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Freddy Rincón chegou a ser atacante em sua passagem pelo Napoli

Se hoje Freddy Rincón é procurado pela Interpol, por suposto envolvimento na lavagem de dinheiro para o tráfico de drogas no Panamá, na década de 1990 ele foi alvo de cobiça por alguns dos grandes clubes da Europa. Era um meia se destacava por sua força física e qualidade com a bola, além de ser uma das principais peças de uma geração colombiana que empolgou na Copa do Mundo de 1990 e chegou como favorita à Copa de 1994.

Graças ao dinheiro da Parmalat, o Palmeiras foi rápido para conseguir tirá-lo do América de Cali, já com seus 28 anos. Em meio a tantas outras estrelas do futebol brasileiro, Rincón não teve dificuldade de se adaptar. Mas o tempo no alviverde foi curto e seis meses depois, após o título paulista e o fiasco da seleção cafetera no Mundial dos Estados Unidos, o Colosso de Buenaventura era anunciado como novo reforço do Napoli.

O colombiano chegou à Itália como parte de um acordo entre o Napoli e o Parma. Como o presidente do clube parmiggiano, Calisto Tanzi, era o mesmo que injetava dinheiro no Palmeiras, ficou acordado que Rincón seria emprestado aos azzurri como parte do negócio que levou Massimo Crippa e Gianfranco Zola à Emília-Romanha – Fabio Cannavaro ainda trocaria de time no ano seguinte. Rincón foi a principal contratação da temporada, juntamente ao italiano Massimo Agostini, ao brasileiro André Cruz e ao francês Alain Boghossian. Eles tentavam suprir as importantes perdas de Ciro Ferrara, Sebastiano Nela, Jonas Thern, Paolo Di Canio e Daniel Fonseca.

Na Campânia ele também reencontrou o palco da fatídica derrota para Camarões, em 1990, que eliminou a Colômbia daquela Copa do Mundo. Saudado pela torcida em sua chegada, inclusive com cantos que remetiam à música Living On My Own, do seu quase homônimo Freddie Mercury, Rincón logo ganhou a confiança do técnico Vincenzo Guerini e também um apelido dado pelo narrador Raffaele Auriemma: o Corsário Negro. Ainda sob as lembranças da Copa, e por causa do forte físico do jogador, Guerini decidiu escalar Rincón no comando de ataque do time napolitano.

Porém, quatro rodadas sem marcar já colocaram em dúvida o verdadeiro potencial do colombiano naquela função. Os dois gols contra o lanterna Padova, na quinta rodada da temporada 1994-95, poderiam afastar qualquer desconfiança, mas o empate por 3 a 3 da equipe partenopea contra uma equipe que não tinha nem feito gols nem conquistado pontos deixou o emprego de Guerini em xeque. Na rodada seguinte, um sonoro 5 a 1 sofrido para a Lazio de Zdenek Zeman consumou a queda do técnico.

O iugoslavo Vujadin Boskov assumiu o time como diretor técnico, enquanto o brasileiro Cané, ídolo do clube, dividia com ele as vestes de treinador. Após uma conversa com Rincón, Boskov definiu o óbvio: o colombiano trocaria o ataque pelo meio campo, posição que mais lhe agradava e onde já havia se destacado. No entanto, ele continuaria chegando muito dentro da área, mas se movimentaria mais, buscando espaços e vindo de trás.

A opção do treinador deu resultado e em pouco tempo Rincón foi, enfim, o jogador que todos em Nápoles queriam ver. Além de um meio campista de muita qualidade e força física, o colombiano ainda marcava seus gols – ao total, foram sete em 28 jogos, que fizeram dele o vice-artilheiro da equipe na temporada, atrás de Agostini (9) e ao lado de André Cruz. O grande crescimento de produção do colombiano se deu na virada do primeiro para o segundo turno, quando ele marcou cinco gols em seis jogos, todos decisivos para as vitórias dos azzurri. O jogo de maior emoção foi contra a Lazio: Pierluigi Casiraghi fez dois belos gols para os romanos, mas com dois de Rincón e um de Renato Buso, o Napoli virou no segundo tempo.

