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Cristiano Lucarelli, um goleador com ideologia

Por bem ou por mal, Cristiano Lucarelli é um dos personagens mais marcantes da Serie A moderna, mesmo depois de ter se aposentado. Matador, explosivo e polêmico, o ex-atacante chamava atenção pelo futebol que demonstrava em campo, mas também por ser uma personagem interessante. Ele passou por mais de uma dezena de clubes, mas se destacou mesmo no de sua cidade, o Livorno – pelo qual também torce desde moleque e que só foi defender mais perto do final da carreira, inclusive na primeira divisão. Lucarelli também ficou conhecido por seu ativismo político, que manifestou vestindo a camisa dos toscanos.

Se uma pessoa é de Livorno, há grandes chances de ela ser esquerdista, uma vez que a cidade foi palco da fundação do Partido Comunista Italiano, em 1921, e, desde então, só elegeu governos de esquerda e centro-esquerda. Com Lucarelli não é diferente: o atacante nasceu no seio de uma família de militantes do PCI, cujo pai era estivador no porto da cidade e atuava junto a sindicatos. Tanto Cristiano quanto seu irmão mais novo, o zagueiro Alessandro – que, atualmente, é capitão do Parma –, se tornaram jogadores com caráter e personalidade fortes, opiniões contundentes e líderes em campo e nos vestiários. Cristiano, em manifestações públicas, já se mostrou fã de Che Guevara, Antonio Gramsci e Lênin. Nunca foi de ter meias palavras.

Muitos comunistas poderiam alardear por aí que “futebol é o ópio do povo”, mas Lucarelli (assim como Paolo Sollier, nos anos 1970) fez o caminho inverso e entrou de cabeça no mundo do esporte. A ligação do jogador com a equipe amaranto poderia ser grande pelo fato de ele ter nascido em Livorno, mesmo que, quando Lucarelli nasceu, a equipe (praticamente falida), atuasse na terceira divisão italiana e estivesse longe dos melhores dias, que datavam de antes da II Guerra Mundial. Logicamente, há mais motivos para a paixão do jogador ser tão intensa: a torcida do clube compartilha das mesmas crenças políticas que ele. Os labronici podem, facilmente, ser considerados uma espécie de St. Pauli da Itália e, nos jogos, a torcida, uma das poucas de esquerda da Bota, costuma cantar Bella Ciao, um hino antifascista.

O amor pelo Livorno é tão grande que o artilheiro também tatuou o escudo do clube em seu braço esquerdo. Mas não fica por aí: Lucarelli começou sua carreira profissional em 1992 e só atuou pelo time do coração em 2003, algo que não impediu que ele participasse da fundação de um grupo de ultràs amaranto, em 1999. O Brigate Autonome Livornesi, já extinto, tinha postura assumidamente esquerdista e foi homenageado pelo jogador quando ele assinou pelo clube, uma vez que sua camisa 99 simbolizava o ano de fundação da tifoseria. É muito raro que um jogador profissional de certo nível assuma posições fortes quanto essa, já que todos são profissionais e estão passíveis de mudarem de clube diversas vezes em uma carreira tão curta.

Por isso, é fácil de dizer que o posicionamento político do artilheiro certamente já lhe fechou portas em outros clubes, bem como na seleção. Sua breve história com a Nazionale – foram apenas seis jogos e três gols pela Squadra Azzurra, sem contar as seleções de base – carregou um problema antigo: nas Eliminatórias para a Euro sub-21, Lucarelli marcou contra a Moldávia, levantou sua camisa e, por baixo, mostrou um desenho com a face de Che Guevara nas cores do Livorno – detalhe: a partida acontecia no estádio Armando Picchi, de sua cidade natal. Resultado? Multa e exclusão do torneio.

Os irmãos Lucarelli e Igor Protti, outro ídolo da história do clube livornês (TMW)

Não é exagero dizer que o Livorno foi a seleção de Lucarelli, nos tempos em que viveu seu auge. O atacante chegou a seu time do coração apenas em 2003, quando optou por deixar de lado as chances de se firmar na Serie A e pediu ao Torino que aceitasse a proposta de empréstimo dos toscanos, que militavam na segundona – haviam voltado à Serie B em 2002, depois de mais de trinta anos penando entre a sexta e a terceira divisões.

A primeira temporada de Lucarelli no Armando Picchi foi fantástica: o Panzer anotou 29 gols em 41 jogos e foi vice-artilheiro do torneio com um a menos que Luca Toni, do Palermo. Eram gols de todos os jeitos, pois Lucarelli era um atacante muito eficiente: cabeceava bem, usava a força a seu favor e, ao contrário do que seu porte físico possa sugerir (1,88m e 83 kg), era um atacante muito ágil, especialista em gols acrobáticos. Além de finalizar bem de dentro da área, ele era ótimo cobrador de faltas – batia forte e colocado – e também ajudava Igor Protti, maior artilheiro da história do Livorno, a marcar seus gols – foram 22 naquela Serie B.

