Serie A

Entrevista: Jonathan

O ano era 2011, o mês era junho. Naquele momento, Jonathan chegava à Inter de Milão que, dois anos antes, havia conquistado a Tríplice Coroa sob o comando de José Mourinho. Com Rafa Benítez, veio o título mundial, e com Leonardo, um vice-campeonato italiano e uma Coppa Italia. O brasileiro chegava a uma equipe que já havia chegado ao topo de todas as competições e iniciaria, a partir dali, um severo período de entressafra.

Quando Jonathan foi contratado, a Inter tinha Gian Piero Gasperini como treinador. O curto período do agora treinador do Genoa no clube fez com que o brasileiro, pouco aproveitado por Ranieri, fosse emprestado ao Parma, onde teve bons momentos. De volta ao clube, foi mantido por Andrea Stramaccioni no elenco, mas fez jogos ruins e foi muito criticado. Virou até motivo de piada. Surpreendentemente, Walter Mazzarri pediu para que Jonathan ficasse no elenco para ser avaliado. Com WM, o lateral virou titular e uma das principais peças da equipe, além de um dos melhores em sua posição no último Campeonato Italiano. “O período por empréstimo no Parma me ajudou muito a conseguir o meu espaço aqui na Inter. Mas eu considero o Mazzarri o grande responsável pela minha evolução aqui. Quando ele acertou com o clube, os caminhos clarearam e eu passei a receber oportunidades de jogo, que era tudo que eu queria”, diz Jonathan.

Hoje, Jonathan está renovado. Com boas atuações, foi cogitada até mesmo uma possível convocação sua para a seleção italiana – ele possui o passaporte europeu. A Seleção brasileira, agora com Dunga no comando, também tem vagas em aberto na lateral direita, uma vez que Daniel Alves e Maicon podem não ser mais utilizados pelo treinador. E o jogador da Inter, substituto de Maicon no clube, não esconde: quer uma oportunidade de ser também o herdeiro do romanista com a camisa verde e amarela. “Maicon é um jogador excepcional, respeitado e admirado em qualquer lugar. Seria ótimo se eu tivesse também uma chance na seleção, para completar esse ciclo. Acho que eu poderia ser lembrado, sim. No momento que isso acontecer eu vou agarrar a minha chance com unhas e dentes”, afirma.

Confira abaixo a íntegra da entrevista exclusiva que o Quattro Tratti fez com Jonathan, via e-mail.

1 – Você teve um período muito complicado na Inter, entre 2011 e 2013, e voltou a ganhar espaço ainda com Stramaccioni, se firmando de vez com Mazzarri. O que mudou para você ter se firmado na equipe?
O Mazzarri joga mais no 3-5-2, que é um esquema que dá mais liberdade aos laterais. Isso facilitou com certeza. Posso citar também a adaptação ao país e ao estilo de jogo um pouco mais duro do que o futebol brasileiro. O período por empréstimo no Parma me ajudou muito a conseguir o meu espaço aqui na Inter. Mas eu considero o Mazzarri o grande responsável pela minha evolução aqui. Ele é um cara de fácil acesso e que sabe a hora de cobrar os jogadores. Ele me cobra sempre porque tem confiança em mim e eu procuro retribuir dando o meu melhor.

2 – Sua boa fase fez com que você fosse cogitado na seleção brasileira e até na italiana. Hoje, a seleção brasileira tem uma vaga em aberto na lateral direita, e o Maicon, que tinha voltado a ser chamado, não deve estar mais nos planos do Dunga. Ele ou algum integrante da comissão técnica já procurou você ou te informou que você tem sido observado?
Não, ninguém me procurou até o momento. Eu continuo fazendo meu trabalho aqui na Inter e estou focado nos campeonatos que vamos disputar agora. Tenho que continuar a fazer um bom trabalho pra ser lembrado pelo Dunga e no momento que isso acontecer eu vou agarrar a minha chance com unhas e dentes. Tenho confiança total na minha capacidade para ocupar essa camisa 2 da Seleção e mesmo respeitando muito os concorrentes, acho que mereço uma oportunidade pelo bom futebol que estou conseguindo desempenhar no meu clube.

3 – Você guarda alguma mágoa por não ter sido nem mesmo cogitado pelo Felipão?
Não, não. Respeito muito o Felipão. No período que estavam ocorrendo os “testes” das posições eu não tinha me firmado ainda na Inter. Depois, quando eu comecei a me destacar, ele já tinha escolhido os jogadores de confiança. A maioria desde a Copa das Confederações. Na minha posição, Daniel Alves e o Maicon foram os escolhidos, que são dois jogadores excepcionais. Mas, agora, eu poderia ser lembrado, sim. Até porque sempre joguei em time grande no Brasil, já ganhei títulos importantes, já fui para seleção de base e hoje estou bem aqui em um dos maiores clubes da Europa.

