Brasileiros no calcio

O colapso de Vampeta na Inter: oito jogos e adeus

Quando lembramos de Vampeta, lembramos automaticamente de uma pessoa com muita personalidade, por vezes polêmico, e que tem muitas histórias para contar. Histórias, em sua maior parte, engraçadas, irreverentes como o próprio jogador sempre demonstrou ser fora dos campos. No entanto, a passagem do baiano de Nazaré das Farinhas pela Itália não teve graça nenhuma. Pelo contrário, foi um dos momentos mais difíceis de sua carreira como jogador. Uma passagem tão melancólica que fez com que o brasileiro acabasse eleito várias vezes como uma das piores contratações da história da Internazionale.

Até chegar em Milão, no entanto, o Velho Vamp passou por alguns ótimos momentos na carreira. Momentos tão bons que fizeram Massimo Moratti gastar cerca de 30 bilhões de liras – aproximadamente 15 milhões de dólares – para assegurar a sua ida para Appiano Gentile. Vampeta não foi contratado à toa. Tinha credenciais para tal.

Vampeta começou sua carreira no Vitória, onde foi vice-campeão brasileiro das Séries B e A, respectivamente, em 1992 e 1993. Apesar de ter sido pouco utilizado, chamou a atenção do PSV Eindhoven, que o levou para a Holanda em 1994. Seus primeiros meses na Europa foram difíceis, mas ali Vampeta ficou próximo de Ronaldo, um amigo que teria por toda a carreira de futebolista. Após passar um período emprestado a VVV-Venlo e Fluminense (no tricolor, chegou às semifinais do Brasileirão), o volante retornou aos Boeren, assumiu a titularidade e faturou três títulos.

A afirmação na Holanda, contudo, não levou o volante baiano para um grande campeonato europeu. Ao contrário, Vampeta voltou para o Brasil, contratado pelo Corinthians. Foi peça-chave de uma das equipes mais fortes que passaram no Parque São Jorge, ao lado de Dida, Carlos Gamarra, Fábio Luciano, Freddy Rincón, Marcelinho Carioca, Ricardinho, Edílson e Luizão. O time, treinado primeiro por Vanderlei Luxemburgo e depois por Oswaldo de Oliveira, foi bicampeão brasileiro e venceu o primeiro Mundial de Clubes da Fifa. Com grande destaque, foi titular absoluto da seleção brasileira, com Luxa e com Emerson Leão, ganhando uma Copa América e sendo vice na Copa das Confederações. Foi aí que Vampeta entrou de vez no radar dos grandes clubes estrangeiros. E foi a Inter que o levou de volta para a Europa, em agosto de 2000.

O amigo Ronaldo foi um dos principais responsáveis por levar Vampeta à Itália. Os dois tinham o mesmo procurador, e o atacante, mesmo afastado dos campos pela primeira de suas graves lesões, recomendou o jogador à diretoria. Em entrevista ao Corriere dello Sport, Ronaldo disse que Vampeta era um jogador veloz, hábil tanto para defender quanto para ajudar no ataque, até nas conclusões. “Vai entrar em sintonia com Di Biagio, Seedorf, Jugovic e os outros companheiros. Ele também é muito extrovertido, ajudará o grupo nos vestiários”, declarou o Fenômeno.

Com o aval do craque, com quem dividiria apartamento em Milão, o Velho Vamp fechou um contrato de quatro anos com a Inter no dia 24 de agosto de 2000. Mas a espera para ter o jogador, que vestiria a camisa 25, foi adiada para o dia 5 de setembro. Peça importante para o Brasil, ele foi chamado para a partida contra a Bolívia, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo. Lá, deu três assistências no 5 a 0 sobre os vizinhos – isso que, antes, ele já tinha feito dois gols no 3 a 1 sobre a Argentina, em 1999.

A animação para tê-lo na Pinetina era enorme, visto que no dia anterior a Inter havia sido eliminada na fase preliminar da Liga dos Campeões pelo Helsingborg, da Suécia, em um dos tantos vexames daquela época. O anúncio no dia seguinte à queda fez com que a Gazzetta dello Sport usasse um trocadilho insinuante em sua capa, já que o brasileiro chegava com status de craque: “Inter, una Vampeta di speranza”. Vampata, em italiano, é chama. Ou seja, Vampeta seria a chama de esperança para aquela temporada que começava mal. Ele era a chave para um meio-campo desorganizado e sua contratação entusiasmava a torcida.

