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Ruud Krol foi um dos maiores defensores da história do Napoli e do futebol

Sua Majestade: assim foi chamado Ruud Krol durante sua passagem pelo Napoli. Um dos maiores defensores da história do futebol, o holandês chegou ao San Paolo na fase final da carreira, mas sua enorme qualidade fez com que ele ainda conseguisse jogar bem e conquistasse os corações dos torcedores azzurri.

A história de Krol se confunde com a história do futebol holandês e a do lendário técnico Rinus Michels, expoente do Futebol Total. O jogador, nascido em Amsterdam, começou a carreira no Ajax, treinado por Michels, e aos 19 anos, se tornou titular na lateral esquerda dos Godenzonen – mesmo sendo destro. Em 12 anos pelo gigante de seu país, Krol conquistou 16 títulos, incluindo seus ligas locais, três Copas dos Campeões e um Mundial Interclubes. Por duas vezes, o Ajax de Krol e Johan Cruyff encarou equipes italianas nas finais do maior torneio europeu: em 1972, bateu a Inter de Sandro Mazzola, Jair da Costa e Roberto Boninsegna, e no ano seguinte, a Juventus de Dino Zoff, Roberto Bettega e José Altafini.

Desde muito cedo Krol já mostrava que não estava no esporte a passeio. Poucos meses depois de estrear pelo Ajax, o jogador já ganhava suas primeiras convocações para a seleção holandesa, com a qual atuou 83 vezes. Pela Oranje, ele também fez história: disputou duas finais de Copas do Mundo, perdendo para os anfitriões – Alemanha Ocidental e Argentina, respectivamente. No primeiro mundial, foi peça-chave no esquema de Rinus Michels, e até marcou um gol na segunda fase. Mais experiente, na segunda participação, Krol deixou a lateral esquerda e foi líbero e capitão da Oranje de Ernst Happel, que ficou com o vice na prorrogação.

Já no final da carreira, o capitão Krol ainda ficou com a terceira posição na Bola de Ouro da France Football, em 1979, mas decidiu deixar o Ajax no ano seguinte. O holandês recebeu uma proposta do Vancouver Whitecaps e foi jogar a NASL, precursora da Major League Soccer. Krol jogou apenas 16 vezes pelo clube canadense, mas ganhou muito dinheiro e entrou no All-Star Team. Após alguns meses na América do Norte, o Napoli realizou um sonho antigo e levou o elegante defensor para a Itália.

Após mais de uma década, a Federação Italiana de Futebol abriu o mercado para a contratação de jogadores estrangeiros, em 1980. Assim, o presidente Corrado Ferlaino e o diretor esportivo Antonio Juliano – um dos maiores jogadores da história do Napoli – foram atrás de Ruud Krol e fizeram dele o primeiro estrangeiro contratado pelos azzurri após a reabertura das fronteiras.

Holandês foi um dos melhores jogadores da Serie A no período em que esteve na Itália (New Foto Sud)

O holandês foi recebido com pompa: cerca de 2 mil torcedores o saudaram no aeroporto, 10 mil foram à sua apresentação, e a venda de carnês de abbonamento – similares aos programas de sócio-torcedor brasileiros – subiu instantaneamente. Krol logo ganhou o apelido de “Sua majestade”, dado pelo jornalista Bruno Pizzul e adotado pela torcida. Fazia sentido: Krol foi a primeira grande contratação de uma gestão ambiciosa – e que conseguiu o scudetto anos depois, com Diego Maradona.

Após o acolhimento justo para um campeão – ou um membro da realeza do esporte –, Krol justificou o investimento e o alto salário em campo. Aos pés do Vesúvio, talvez o clima vulcânico tenha lhe proporcionado rejuvenescimento: apesar de já ter 31 anos e estar se encaminhando para a aposentadoria, recuperou a forma física e liderou o time durante quatro temporadas. Nesse período, ganhou outro apelido: “Divino”. Uma infame campanha antiaborto na Itália também o utilizou como mote. Os manifestantes falavam: “imagine, torcedor, se a mãe de Krol tivesse abortado”.

