Serie A

Escudo manchado

Del Piero, ao centro, ainda no time de base do Padova, que o revelou para a Itália. Hoje, os biancoscudati vivem a pior fase de sua história, com falência declarada por não terem dinheiro para pagar inscrição na Serie C

“Os aplausos dos padovanos me emocionaram muito e, conhecendo o amor que eles têm pelo time de coração, imagino que estejam sofrendo muito. Espero que se reergam rápido”, escreveu Alessandro Del Piero, em sua página oficial, poucas horas após o anúncio de falência do Padova, na última terça-feira – o clube, que havia caído para a terceirona, recomeçará na Serie D, a quarta divisão. As palavras de carinho do craque italiano podem não ter feito cessar o choro dos cerca de 200 mil torcedores do clube centenário, mas com certeza os fizeram lembrar da importância do time para a história do futebol da Bota.

Os alvirubros da região do Vêneto completaram 104 anos no último mês de janeiro e figuram na lista dos clubes mais antigos da Itália. No primeiro artigo de seu estatuto social, Giorgio Treves de Bonfili, fundador que exerceria também a função de treinador e jogador do time nos primeiros anos, se comprometia com a “difusão do futebol com objetivo da educação física da juventude”, antecipando a tradição de clube formador do Padova.

Não à toa, os resultados nas categorias de base sempre foram mais expressivos que entre os profissionais: são sete taças conquistadas com juniores e semiprofissionais e apenas quatro com o time principal (uma Serie B, uma Serie C e duas Serie C2). A última joia que saiu dos campos de Padova foi Stephan El Shaarawy, estrela do Milan atualmente. O ítalo-egípcio foi outro que fez questão de expressar sua tristeza após a falência: “Vivi momentos belíssimos com o Padova. Sofri, sonhei e me alegrei junto com os torcedores e tive uma experiência única, que me fez crescer muito. 104 anos de história não podiam ser apagados assim”, lamentou.

A equipe, com 27 participações na Serie A (16 delas na fase moderna do torneio, a última em 1995-96), disputou a segunda divisão nacional na última temporada e acabou rebaixada à Serie C. Com problemas financeiros graves, o time não conseguiu os 600 mil euros necessários para se inscrever na Liga e teve que desistir de disputar a terceira divisão 2014-15. A desastrosa gestão de Diego Penocchio no comando do clube fez até sócios antigos tentarem se unir para salvar o time, mas nada deu certo.

Agora, o clube fecha as portas para o futebol profissional e se concentrará na formação de times de base, enquanto tenta se recuperar e voltar ao cenário principal do futebol italiano. A esperança dos torcedores é que aconteça como ocorreu com o Napoli no início do século. Em 2004, a equipe declarou falência, mas com o esforço de empresários locais e, principalmente, do produtor cinematográfico e atual dono Aurelio De Laurentiis, voltou à atividade logo em 2006.

Del Piero em ação pelos biancoscudati

Lendas

Não fosse o clube, pelo menos dois dos maiores nomes da história do futebol italiano talvez nem existissem. Del Piero foi formado no Padova, antes de virar um dos maiores ídolos da história da Juventus, e Nereo Rocco, treinador que revolucionou a forma de jogar na Itália, só foi reconhecido como grande técnico após sua passagem pelo alvirubro, quando levou o time ao melhor resultado de sua história: o terceiro lugar na Serie A de 1957-58.

Foi Rocco quem levou à Itália o estilo defensivo de futebol que a seleção da Suíça consagrou nos anos 1930 e pautou a formação de muitos times da Bota, com o famoso catenaccio. Ele lançou o lendário Cesare Maldini no Milan e insprou Giovanni Trapattoni e Helenio Herrera, dois dos treinadores mais vitoriosos da história. Certa vez, já no fim da carreira – e com 2 campeonatos italianos, 2 Copa dos Campeões e uma taça Intercontinental no currículo -, ele afirmou que o Padova foi o único time da história que executou o catenaccio de forma correta. É ou não parte importantíssima da história do futebol italiano esse tal de Padova? Que a falência signifique apenas um até logo, não um adeus. O escudo há de levantar a guarda novamente.

* No mesmo dia, o Siena também anunciou falência. A Robur, tradicional equipe da Toscana e com 9 participações na Serie A (a última delas em 2012-13), tentam começar de novo a partir da Serie D.

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