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Novos tempos em Vinovo

Conte fez muito pela Juve e o clube fez muito para o treinador. A hora chegou para ambos tomarem seus próprios rumos (Foto: Ansa)

Não há nada mais oficial que a demissão de Antonio Conte. O treinador e a Juventus decidiram, por acordo mútuo, que seguirão caminhos distintos a partir da temporada 2014-15. 

O dia 15 de julho começou com novos rumores sobre a saída de Conte. Hoje foi o segundo dia da pré-temporada, e a imprensa italiana noticiava a todo momento que a Juve não fazia mais parte dos planos do técnico. 

Conte tinha vínculo com os bianconeri até 2015 e rejeitou uma renovação de três anos, com o valor de cinco milhões de euros anuais. Ele disse: “você não pode jantar em um restaurante de alto padrão com dez euros”, referindo-se às baixas chances de seu trabalho melhorar, com um eventual título da Liga dos Campeões. 

Melhorar não seria possível, mas o treinador optou por continuar, após uma novela de conversas após a última temporada. O ex-treinador da Juventus não estava satisfeito com os planos de mercado. Vale lembrar que ele recusou o Paris Saint-Germain e, em maio último, mandou o Monaco pastar após uma oferta milionária. Agora, com uma oferta seguramente menor, ele é o favorito para assumir a Itália.

Conte ficou extremamente insatisfeito que Giuseppe Marotta e Fabio Paratici, dirigentes, não conseguiram convencer Barcelona e Fiorentina por Alexis Sánchez e Juan Cuadrado. Além disso, o fator primordial, certamente, foi outro: a Juventus prometeu que Vidal e Pogba não seriam vendidos. Os meio-campistas encabeçam a lista de reforços de metade dos clubes europeus. Na entrevista concedida após o pedido de demissão, Conte parece algo entre irritado e desiludido. Parece ter acabado de sair de uma reunião pouco produtiva.

Não existe transferência sem o aval do jogador. Se ele não deseja sair, não tem santo o faça mudar de casa. Ponto. Por outro lado, a Juventus não teve o mínimo esforço para blindar nem Vidal, nem Pogba. A diretoria afirmou que só ouviria propostas acima de 75 milhões de euros pelo francês. O primeiro erro foi dizer que o caminho estava aberto para negociações; o segundo foi jogar o valor lá no alto – caso ocorra uma transferência, ela será realizada em cifras menores. 

Pogba escolheu a Juventus a dedo em 2012 exatamente porque Conte acreditou em sua qualidade. O técnico foi fator promordial para o acordo vingar. Agora, sem o treinador, o que resta ao jovem francês de 21 anos que sempre se vê no noticiário durante as janelas de transferências, seja numa venda ou troca? A mais recente é numa negociação que envolva o Real Madrid e Angel Di María. Já Vidal, de férias, declarou que, basicamente, tanto faz em qual clube jogará nesta época. Ele disse, sem mencionar o Manchester United e os 44 milhões de euros da proposta: “sei que é um dos clubes mais importantes do mundo, mas tenho contrato com a Juventus. Se as coisas acontecerem, tudo bem. Caso contrário também ficarei feliz na Juventus”. 

Seguir em frente

Palavras do presidente Andrea Agnelli no site oficial do clube: “recomeçaremos do zero. Temos zero pontos e zero vitórias na tabela como todo mundo. Mas o clube tem um time jovem e forte. Eles estão preparados para atingir qualquer objetivo”. 

O capitão Gianluigi Buffon, em entrevista em Vinovo, falou: “é uma perda gigante, mas não estamos no ano zero. Não sei as razões da saída de Conte, mas o trabalho dele não irá desaparecer em dois meses. Nossa responsabilidade é muito maior agora. Temos de nos unir e provar nosso valor mesmo sem Conte”. 

A Juventus, claro, precisa buscar um técnico. Os nomes de Massimiliano Allegri e Roberto Mancini já foram ventilados. Mas pode ser balela. O trabalho de Allegri no Milan não foi bom – longe disso, fora o scudetto comandado por Thiago Silva e Ibrahimovic. Além do mais, o comandante teria de lidar novamente com Pirlo, exatamente quem o mandou embora do Diavolo. Mancini ganhou títulos na Inglaterra e Turquia; atualmente está no mercado. Contudo, fez parte do corpo técnico da Inter pós-Calciopoli e trocou farpas com a alta direção da Juve à época. Difícil vê-lo treinando um rival. Teria mais: reencontro entre Mancini e Tévez, longe de serem melhores amigos, na Itália.