Com todos os gols e esse repertório, o comunista ajudou o Livorno, treinado por Walter Mazzarri, a concluir o campeonato na terceira posição, garantindo a volta à elite após 55 anos. Quando criança, Lucagol sonhava marcar gols contra o Pisa, maior rival do clube e, assim, levar o time à primeira divisão. De alguma forma, tinha conseguido.

As excelentes partidas pelo time labronico fizeram com que o Torino quisesse contar com o atacante de novo, nem que isso significasse abrir a carteira e cobrir o direito de compra em definitivo que os livorneses tinham. Os granata ofereceram 4 bilhões de velhas liras ao Livorno e 1 bi para Lucarelli. O atacante não quis nem ouvir: rejeitou a proposta pois queria permanecer no seu time do coração na disputa para a Serie A, mesmo ganhando apenas metade daquele valor. Por causa disso, ganhou o apelido de “Mister Miliardo” – ou “Senhor Bilhão”.

O jogador chegou à Serie A na companhia do seu irmão, contratado pelo Livorno, e com o moral redimido: na elite, tinha atuado bem apenas pelo Lecce, em duas temporadas, e tido passagens apenas regulares por Atalanta e Torino, sem falar no fracasso no Valencia, da Espanha. Apesar de tudo, Lucarelli conseguiu melhorar sua reputação: foi o grande destaque na boa campanha do time toscano, que acabou na 10ª posição, e também se sagrou artilheiro da Serie A, com 24 gols. Lucagol comemorava sempre com o punho direito alçado, mas deixou a comemoração de lado quando polêmicas começaram a relacioná-la ao saluto romano de Paolo Di Canio. “Não queria mais ouvir esse tipo de coisa”, declarou.

No ano seguinte, os labronici – que foram treinados primeiro por Roberto Donadoni e depois por Carlo Mazzone – concluíram a Serie A na 9ª posição, mas os vereditos do Calciopoli lhe levaram à 6ª posição e uma inédita participação na Copa Uefa. Mister Bilhão foi o grande responsável por tudo: fez 19 dos 37 gols livorneses no torneio.

Nos dois anos que antecederam à Copa do Mundo da Alemanha, Lucarelli só ficou atrás de Toni como italiano que mais gols anotou – superou Pippo Inzaghi, Alberto Gilardino e Vincenzo Iaquinta. Porém, o técnico Marcello Lippi optou pelos quatro anteriores, e só convocou o livornês para dois amistosos, em 2005. Lucarelli só voltaria a ser chamado outras quatro vezes por Donadoni, entre 2006 e 2007. Até hoje, o atacante é um dos seis jogadores do Livorno a terem vestido a camisa azzurra.

Em 2006-07, Lucarelli fez mais um campeonato praticamente impecável: fez 20 dos 41 gols da equipe, mas entrou em rota de colisão com o polêmico presidente Aldo Spinelli. O atacante discutiu com o cartola porque havia sido contrário à demissão do treinador Daniele Arrigoni e chegou a admitir publicamente que deixaria o clube ao final da temporada.

Depois de insistência da torcida, Cristiano dissera que decidiria o seu futuro após o campeonato acabar e foi especulado por Fiorentina e Roma. O jogador declarou que ficaria no Livorno, mas recebeu uma proposta do Shakhtar Donetsk: prestes a fazer 32 anos, ganharia 3 milhões de euros anuais, enquanto ao Livorno foram destinados 8 milhões de euros. Negócio  fechado e o atacante, que trocara um bilhão por jogar com a camisa amaranto, dessa vez renunciou à paixão, rumou à Ucrânia (ex-república soviética, vale dizer) e desapontou uma parte da torcida. Anos antes, Lucarelli declarara que deixar o Livorno seria “um trauma, seria como me separar da minha esposa”.

Lucagol teve passagem de altos e baixos pelo Torino (Getty)

O antes, o depois e o retorno do filho pródigo
Lucarelli teve um início de carreira interessante na Serie B antes de fazer sucesso com a camisa do Livorno. Emprestado pelo Perugia ao Cosenza, fez 15 gols na segundona e chegou a ser convocado para a Olimpíada de Atlanta, em 1996, sendo titular da Itália, aos 20 anos. Passou ao Padova, guardou 14 gols na segunda divisão de 1996-97 e fazia parte da seleção sub-21 italiana, até que mostrou a camisa de Che Guevara aos companheiros livorneses e foi suspenso.