4- Prandelli gostava de você, mas deixou a seleção italiana. Conte utiliza o 3-5-2 e alas bastante ofensivos, assim como Mazzarri. Acha que com ele pode ter chances na Azzurra?
Como disse, o 3-5-2 facilita o trabalho de qualquer lateral, o que não é uma exclusividade minha. Pode ser que, caso eu tenha uma oportunidade na Seleção Italiana, isso facilite as coisas lá dentro, pelo meu estilo de jogo. Mas não é garantia nenhuma de que eu seja convocado. O Conte é um treinador excepcional e o trabalho dele nas últimas temporadas de Juventus não deixa dúvidas disso. Ser campeão várias temporadas consecutivas em uma liga tão competitiva é algo muito difícil. Ele provou sua capacidade e a Itália está muito bem servida no comando técnico.

5 – A Inter teve muitos grandes laterais direitos na sua história. Um deles é o Maicon, que também te antecedeu no Cruzeiro, e o outro (talvez o maior) é Zanetti, que dividiu vestiário com você e hoje é vice-presidente do clube. Como é conviver com essa pressão?
Graças a Deus eu tive o prazer de jogar em vários times grandes. Ou seja, a pressão é enorme de qualquer maneira, tendo um grande ídolo antes de mim ou não. Claro que se a gente chega depois de um cara fora de série, como é o caso do Maicon, vai haver sempre a comparação. No Cruzeiro, por exemplo, foi difícil assumir a camisa depois de Maicon e Maurinho, quer saíram como ídolos do clube. Mas eu consegui achar o meu espaço e convencer a todos da minha competência. Fico tranquilo, sem pensar demais nesse assunto e trabalhando cada vez melhor. Sempre lidei bem com a pressão e aqui na Inter não tem sido diferente.

6 – Especificamente, como é ter a pressão da sombra do Maicon, no Cruzeiro e na Inter?
Como disse, eu lido bem com a pressão e nem acho que exista tanto por causa do Maicon. Mas há sempre aquele tipo de comparação nesses casos. É inevitável. Tanto por parte da imprensa, quanto da torcida. Quando um jogador faz muito sucesso em um clube e joga por tanto tempo, como é o caso do Maicon, as pessoas se acostumam a ela. E aqui na Inter era impossível não relacionar os dois jogadores que foram revelados no Cruzeiro e vieram para a Europa. Ele passou pelo futebol francês, eu joguei e fui campeão no Santos. Maicon é um jogador excepcional, respeitado e admirado em qualquer lugar. Seria ótimo se eu tivesse também uma chance na seleção, para completar esse ciclo (risos).

7 – Zanetti, como ex-capitão do time e da sua mesma posição de origem, lhe orientou como funcionam as coisas no clube e em campo? Taticamente e fisicamente também buscou dar conselhos?
Com certeza. Zanetti é um dos maiores ídolos da história da Inter e sempre é alguém que merece ser ouvido. A idolatria que ele recebe aqui não é à toa. Eu procurava sempre ouvir o que ele tinha a dizer, porque é necessário ter a humildade de aprender com um cara tão experiente e vencedor. Na partida de despedida dele, eu tive o prazer de dar espaço para o Zanetti entrar e se despedir da torcida, o que foi um momento muito emocionante.

8 – Qual a importância de Mazzarri na sua boa fase e recuperação na carreira?
Uma importância enorme. Ele é um treinador que sabe motivar os jogadores e passa confiança para todos nós. Lembro que na última temporada dele no Napoli, houve uma especulação de que ele queria me levar pra lá, mesmo eu ainda tendo jogado muito pouco aqui na Inter. Quando ele acertou com o clube, os caminhos clarearam e eu passei a receber oportunidades de jogo, que era tudo que eu queria. Graças a Deus consegui me firmar. Tenho a sorte de ter convivido com grandes treinadores em minha carreira, tanto na base como no profissional, mas, taticamente falando, ele é o melhor com quem já trabalhei.

9 – Como tem sido trabalhar com Walter Mazzarri? É realmente muito exigente e motivador? Em termos táticos, ele e sua equipe de colaboradores trouxeram muita coisa nova para você? Como funcionam as orientações para os jogadores executarem suas funções em campo?
Trabalhar com Mazzarri é sempre muito bom, ele realmente cobra bastante dos jogadores, porque sabe que podemos render sempre mais. Ele exige porque sabe do potencial do grupo. Estamos sempre fazendo muito trabalho tático para trazer algum elemento novo na partida e com isso surpreender os adversários. Vejo o grande segredo dele no trabalho duro e diário, buscando sempre aprimorar as qualidades individuais e de grupo. Ninguém entra em campo sem saber exatamente o que ele quer e quando conseguimos executar bem as tarefas, raramente a vitória não vem. Ele conhece muito do futebol como um todo.