A campanha 2000-01, no entanto, terminaria ainda pior para a Inter. Vampeta chegava juntamente a outros nomes badalados, como Javier Farinós, Robbie Keane e Hakan Sükür, que, assim como ele, também não se adaptariam. Um tal de Andrea Pirlo também chegava, após empréstimo à Reggina, e logo sairia.

Apresentado no dia 5 de setembro, Vampeta entrou em campo três dias depois, com poucos treinos. O técnico Marcello Lippi também aprovava o jogador e, visto as ótimas condições físicas do brasileiro em relação às dos companheiros, em pré-temporada, o escalou como titular na Supercopa Italiana, contra a Lazio.

A formação da Inter naquele dia era a seguinte: Ballotta; Serena, Córdoba, Domoraud, Macellari; Vampeta, Farinós, Jugovic; Seedorf; Keane, Sükür. À época, parecia um grande time. Tanto é que deu testa a uma Lazio multiestelar e campeã nacional, que foi a campo com Peruzzi; Pancaro, Nesta, Mihajlovic, Favalli; Stankovic, Simeone, Verón, Nedved; Claudio López, Crespo – curiosamente, uma equipe com sete jogadores que vestiram a camisa nerazzurra também. A partida teve superioridade dos biancocelesti, que venceram por 4 a 3, mas foi bastante parelha. Vampeta até jogou bem e, meio sem querer, marcou o seu único gol pela Internazionale naquele dia.

Olhar de terror: Vampeta participou de uma das mais famigeradas temporadas da Era Moratti (Goal)

Faltava quase um mês para o início da Serie A, mas a Inter teria, até lá, compromissos pela Copa Uefa e pela Coppa Italia. Foram quatro partidas de mata-mata, em ida e volta, e Vampeta atuou nas quatro. Na estreia pelo Italiano, o camisa 25 foi titular em Reggio Calabria, contra a Reggina, mas acabou substituído aos 25 do segundo tempo. Cabalístico, digamos. Muito mal em campo, a Inter foi derrotada por 2 a 1, completando o péssimo ciclo de início de temporada: eliminação vexatória da LC, derrota na final da Supercopa e queda ante um time pequeno. Nervoso, Lippi deu uma entrevista impactante após o jogo. “Digo o que disse a eles no vestiário, meia hora atrás. Fosse eu o presidente, demitiria o treinador e depois colocaria os jogadores em fila, de frente para um muro, e sairia chutando as bundas de cada um deles, porque não dá para jogar assim”. Lippi, é claro, foi demitido horas depois.

Para o lugar de Lippi, o diretor técnico Gabriele Oriali contratou um ex-jogador da equipe: Marco Tardelli, que estava no comando da seleção italiana sub-21 e havia vencido a Euro da categoria meses antes – o treinador, assim como Lippi, era muito identificado com a Juventus e sua chegada não foi bem aceita pela torcida.

A contratação do novo comandante colocava mais uma anedota na vida de Vampeta na Itália. Meses antes de chegar ao clube, o brasileiro estava na mira da Fiorentina e havia sido chamado de “Tardelli moderno” por Giancarlo Antognoni, um dos maiores meias da história do clube e da Itália, que fazia as vestes de diretor geral viola. Talvez o recém-contratado técnico nerazzurro não tenha curtido – ou não tenha mesmo entendido – a comparação, pois Vampeta só jogou novamente outras duas vezes pela Inter. Foi titular no 0 a 0 contra o Vitesse, pela Copa Uefa, e na tunda contra o Parma na Coppa Italia: um sonoro 6 a 1. Foram apenas oito partidas na Inter.

Titular da seleção brasileira, conhecido e prestigiado no seu país e concorrendo por uma vaga na Copa do Mundo, Vampeta logo mexeu seus pauzinhos para tentar sair do time antes que Marcos Assunção tomasse sua vaga como titular canarinho. Insatisfeito, pediu para ser negociado, e não deixou de soltar farpas para a imprensa. “Nunca vivi uma situação assim. Titular da seleção do meu país, eleito o melhor jogador do Brasileirão e não jogo. No Brasil, sou tão conhecido quanto Romário e Ronaldo. Aqui não sou porque não me põem para jogar”, disparou, à época. Em janeiro, Vampeta acabou trocado pelo meia francês Stéphane Dalmat (outro que não vingou no futebol) e foi jogar no Paris Saint-Germain. A Inter terminaria a Serie A na quinta posição, com direito a uma vaga na Copa Uefa.