O bomber passou à Atalanta, e marcou apenas cinco gols na campanha que culminou no rebaixamento dos nerazzurri. Mesmo assim, chamou a atenção de Claudio Ranieri, que treinava o Valencia, e foi contratado. Na Espanha, porém, só jogou 19 vezes e uma lesão o afastou dos gramados por um longo tempo.

Lucarelli voltou à Itália e reforçou o modesto Lecce, se tornando o destaque da equipe em duas campanhas de permanência na Serie A sem grandes dificuldades: marcou 27 gols em 59 jogos, marca que o levou a uma passagem de dois anos pelo Torino. Pelo time grená, teve uma primeira temporada positiva, com nove gols marcados; um deles em um emocionante dérbi contra a Juventus: a Velha Senhora vencia por 3 a 0, mas o Toro buscou o empate.

Os quatro anos em Livorno pareciam indicar que o Panzer terminaria a carreira com a camisa do seu time de coração, pela paixão pelos amaranto e pelo fato de ser o maior período que Lucarelli jogava em uma única equipe. A ida para o Shakhtar Donetsk frustrou estes planos, e foi um verdadeiro embuste: seis meses depois, sem conseguir se adaptar, o italiano voltava a seu país, contratado pelo Parma por cerca de 6 milhões de euros.

A passagem por Parma não foi das melhores. Logo nos primeiros meses, a equipe crociata foi rebaixada para a Serie B, mas Lucagol decidiu ficar e acabou ganhando a companhia de seu irmão, Alessandro, que foi contratado. O Lucarelli mais novo segue lá até hoje, oito anos depois, herdando a faixa de capitão utilizada por Cristiano.

Último clube da carreira do toscano foi o Napoli, no qual atuou muito pouco (Starmedia)

Depois de fazer 12 gols e ajudar o Parma de Francesco Guidolin à voltar para a elite, acabou acertando seu retorno ao Livorno, reconciliando-se com sua “esposa”. A equipe toscana, que também disputara a Serie B e garantira o acesso, o contratou por empréstimo e logo lhe cedeu a camisa 99 outra vez.

O Panzer fez dupla com o experiente Francesco Tavano, mas o elenco amaranto era muito mais fraco que o anterior. Apesar de Lucagol ter anotado 10 tentos, a queda era inevitável e os livorneses amargaram a lanterna da competição. Ao fim de tudo, Cristiano se estabeleceu como o segundo maior artilheiro da história labronica, com 111 gols, somente atrás de Protti, que fez 140. A média de Lucarelli é incrível: 0,6 gol por jogo.

A fama de goleador que o atacante construiu ao longo de sua carreira não se fez valer em seus dois últimos anos de atividade. Se a média de gols em Livorno era de cerca de um gol a cada dois jogos, no Napoli foi muito diferente. O bomber foi um pedido de Mazzarri, que o desejava como reserva de Édinson Cavani, mas Lucarelli só jogou 14 vezes e anotou um tento em dois anos. Uma lesão no ligamento cruzados do joelho e a pouca utilização abreviaram a carreira do atacante, que decidiu se aposentar em 2012. Preferiu não forçar a barra e retornar ao Livorno, sem chamar tanta atenção para sua saída de cena.

Logo que pendurou as chuteiras, Lucarelli começou a carreira como treinador: com quase 37 anos, assumiu a equipe sub-17 do Parma e conquistou o campeonato nacional e a Supercopa da categoria. Em 2013 o ex-atacante teve uma passagem curtíssima pelo Perugia, mas logo voltou à sua Toscana, onde treinou três times na terceira divisão: Viareggio, Pistoiese e Tuttocuoio, seu time atual. Com o Livorno prestes a ser rebaixado para a Lega Pro, não é impossível imaginar que o mais nobre torcedor labronico engate mais um casamento com o clube.

Cristiano Lucarelli

Nascimento: 4 de outubro de 1975, em Livorno, Itália
Posição: atacante
Clubes como jogador: Cuoiopelli (1992-93), Perugia (1993-95), Cosenza (1995-96), Padova (1996-97), Atalanta (1997-98), Valencia (1998-99), Lecce (1999-2001), Torino (2001-03), Livorno (2003-07 e 2009-10), Shakhtar Donetsk (2007-08), Parma (2008-09) e Napoli (2010-12)
Títulos como jogador: Coppa Italia (2012), Copa do Rei (1999), Copa Intertoto (1998), Serie C1 (1994) e Jogos do Mediterrâneo (1997)
Clubes como técnico: Perugia (2013), Viareggio (2013-14), Pistoiese (2014-15) e Tuttocuoio (2015-hoje)
Seleção italiana: 6 jogos e 3 gols

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