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Ian Rush fez história no Liverpool, mas não deixou saudades na Juve

Um dos grandes ídolos da história do Liverpool e um dos maiores jogadores galeses de seu tempo, Ian Rush ficou famoso por suas 15 temporadas e quase 500 jogos pelo clube da terra dos Beatles. Poucos, porém, lembram que ele tem em seu currículo, uma passagem pelo futebol italiano.

Após um início promissor no Chester City (então na terceira divisão) e a transferência para o Liverpool, Rush ganhou destaque com seus gols, que o colocaram como maior artilheiro do time inglês. Em sua primeira passagem, anotou 109 gols em 182 jogos e conquistou vários títulos nacionais e a Copa dos Campeões, o que acabou gerando interesse de outros clubes.

Em 1986, foi contratado pela Juventus, por um valor recorde de transferência na Grã-Bretanha. O motivo de o Liverpool ter aberto mão de seu grande astro foram os problemas financeiros causados após a eliminação dos clubes ingleses da Liga dos Campeões após a tragédia de Heysel – justamente em jogo contra a Velha Senhora. Entretanto, o atacante jogou uma temporada mais pelo clube de Anfield, emprestado. Rush iria substituir Michel Platini, mas o francês resolveu estender sua passagem por Turim por mais um ano, ocupando, junto ao samarinês Massimo Bonini e ao dinamarquês Michael Laudrup, as três vagas de estrangeiros disponíveis para a época.

Rush seria então emprestado à Lazio, para a disputa da Serie B, por uma escolha do presidente Giampiero Boniperti. O britânico, porém, pediu que seu empréstimo fosse feito para o clube com o qual já tinha identificação. Após mais um ano brilhando com a camisa dos Reds, Rushie enfim vestiu a camisa bianconera. A queda de sua seleção, País de Gales, nas eliminatórias para a Eurocopa de 1988 foi crucial para a mudança. “Como Gales não se classificou eu queria me testar. Então optei por enfrentar os principais jogadores do continente”.

O centroavante chegou com o aval de John Charles, atacante galês que foi ídolo da Juve nos anos 1950 e 1960 – os dois, aliás, são os únicos jogadores do país a terem atuado na Itália. Charles, o Gigante Gentil, declarou: “Ian é melhor do que eu e marcará mais gols. Não existe atacante no mundo que entenda mais da arte de fazer gols”. Uma previsão que deu errado.

Jogando no comando de ataque juventino, marcou 13 gols (sendo sete na Serie A) em sua primeira e única temporada. Muito pouco em comparação aos 21 que havia feito na temporada anterior e à sua média quando jogava no Liverpool. Lesões, problemas de saúde e o estilo de jogo defensivo dos italianos foram cruciais para que Rush não fizesse um bom papel nos campos italianos. O galês também se atrasava costumeiramente aos treinamentos – o que lhe custou uma pequena fortuna em multas – e também não conseguiu se adaptar e aprender bem o idioma italiano. Seu colega mais próximo era Laudrup, que falava inglês fluente.

O atacante galês tentou se sacrificar pelo time, mas não convenceu o presidente Boniperti (Turnstyle)

O bigodudo jamais conseguiu fugir da antipatia dos torcedores, que ainda recordavam da tragédia de Heysel e tinham inimizade com a torcida do Liverpool – clube do qual Rush poderia ser considerado imagem e semelhança. Apesar disso, a grande lembrança que o galês deixou nos juventinos foram os quatro gols anotados ante o Pescara, numa partida da Coppa Italia.

Até hoje, Rush declara não entender o porquê de não ter se firmado na Vecchia Signora. Fato é que ele estava muito acostumado a atuar dentro da área, como centroavante, e teve de buscar muito jogo na Juve – quando atuava na Itália, chegou a reclamar que os colegas não o ajudavam muito. Estes problemas aconteciam porque era uma época de transição: o técnico Giovanni Trapattoni havia saído um ano antes – substituído por Rino Marchesi –, Gaetano Scirea estava em seu último ano como profissional e Platini havia deixado a equipe, substituído por Laudrup e Moreno Magrin.

Após a má campanha da Juventus e dificuldade de adaptação de Rush em Turim, os dirigentes Gianni Agnelli e Giampiero Boniperti preferiram se desfazer de Rush e não fizeram objeção alguma em vendê-lo de volta ao Liverpool, a “casa onde seu futebol cresceu” – embora por um valor um pouco abaixo do que pagara; 2,8 milhões de libras, contra 3,2 milhões no ano anterior.

Foram mais oito anos em Anfield, antes de rodar por Leeds, Newcastle e Sheffield United. No fim da carreira jogou primeiro em sua terra natal e depois no futebol australiano, numa época em que muitos jogadores prestes a se aposentar se aventuraram na terra dos cangurus.

Pouco tempo depois de se aposentar, Ian Rush voltou ao Chester, dessa vez como treinador. O pequeno clube que perambula pelas divisões inferiores foi a casa da qual o galês não queria sair. “Queria ficar, não achava que estava preparado para ir joga no Liverpool”. Convencido a ir para a terra dos Beatles, tornou-se um dos maiores ídolos do clube e um dos maiores atacantes do futebol mundial. Só não conseguir render o que dele se esperava na Juve, justamente no que considerou o maior desafio de sua carreira.

Ian James Rush
Nascimento: 20 de outubro de 1961, em St. Asaph, País de Gales
Posição: atacante
Clubes como jogador: Chester City (1979-80), Liverpool (1980-87 e 1988-96), Juventus (1987-88), Leeds United (1996-97), Newcastle (1997-98), Sheffield United (1998), Wrexham (1998-99) e Sydney Olympic (1999-2000)
Títulos conquistados: Campeonato Inglês (1982, 1983, 1984, 1986 e 1990), FA Cup (1986, 1989 e 1992), Copa da Liga (1981, 1982, 1983, 1984 e 1995), FA Charity Shield (1982, 1986 e 1990), Copa dos Campeões (1981 e 1984)
Clubes como treinador: Chester City (2004-05)
Seleção galesa: 73 jogos e 28 gols

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