Serie A

Copa de 90 ajudou a frear o futebol na Itália

No último ano, a Serie A teve uma queda de 7% na média de público; na última década, 18%; em 20 anos, 32%. Por um lado, a Roma foi o time que mais levou torcida ao estádio em 2014-15; por outro, encheu pouco mais da metade do gigante Olímpico. Se quer achar um culpado, busque a resposta a partir da Copa do Mundo de 1990. Nos anos seguintes, somente a Juventus mostrou e instituiu uma renovação que a Itália precisava.

O Mundial de seleções daquele ano foi sem graça, todavia, estabeleceu-se como um divisor de águas para o futebol italiano. Este foi o último torneio imediatamente anterior às repaginações do Campeonato Inglês e da Liga dos Campeões. Para Itália-90, o país construiu dois grandes estádios – Delle Alpi, em Turim, e San Nicola, em Bari – para se juntar aos outros 10 selecionados. Poucos foram, para ilustrar a comparação, os grandes palcos construídos na Europa da década de 1970 e 80 – as exceções foram o Parc des Princes (1972), Westfalenstadion (1974) e Louis II (1985).

O Delle Alpi (imagem no topo) era um monstro arquitetônico de 70 mil lugares erguido em uma região periférica de Turim. Uma das principais reclamações da torcida da Juve era a pista de atletismo. Uma parte dos 200 milhões de euros gastos no estádio foram investidos pelo Comitê Olímpico Italiano (CONI), que exigia a pista. O campo foi demolido 18 anos após a construção. É possível contar nos dedos quantas vezes a pista foi utilizada. A entidade determinou a mesma coisa para a construção do San Nicola, a aberração de 52 mil lugares na Apúlia – em 2011, o Bari teve 5 mil de média de público.

Lá na Copa, ninguém se importou com a pista de atletismo ou qualquer outra coisa. Afinal, a Fifa não pedia por cadeiras, grama importada do Nepal ou outros luxos. Os estádios serviam para o propósito original: assistir e jogar futebol. Ninguém esperava mais de uma construção daquelas no início daquela década até a promoção da Amsterdam Arena, em 1996. De fato, a primeira arena moderna foi erguida em Copenhague – o Parken, em 1992 -; três anos mais tarde, o Middlesbrough construiu o Riverside. Foi com o estádio na Holanda, entretanto, que a forma de consumir o esporte foi revolucionada.

A partir de então, os clubes notaram que as arenas modernas trariam benefícios financeiros, muito por conta da facilidade de investimento externo. Inglaterra e Holanda se modernizaram de bate-pronto, seguidos do restante da Escandinávia e da Alemanha. A França, com exceção do Stade de France, e a Espanha foram no embalo. A Itália parou no tempo porque tinha acabado de levantar ou reformar os principais estádios locais.

O Belpaese gastou 1,25 bilhão de liras (aproximadamente 1 bilhão de euros) em inovações para aquele Mundial e 84% a mais que o previsto. Esses projetos não incluíam dinheiro empregado somente nos estádios, mas também na infra-estrutura da região. O hotel Ponte Lambro, em Milão, por exemplo, foi durante 24 anos apenas uma construção inacabada que parecia de um filme de terror. Os clubes não tinham dinheiro para gastar em campos públicos e nenhuma cidade de governantes inertes queria investir novamente posto que estava pagando a conta da Copa.

Um levantamento do diário “Il Giornale” afirmou que o Estado pagou em 2011, no mínimo, 55 milhões de euros em aplicações relacionadas à Copa de 1990. O retorno, é bem verdade, foi pouco se comparado ao investimento pesado da década. Os únicos estádios que realmente tiveram um retribuição decente foram o Olímpico e o Giuseppe Meazza, sedes de finais continentais de 95, 96, 97, 2001 e 09.

As ideias começaram a surgir somente na segunda metade da década de 2000. Foram limitadas, afinal, qual presidente teria a audácia de investir em um patrimônio privado ou na reforma de um ambiente que é propriedade de um estado economicamente fragilizado? O primeiro estádio que deve ser apresentado ao público após o Juventus Stadium – primeira construção italiana em 25 anos – é o Stadio della Roma.

O palco está sendo construído no lugar do hipódromo em Tor di Valle, no sul da cidade, e tem capacidade para 52,5 mil pessoas. Inspirado no Coliseu, tem a previsão de lançamento para temporada 2016-17. Na sequência, os rivais de Milão. O Milan apresentou um projeto em julho último para a construção de um estádio no bairro vizinho ao San Siro, Portello, até 2020. Assim, o Meazza seria renovado até o mesmo ano, com novo teto e retirada do terceiro anel.