Se Cesare Prandelli tivesse esperado dez dias antes de fechar com o Galatasaray, seu nome seria o mais indicado, apropriado e/ou veiculado em Turim. Primeiro, por ser identificado com o clube, segundo por ter uma filosofia de trabalho similar à de Conte quanto à ocupação dos espaços em campo e, terceiro, por conhecer muito bem a base juventina. Luciano Spalletti, sempre ele, também é cogitado – seria uma boa inclusão à Juve se quebrasse seu vínculo com o Zenit. 

Alguns outros professores correm por fora. A Juventus já entrou em contato com a Udinese, com quem tem um ótimo relacionamento extra-campo, para verificar a disponibilidade de Francesco Guidolin. Antes do início da temporada de 2013-14, Guidolin (torcedor da Inter, por sinal) cogitou a possibilidade de deixar Údine pela falta de ambição do clube e agora ocupa o cargo de supervisor dos clubes do Pozzo. Seria difícil liberá-lo. Didier Deschamps (contrato com a Federação Francesa até 2016), Vincenzo Montella (até 2017 com a Fiorentina, que não tem bom relacionamento com a Juventus…) e Mircea Lucescu (Shakhtar Donetsk) são outros nomes.

Porém, segundo informa o jornalista Gianluca Di Marzio, Allegri deve chegar ao CT de Vinovo já amanhã. Terá a chance de reconhecer que errou com Pirlo, dispensando-o do Milan quando ele tinha muita, mas muita lenha para queimar.

A saída de Conte durante o mês de julho faz com que o novo treinador tenha trabalho dobrado para ajeitar as coisas no verão. As contratações também podem mudar. Os negócios com Evra, Morata e Iturbe não foram oficializados. Ambos eram jogadores pedidos pelo técnico. Continuarão na lista do próximo comandante ou serão negócios abortados? Ademais, jogadores atualmente em boa posição no plantel podem perder espaço, enquanto outros podem ganhar. É uma Juventus indefinida pouco menos de dois meses antes do início da temporada.

Números de um passado vitorioso

Após uma temporada fraca de 2010-11, terminando o campeonato na 7ª colocação, a Juventus substituiu Luigi Delneri por Antonio Conte. O treinador tinha feito uma ótima campanha com o Siena vice-campeão da Serie B. Porém, o que mais credenciou Conte à vaga em Turim foi seu passado bianconero.

O clube não conquistava um título desde 2006, foi rebaixado à segunda divisão, terminou em 7º lugar duas vezes e teve zagas terríveis. Sob comando do ex-volante, três temporadas então se passaram com a Velha Senhora dominando o território italiano: três scudetti, duas Supercoppa Italia e recorde de pontos e invencibilidade. 

Durante 2011 e 2014, a Juventus venceu 67% de seus jogos. A defesa sofreu 67 gols em 114 partidas da Serie A. No Campeonato Italiano, a Juve foi derrotada somente em sete oportunidades.

No entanto, os números não foram revertidos para uma boa campanha nos torneios continentais. Em 2012-13, o Bayern de Munique, que seria campeão da edição, eliminou os italianos com duas vitórias por 2 a 0; na temporada passada, a Juve caiu na fase de grupos da Liga dos Campeões e não chegou à decisão da Liga Europa ao ser derrotado pelo Benfica.

Conte perdeu a chance de se tornar o 6º treinador a conseguir quatro títulos nacionais consecutivos entre as sete maiores ligas da Europa – Carlo Carcano (Juventus, na década de 1930), Miguel Muñoz (Real Madrid, 1960), Albert Batteux (Saint-Étienne, 1966), Johan Cryuff (Barcelona, 1990) e Frank de Boer (Ajax, 2010).
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Publicado originalmente no Gazzebra.

1 comentário

  • Mancini ganhou títulos, mas poderia ter feito muito mais com M. City e Galatasaray. Idem para Spalletti.

    No geral, Aleggri foi mal no Milan. Nem merecia ser especulado.

    Montella fez ótimo trabalho na viola na temporada passada. Mas não tem bom relacionamento com o clube, como vocês disseram.

    Lucescu seria uma boa. Não sei se ele sabe italiano. Isso pesaria na contratação.

    Mas o melhor vem no final. Esse seria Deschamps. Campeão de tudo pelo clube italiano como jogador. Encaixaria muito bem pela formação usada na França com 3 volantes(Matuidi, Pogba e Cabaye) nessa copa, idem a Juve da ultima temporada(Vidal, Pogba e Pirlo).

    Espero que o Conte vá para a seleção e monte um time que jogue para frente. Uma seleção grande deve ser temida e não temer.

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