Após apenas seis meses na França, onde também não se adaptou, Vampeta foi para o Flamengo, em uma transação complicada, que levou o atacante Reinaldo à França e que, meses antes, já havia levado a então promessa Adriano a Milão. Espirituoso, o Velho Vamp disse que não gostou nem da Itália nem da França, e que preferia as praias da Bahia ou o ambiente liberal da Holanda, onde podia beber e sair com mulheres à vontade. Na chegada ao Brasil, ainda disparou contra Massimo Moratti: “Sabe muito de petróleo [nota: o ex-presidente da Inter é dono da Saras, holding de energia], mas de bola não entende nada”, ironizou.

Depois de alguns meses em que fingia jogar enquanto os dirigentes do Fla fingiam que pagavam, o volante fechou com o Corinthians. Pelo Timão, conseguiu assegurar uma vaga no grupo da Seleção para a Copa do Mundo, após resolver desentendimentos com Luiz Felipe Scolari – ex-técnico do Palmeiras, Felipão deixou para trás a rivalidade entre o seu antigo time e o Corinthians e convocou o baiano, mesmo com a falta de continuidade nos últimos meses. Antes titular absoluto, com Luxemburgo e Leão, Vampeta perdeu a vaga e só atuou na estreia, entrando no segundo tempo contra a Turquia. Mesmo assim, é uma das figuras mais lembradas na conquista do pentacampeonato por, na comemoração, ter bebido demais e ter descido a rampa do Palácio do Planalto em uma desengonçada cambalhota.

A descida na rampa presidencial em Brasília foi também o início do declínio de sua carreira como jogador. Descartado dos planos da comissão técnica verde e amarela, Vampeta ainda sofreu uma séria lesão pelo Corinthians, que o fez ficar fora dos campos por oito meses. Ele ainda passou pelo Vitória, pelo Kuwait e, por alguns outros clubes do Brasil – a nota mais baixa do final da carreira foi a queda para a Série B com o Corinthians, em 2007. Após curta experiência como treinador, Vampeta é, desde 2011, diretor esportivo do Grêmio Osasco – que, em 2013, comprou o Audax-SP e o Audax-RJ, atualmente presididos pelo ex-jogador.

No final das contas, apesar de ser campeão do mundo pela Seleção e pelo Corinthians, Vampeta deixou a Europa conhecido como uma das piores transações da história da Inter – um dos grandes bidoni, como se diz por lá – e como um jogador folclórico. A mídia e os torcedores do Velho Continente não acompanharam o seu auge e, até hoje, o relembram por outros motivos, todos extracampo.

Lá, o Velho Vamp virou notícia pelo bigodinho infame, à Clark Gable, e por ter posado nu para recuperar o cinema que frequentava na infância em Nazaré. Ou por gostar de tomar uma cervejinha, se enveredar entre rabos de saia e também por ter jogado fora um vinho que o Papa João Paulo II tinha dado de presente a Ronaldo. Histórias pitorescas e espirituosas, mas que em nada ajudaram os torcedores da Inter a se afeiçoarem e pedirem por sua permanência após a fortuna gasta para finalizar a sua contratação.

Marcos André Batista Santos, o Vampeta
Nascimento: 13 de março de 1974, em Nazaré (BA)
Posição: volante
Clubes: Vitória (1990-94 e 2004), PSV Eindhoven (1994 e 1996-98), VVV-Venlo (1995), Fluminense (1995-96), Corinthians (1998-2000, 2002-03 e 2007), Internazionale (2000), Paris Saint-Germain (2001), Flamengo (2001), Al-Salmiya (2004), Brasiliense (2005), Goiás (2006), Juventus-BRA (2008) e Grêmio Osasco (2011)
Títulos: Copa do Mundo (2002), Mundial de Clubes (2000), Copa América (1999), Campeonato Brasileiro (1998 e 1999), Copa do Brasil (2002), Campeonato Holandês (1996-97), Supercopa da Holanda (1996 e 1997), Torneio Rio-São Paulo (2002), Campeonato Paulista (1999 e 2003), Campeonato Baiano (2004) e Campeonato Goiano (2006)
Seleção brasileira: 41 jogos e 2 gols

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