O problema é que a burocracia italiana é extremamente lenta. O governo necessita aprovar a construção de um estádio ou arena em outra localidade, mas não quer sair no prejuízo. Um claro exemplo foi o que aconteceu em Cagliari, quando o presidente Massimo Cellino apresentou o projeto da Karalis Arena, em 2007. O local teria não mais que 23 mil lugares e seria financiado completamente com dinheiro privado.

Dois anos depois, a briga com o prefeito Massimo Zedda emperrou o projeto, que ainda não saiu do papel devido à oposição e pela estrutura ineficiente do sistema. Em 2012, o Cagliari teve de abandonar o Sant’Elia e mandou alguns jogos no Nereo Rocco, em Trieste, quase na divisa com a Eslovênia. Na temporada seguinte, retornou à Sardenha para atuar no puxadinho chamado Is Arenas enquanto a indefinição sobre o novo Sant’Elia permanece. Outro exemplo é o Stadio di Palermo: o projeto foi apresentado há quatro anos, porém, não existe novidade alguma até o momento.

As mesmas situações são vistas em Bolonha e Verona. O Bologna e a comuna na Emília-Romanha tentam apressar a decisão governamental da reforma completa do Renato Dall’Ara. O resultado sai em até dois meses e a previsão de entrega é para o primeiro jogo de 2019-20. No Vêneto, a administração da comuna de Verona apresentou um projeto complexo de 40 milhões de euros para colocar o Marcantonio Bentegodi dentro das diretrizes da Uefa. O estádio, de acordo com a proposta, seria incluído na lista das sedes da Euro 2016 – que será realizada na França. De qualquer forma, as ideias de ampliar a cobertura, mudar a arquitetura e criar serviços dentro do estádio foram engavetadas.

A solução encontrada por outras tantas equipes, mediante os fatos apresentados, foi a renovação parcial das construções públicas. Nos últimos dez anos, Olímpico, San Paolo, Meazza, Artemio Franchi, Renzo Barbera, e Azzurri d’Italia foram reformados. Ampliações, visibilidade, construções de novos níveis, teto, iluminação, placares. As mudanças foram diversas nos diferentes estádios – em Verona, aliás, a cidade melhorou o sistema de transporte para os torcedores que rumam ao Bentegodi.

A Juventus chegou a um acordo com Turim para a compra do Delle Alpi por 25 milhões de euros. A cidade, contudo, não fez qualquer planejamento para levar transporte público às redondezas do estádio. Das grandes casas da Bota, Meazza e San Paolo são os únicos que têm fácil acesso às estações de trem e metrô. Como se isso fosse a única coisa que afastasse o torcedor médio das arquibancadas…

Higiene, alimentação e segurança completam o ambiente nocivo dos estádios italianos. O fã médio prefere o conforto da própria residência. A Roma levou 41,1 mil torcedores por partida em 2014-15. Assim, os giallorossi teriam o sexto maior público na Espanha, o oitavo maior na Inglaterra e 12º da Alemanha. Nos últimos quatro anos, o Napoli perdeu 13% da torcida que ia ao San Paolo; no mesmo período, a Juventus ganhou 42% com a nova arena.

Existe a esperança enrustida de uma melhora do público convocando bons jogadores ao torneio. Bacca, Miranda, Dzeko, Mandzukic e Kondogbia são excelentes atletas, mas não têm, de longe, um apelo midiático de Thiago Silva, Ibrahimovic ou Del Piero. Da mesma forma, o fim da questão Calciopoli põe um basta no acompanhamento de um esporte falseado. A renovação iniciada pela Juventus pode, sim, render frutos para o futuro em progressão crescente. Quem vai pagar?

Publicado originalmente na Gazzebra

1 comentário

  • O campeonato perdeu a graça também pelo fato de clubes, de países vizinhos serem comprados por investidores milionários( muitas das vezes asiáticos) e transformarem esses clubes em verdadeiras potencias, coisa que na Itália não aconteceu.
    Clubes como PSG, Manchester City, Chelsea passaram a frente dos gigantes italianos em termos de elencos.
    Clubes como Milan, Inter, Roma, Lazio vivem hoje no anonimato, não ganham títulos importantes faz muitos anos. Quando participam de competições europeias, é só com coadjuvante.
    O que ficou do campeonato italiano foi o passado glorioso e vencedor e a tradição!

Deixe um comentário