodadas finais. Um grande indicador será o jogo de hoje, onde tudo pode avançar para a confirmação do óbvio ou tudo pode mudar radicalmente.

Hoje técnico do Chievo, Corini atuou pelos dois times

Os últimos dérbis
11ª rodada da Serie A 2001-02 (18/11/2001) – Verona 3×2 Chievo
Em uma atuação empolgante, o Verona conseguiu virar a partida que o Chievo vencia por 2 a 0, graças a gols de Luciano (ex-Eriberto) e Corini. Aos 40 minutos, Oddo, de pênalti, respondeu à penalidade cobrada por Corini três minutos antes, e deu vida aos butei antes do intervalo. Depois, aos 25 minutos do segundo tempo, Lanna marcou contra, e três minutos depois, Camoranesi marcou o gol da vitória, que levou o time mandante à quarta posição na tabela. Pelo Verona, jogaram três futuros campeões mundiais com a Itália (Oddo, Camoranesi e Gilardino), além de Seric, Dossena, Frick e Mutu, que também defenderam as seleções de seus países. Pelo Chievo, jogaram Perrotta, tetracampeão com a Itália, além de Legrottaglie, Manfredini, Marazzina, Corradi e Mayélé.

28ª rodada da Serie A 2001-02 (24/03/2002) – Chievo 2×1 Verona
Na partida de volta, o Chievo ainda sentia a morte de Mayélé, que havia falecido três semanas antes, por conta de um acidente automobilístico. Os clivensi vinham de uma sequência de cinco empates e também acabaram vencendo de virada. Mutu abriu o placar, aos 13, e Federico Cossato empatou um minuto antes do intervalo. O mesmo Cossato acabou virando o jogo no segundo tempo. Curiosamente, seu irmão Michele atuou pelo derrotado Verona nesta partida. O Hellas vinha em péssima fase no segundo turno, e acabou sendo rebaixado depois, com apenas duas vitórias no returno; já o Chievo seguiu invicto por mais cinco rodadas (com quatro empates), e acabou o campeonato na 5ª colocação, um ponto atrás da zona de classificação à Liga dos Campeões.

Estatísticas gerais
São apenas dez jogos entre Verona e Chievo em toda a história, e apenas duas partidas disputadas na Serie A. O equilíbrio é a tônica do duelo, que tem quatro triunfos para cada equipe e dois empates. Os times também tem o mesmo número de gols marcados: 13 cada. Entre 1995 e 1997, o Verona conseguiu a única sequência de vitórias do clássico, vencendo três partidas consecutivas, e estendendo a invencibilidade por mais um jogo (empate). O tabu caiu em maio de 1999, quando o Chievo encerrou os quatro anos de festa do Hellas.

Personagens históricos

Quando o assunto é o dérbi veronês, nenhum outro personagem tem notoriedade maior do que Lorenzo D’Anna, lateral que defendeu a camisa do Chievo por 13 anos, entre 1994 e 2007, até se aposentar, sendo, inclusive, seu capitão entre 2002 e 2007. D’Anna disputou nove dos dez dérbis, fato que, de acordo com ele próprio, nunca será atingido. Ele esteve presente nos momentos ruins da história do confronto, como na vitória do Hellas por 4 a 0, a maior goleada do duelo, na temporada 1997-98; e nos melhores momentos, com a vitória do segundo turno da Serie A de 2001-02. O zagueiro Maurizio D’Angelo vem logo depois de D’Anna no quesito de dérbis disputados (7), todos também com a camisa do Chievo.

Como destaque entre os treinadores, Alberto Malesani foi o técnico que mais vezes comandou uma das equipes do dérbi, sendo quatro delas pelo Chievo, os quatro primeiros da série, e dois pelo Hellas, os dois disputados na Serie A, totalizando seis dérbis. E outro personagem importante da história do confronto e que também vestiu a camisa dos clivensi é Federico Cossato, artilheiro do duelo, com três tentos. Dois destes três foram os mais comemorados de todos: na vitória de 2 a 1 do Chievo no segundo turno da temporada 2001-02, a doppietta que selou o ano mágico de estreia do clube na Serie A, com a vitória sobre o rival. Peculiaridade: seu irmão, o também atacante Michele, atuou em cinco dérbis, quatro deles pelo Chievo e um pelo Verona.

Eugenio Corini foi o único jogador a marcar pelos dois clubes. Na goleada do Hellas em 1997 por 4 a 0, ele marcou o terceiro gol. Quatro anos mais tarde, porém, ele marcaria de pênalti o segundo gol do Chievo no dérbi de estreia na Serie A, mas, para alegria de sua ex-torcida, ele saiu derrotado por 3 a 2 daquele confronto. Atualmente, Corini é o técnico do Chievo, e ainda mantém status de ídolo no clube, por sua passagem como jogador.

Dérbis marcantes
A curta história do duelo e o fato de apenas dois jogos terem sido disputados na elite do Campeonato Italiano não deixam dúvidas sobre quais são os principais jogos entre os times. Além das duas partidas que já descrevemos mais acima, entraram para a história outros dois jogos: o segundo dérbi entre os times, vencido pelo pequeno Chievo em sua primeira temporada na Serie B, e uma goleada por 4 a 0 do Verona em 1997, na campanha que valeu o acesso à Serie A.

A vitória do Chievo em 1994-95 foi crucial na campanha clivensi na série cadetta. Buscando permanecer na segundona, o time treinado por um ainda jovem Alberto Malesani, em seu primeiro trabalho como técnico de um time profissional, conseguiu vencer a maior equipe de Verona por 3 a 1, na reta final da Serie B. No final das contas, o Chievo escapou da queda por causa de três pontinhos.

Dois anos depois, o Verona pode dar o troco na equipe da mesma cidade. A goleada por 4 a 0 não teve efeito em termos de classificação, já que as duas equipes ficaram no meio da tabela, mas é até hoje a única goleada do clássico. No ano seguinte, o Verona retornou à Serie A como campeão da segundona, mesmo sem ter vencido o clássico citadino (0 a 0 e derrota por 2 a 0).

Colaborou Nelson Oliveira

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