Àquela altura da temporada, o Napoli começou a sonhar com a vaga na Copa Uefa, devido à grande arrancada puxada por Rincón e Agostini. Porém, no último minuto da última rodada, Marco Delvecchio marcou o gol da vitória por 2 a 1 da Inter sobre o Padova, e deixou os nerazzurri com um pontinho a mais que os napolitanos. Com o sétimo lugar, o Napoli não conseguiu se classificar novamente às competições europeias. Naquele ano, a equipe jogou a Copa Uefa, mas caiu para o Eintracht Frankfurt nas oitavas de final. Foi a última vez que os azzurri jogaram uma competição continental até 2008.

Mesmo sem ter feito uma temporada inteira em alto nível, Rincón terminou valorizado a ponto de atrair o interesse do Real Madrid que, a pedido de Jorge Valdano, então treinador blanco, pagou quatro milhões de dólares pelo colombiano. O time de Madrid não ia bem, logo Valdano foi demitido e, sob o comando de Arsenio Iglesias, o meia não vingou. Anos depois, Rincón afirmou que não decolou no clube merengue devido às agressões racistas que sofreu dos próprios torcedores, e também de um colega, como o ex-goleiro Santiago Cañizares. Lorenzo Sanz, que era diretor do clube, também pressionava o jogador, e dizia que se ele se tornasse presidente (o que aconteceu no final de 1995), Rincón seria o primeiro a deixar o time. Dito e feito.

Sem espaço na Europa, Rincón voltou ao Brasil, para jogar outra vez pelo Palmeiras. Em São Paulo, voltou a ser apreciado, e logo trocou de time: assinou com o rival Corinthians, em 1997. No clube do Parque São Jorge, brilhou como um dos melhores volantes do final da década de 1990. Curiosamente, apesar de ser mais reconhecido como um dos melhores nesta função, foi apenas na parte final da carreira que Rincón passou a ser utilizado assim.

Com porte físico avantajado, técnica e visão de jogo, foi moldado na função por Joel Santana, técnico corintiano em 1997, que enxergou no jogador as características necessárias para que ele se tornasse um dos volantes mais modernos do futebol brasileiro naquela época. Peça-chave de um meio-campo que anda tinha Vampeta, Marcelinho Carioca e Ricardinho, virou ídolo, com a conquista de dois Campeonatos Brasileiros e do primeiro Mundial de Clubes da Fifa, como capitão do time. Ainda faturou a Bola de Prata, em 1999.

Logo depois do título mundial, o Colosso de Buenaventura se transferiu para o Santos, e teve também breve passagem pelo Cruzeiro, antes de decretar aposentadoria em 2001. Aposentadoria que seria interrompida em 2004, para uma curtíssima passagem pelo Corinthians, já com quase 38 anos. Em 2013, o volante voltou aos gramados para disputar um amistoso com o América de Cali, para ajudar a reerguer tradicional time e levá-lo de volta à primeira divisão colombiana. O time escarlate, no entanto, continua na segundona.

Após a aposentadoria, Rincón também se arriscou como treinador, mas não vingou. Rodou por clubes menores e teve uma experiência como auxiliar de Vanderlei Luxemburgo no Atlético-MG, até desistir de vez da função. Desde então está sob os olhos da polícia internacional por diversos supostos envolvimentos em crimes na Colômbia e outros países do continente americano.

Rincón colecionou confusões, com Marcelinho Carioca, Mirandinha, Cañizares, entre outros, mas sempre tratou companheiros e jornalistas com o devido respeito. Atualmente, o colombiano participa de programas na ESPN Brasil, como um dos comentaristas do Corinthians na Copa Libertadores.

Freddy Eusébio Gustavo Rincón Valencia
Nascimento: 14 de agosto de 1966, em Buenaventura, Colômbia
Posição: meio-campista
Clubes em que jogou: Atlético Buenaventura (1985-88), Independiente Santa Fe (1988-90), América de Cali (1990-93), Palmeiras (1994 e 1996-97), Napoli (1994-95), Real Madrid (1995-96), Corinthians (1997-2000 e 2004), Santos (2000-01) e Cruzeiro (2001).
Títulos conquistados: Mundial de Clubes (2000), Campeonato Brasileiro (1998 e 1999), Campeonato Paulista (1994 e 1999), Copa da Colômbia (1989) e Campeonato Colombiano (1990 e 1992)
Clubes como treinador: Iraty-PR (2006), São Bento (2007), São José-SP (2009), Corinthians Sub-20 (2009) e Flamengo-SP (2011)
Seleção colombiana: 84 jogos e 17 gols

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