A temporada de estreia do holandês foi a sua melhor em solo italiano. O treinador da equipe, Rino Marchesi, que havia feito excelente trabalho à frente do pequeno do Avellino, o escalou como líbero e não se arrependeu. A classe e elegância de Krol fazia com que ele fosse muito acima da média em termos táticos – mesmo no futebol italiano, construído por grandes defensores. Mestre em antecipações precisas, o holandês geralmente roubava a bola sem cometer faltas, e era muito ágil para armar a saída de bola em seguida. Ele fazia a diferença também com excelente visão de jogo e técnica refinada em lançamentos. Era um privilégio para o Napoli tê-lo como organizador das ações.

O grande desempenho de “Sua majestade” foi crucial para a campanha dos azzurri. O início da temporada 1980-81 foi ruim, mas a equipe conseguiu uma série invicta da 10ª à 24ª rodadas, galgando posições. Um grande terremoto havia atingido a Campânia, região da qual Nápoles é o centro administrativo, em novembro de 1980. Em meio à lenta reconstrução das cidades e ao luto pelos mortos, a torcida se agarrou ao sonho de ver a conquista do primeiro scudetto do clube. Porém, após um tropeço contra o rebaixado Perugia e uma derrota no confronto direto contra a Juventus, o Napoli ficou com a terceira posição. A grande contribuição do craque holandês fez com que a defesa napolitana fosse a segunda menos vazada da Serie A. Pelas grandes atuações, Krol recebeu da revista Guerin Sportivo o prêmio de melhor jogador do campeonato.

A equipe partenopea continuou em grande fase no ano seguinte, no qual Krol continuava a comandar a defesa e se arriscar com qualidade ao ataque. Em 1981-82, o time ficou na quarta colocação e teve a terceira melhor defesa, atingindo novamente a classificação à Copa Uefa. Os dois anos subsequentes, porém, não foram muito felizes: o Napoli sentiu os problemas no menisco do seu líbero e acabou na parte de baixo da tabela em 1983 e 1984. Dessa forma, o Divino, já com 35 anos, deixou o futebol italiano, após 107 jogos e apenas um gol, contra o Brescia. Houve um legado, no entanto: Krol passou o cetro para a maior divindade do Napoli. A saída do holandês deixou em aberto uma vaga de estrangeiro, que acabou ocupada por Maradona.

Apesar de ter 35 anos, “Sua majestade” ainda atuou profissionalmente por dois anos, pelo Cannes, da segundona francesa – e, claro, aproveitou as praias e as mordomias da Côte d’Azur. Quando, enfim, se aposentou, o holandês virou técnico de futebol, com alguns trabalhos em Bélgica, Suíça e França, além de ter ocupado os cargos de auxiliar da Holanda e do Ajax nos anos 2000. Porém, sua carreira no banco de reservas se desenvolveu mesmo na África, principalmente no Egito, na Tunísia e na África do Sul.

Rudolf Jozef “Ruud” Krol
Nascimento: 24 de março de 1949, em Amsterdam, Holanda
Posição: lateral esquerdo e líbero
Clubes como jogador: Ajax (1968-80), Vancouver Whitecaps (1980), Napoli (1980-84) e Cannes (184-86)
Títulos como jogador: Eredivisie (1970, 1972, 1973, 1977, 1979 e 1980), Copa da Holanda (1970, 1971, 1972 e 1979), Copa dos Campeões (1971, 1972 e 1973), Supercopa Uefa (1972 e 1973) e Mundial Interclubes (1972)
Carreira como técnico: Mechelen (1989-90), Servette (1990), Zamalek (1994-99 e 2007-08), Egito (1994-96), Ajaccio (2006-07), Orlando Pirates (2008-11), Sfaxien (2012-13), Tunísia (2013), Espérance de Túnis (2014), Al-Ahli Tripoli (2014), Raja Casablanca (2015), Club Africain (2016-hoje)
Títulos como técnico: Copa Afro-Asiática (1997), Copa do Egito (2008), Campeonato Sul-Africano (2011), Copa da África do Sul (2011), Copa MTN 8 (2008 e 2011), Campeonato Tunisino (2013 e 2014), Copa das Confederações da África (2013), Copa de Clubes do Norte da África (2015)
Seleção holandesa: 83 jogos e 4 gols

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