10 – Quando você chegou, havia sete brasileiros no elenco, contando contigo. Hoje, são apenas quatro. Isso dificulta alguma coisa pra você?
Geralmente tem brasileiro em qualquer time do mundo. E, por questões óbvias, é normal que eles se juntem e façam alguns grupos. Da época que eu cheguei, só eu sobrei de brasileiro aqui. Tive o prazer de acompanhar o Maicon, Julio Cesar, Lúcio, entre outros. Mas é normal isso, as negociações acontecem sempre no Futebol. Hoje tem uma turma boa aqui. O Hernanes, o Dodô e o Juan. Todos são muito gente boa e acho que a saída dos outros brasileiros fez parte do processo de renovação da equipe. Não me atrapalhou de forma alguma.

11 – Fala-se muito que os argentinos da Inter tinham muita influência nas decisões, sobretudo Zanetti e Cambiasso. Hoje, a Inter ainda tem argentinos, mas muito menos do que antes. Eles tinham mesmo tanta influência nos bastidores?
Isso é mito. É verdade que eles aqui tinham muita moral e estavam aqui há muito tempo. Mas todo o respeito que eles tinham foi conquistado em campo, com bom futebol e títulos. E acredito que com isso as pessoas de fora começaram a inventar essas coisas, mas eu nunca notei nada disso. Todos sempre foram muito de grupo e lutavam pelo bem da equipe.

12 – A Inter ganhou o triplete em 2010, mas a conquista não veio acompanhada de dinheiro para o clube manter o padrão. Pelo contrário, o time vendeu a maior parte dos seus craques para sanar dívidas e agora, com Thohir, busca economizar. Você acha que a maior conquista do clube, contrastada com esse período de renovação, atrapalha o desenvolvimento dos atletas?
Acho que não. Os títulos de 2010 foram importantíssimos para o clube e o ponto máximo de toda uma geração de jogadores. Aquele time da Inter que venceu era uma equipe madura e que estava no auge de sua forma. Depois que passa, é normal um período de instabilidade até que se consiga uma renovação no grupo e que os jogadores que chegam possam render o seu melhor. É quase impossível manter-se no topo por tanto tempo como foi o caso da Inter, que foi campeã italiana cinco vezes consecutivas. O elenco foi muito modificado, o que era necessário, e o time está no caminho certo. Acredito que, em breve, daremos alegrias ao torcedor novamente.

13 –  Queria que você comentasse sobre o trabalho do Donadoni, também. Ele foi muito criticado quando treinou a Itália e o Napoli, mas fez excelentes trabalhos em equipes menores, como Livorno, Cagliari e agora, no Parma. O Milan chegou a pensar nele como técnico. Me fala um pouco como foi trabalhar com ele no Parma. De que forma ele conduz o grupo?
Donadoni é um excelente treinador. Tem experiência e sabe motivar seus jogadores. Ele já conquistou muitos títulos quando era jogador, então conhece muito desse universo da bola, a cabeça dos atletas. Além disso, é uma pessoa muito boa. O Parma fez com que a minha alegria de jogar futebol voltasse naquele momento que eu cheguei lá. Foi importantíssimo a minha passagem no Parma. Sou muito grato ao clube, aos companheiros e em especial ao treinador Donadoni.

14 – Falam muito que o Cassano é desagregador, mas ele parecia ter uma relação muito boa com alguns jogadores, especialmente Zanetti. O que tem de mito e o que tem de verdade sobre o temperamento dele? Ele é um cara tranquilo ou explosivo com os colegas?
O Cassano é um jogador que tem muita qualidade técnica e que já passou por grandes clubes na carreira. Aqui na Inter ele se dava bem com quase todos os jogadores, apesar de ter temperamento difícil. Mas é um cara verdadeiro que quer sempre quer ajudar o time e não mede esforços para isso. Nunca tivemos problemas no período que atuamos juntos e acho que a maturidade fez bem a ele, que se tornou um cara mais tranquilo, apesar de seguir falando o que pensa.

15 – Para finalizar, onde essa Inter renovada pode chegar?
Vamos brigar pelos títulos em todas as competições. Queremos muito voltar a ganhar o Campeonato Italiano. Além disso, nós conseguimos a classificação para a Liga Europa. Eu gosto muito desse tipo de competição. Já fui campeão da Libertadores com o Santos e sempre fiz boas campanhas com o Cruzeiro. Vamos tentar fazer grandes jogos e conseguir emplacar uma boa sequência de vitórias, para ocupar as primeiras posições desde o início. Se conseguirmos essa regularidade, temos tudo para comemorar com o nosso torcedor ao fim da temporada.

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